Após protestos do movimento #VidasNegrasImportam, empresas reveem seu marketing e o uso da imagem de negros

Após protestos do movimento #VidasNegrasImportam, empresas revêem seu marketing e o uso da imagem de negros

A morte do guarda americano George Floyd, no dia 25 de maio, assassinado depois que um policial branco ficou durante 8 minutos e 46 segundos com o joelho sobre seu pescoço, provocou profundas reflexões na cultura dos Estados Unidos. A asfixia brutal desse homem negro, de 46 anos, levou milhões de pessoas para as ruas, não só em seu país, mas no mundo inteiro. Elas clamam pelo fim de um racismo estrutural que permeia todos os setores da sociedade.

Nas últimas semanas, várias empresas e também, órgãos governamentais anunciaram mudanças. Começou um processo de mea culpa coletivo. Muitos estereótipos nasceram no passado, mas com o passar do tempo, companhias e agências de publicidade deveriam ter colocado a mão na consciência e percebido, por conta própria, que certos logos e imagens não eram mais aceitáveis. Por mais que tenham sido “atualizados” nas últimas décadas, traziam com eles uma carga de racismo muito grande, impossível de ser apagada.

É o caso, por exemplo, da garota-propaganda da marca Aunt Jemina. Criada em 1889, a simpática negra com lenço na cabeça e avental foi escolhida para o rótulo de vários produtos, como misturas para o preparo de panquecas e waffles e o mais famoso deles, o syrup, uma espécie de melado, item obrigatório no café da manhã dos americanos.

Segundo historiadores, Aunt Jemina é inspirada em uma canção antiga, “Old Aunt Jemima”, cantada por negros escravos. De acordo com a PepsiCo, atualmente dona da marca, a personagem Jemina é uma criação de Nancy Green, cozinheira e autora de livros, e também… nascida escrava. Em 2014, sua família entrou com um processo contra a multinacional, por nunca ter recebido nenhum dinheiro correspondente aos direitos autorais do uso da imagem, mas perdeu a ação.

Após protestos do movimento #VidasNegrasImportam, empresas revêem seu marketing e o uso da imagem de negros

A Aunt Jemina original e sua versão repaginada, que agora será aposentada

Apesar da velha senhora ter sido aposentada no rótulo e uma mulher negra, de cabelos curtos e com visual mais moderno ter ganhado seu lugar, depois dos protestos do movimento #NegrasVidasImportam (#BlackLivesMatter, em inglês) terem tomado as ruas, a PepsiCo anunciou que irá mudar o conceito visual da marca.

“Vamos tirar a imagem da embalagem e mudar seu nome. Este passo está alinhado com a jornada da PepsiCo em direção à igualdade racial… Essas iniciativas compreendem um esforço holístico para a PepsiCo acompanhar o discurso de uma empresa líder e ajudar a atender à necessidade de mudanças sistêmicas”, informou em seu site.

Em um caso quase praticamente igual, a gigante Mars também decidiu tirar de linha seu garoto propaganda, símbolo do arroz Uncle Ben. Ao chegar ao mercado em 1946, o produto tinha como logo um senhor negro, de cabelos brancos, e uma gravata borboleta – uniforme típico dos serviçais das fazendas sulistas americanas.

De serviçal a empresário: apesar da mudança, as críticas continuaram

Tanto uncle como aunt, tio e tia, em inglês, eram usados pejorativamente para descrever escravos negros mais velhos, que não “mereciam” o título de senhor ou senhora.

Em 2007, a Mars deixou de utilizar “Uncle” e repaginou o visual do Ben, que reapareceu como um CEO de sua própria empresa de arroz, mesmo assim, uma nova mudança foi divulgada nos últimos dias.

“Sabemos que temos a responsabilidade de tomar uma posição para ajudar a pôr fim ao viés e injustiças raciais. Enquanto ouvimos as vozes dos consumidores, especialmente na comunidade negra, e as vozes de nossos colaboradores no mundo inteiro, reconhecemos que agora é o momento certo para evoluir a marca Uncle Ben, incluindo sua identidade visual, o que faremos … Ainda não sabemos quais serão as mudanças ou o tempo exato, mas estamos avaliando todas as possibilidades… O racismo não tem lugar na sociedade”, afirmou a companhia em comunicado público.

Outras multinacionais que se juntam a esse movimento de reflexão na área de marketing são Unilever, L’Oréal e Johnson & Johnson. No final da semana passada, elas informaram que deixarão de usar o termo “branqueamento” em seus produtos de cuidados com a pele.

Disney e Nasa também anunciam mudanças

Uma das principais e mais populares atrações da Disney será completamente remodelada nos próximos meses. A montanha russa Splash Mountain, presente nos parques da Flórida e da Califórnia, terá como tema o desenho infantil “A Princesa e o Sapo”, que tem como protagonista uma jovem negra.

“Tiana é uma mulher moderna, corajosa e empoderada, que persegue seus sonhos e nunca perde de vista o que é realmente importante. É uma ótima história com um forte personagem principal, tendo como pano de fundo Nova Orleans e a baía da Louisiana”, afirmou a Disney Parks em seu blog oficial.

Após protestos do movimento #VidasNegrasImportam, empresas revêem seu marketing e o uso da imagem de negros

Ilustração que mostra como será a nova decoração da Splash Mountain

Todavia, o que está realmente por trás da mudança é abandonar o tema original da atração, o filme “Song of the South” (“Canção do Sul“), duramente criticado por seu viés racista, com personagens que recriam o estereótipo dos afrodescendentes americanos.

Mais de 20 mil pessoas assinaram uma petição online pedindo para que a Disney escolhesse outro tema para a montanha russa.

Já a Agência Espacial dos Estados Unidos, a Nasa, resolveu batizar sua sede, na capital Washington D.C., com o nome de Mary Winston Jackson, a primeira engenheira negra a trabalhar nesse órgão do governo.

“Mary fazia parte de um grupo de mulheres muito importantes que ajudaram a Nasa a conseguir colocar astronautas americanos no espaço. Ela nunca aceitou o status quo. Ajudou a quebrar barreiras e abrir oportunidades para afro-americanos e mulheres no campo da engenharia e tecnologia ”, destacou Jim Bridenstine.

Apesar de válida, a homenagem teria sido ainda melhor se tivesse sido feita enquanto a cientista estava viva. Mary Jackson faleceu em 2005.

Mary era formada em Matemática e Engenharia Espacial

*Com informações do New York Daily News e CNN

Fotos: reprodução internet/divulgação Walter Disney Company e Nasa

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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