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Aos 80 anos, Sebastião Salgado “aposenta” a câmera para se dedicar à edição de acervo e novas exposições  

Aos 80 anos, Sebastião Salgado “aposenta” a câmera para se dedicar à edição de acervo e novas exposições 

Um dos principais nomes do jornalismo mundial, Sebastião Salgado completou 80 anos na semana passada, em 8/2; e anunciou, em entrevista exclusiva ao jornal britânico The Guardian, que está se aposentando. 

Na verdade, ele se refere ao trabalho em campo, à aposentadoria de sua câmera, devido aos impactos dos anos em que trabalhou em alguns dos “locais mais hostis e desafiantes do mundo” pelos quais passou, desde 1973, registrando crises humanitárias, guerras, revoluções, povos e natureza em mais de 130 países.

Salgado sofre com uma doença sanguínea resultante da malária contraída (e mal tratada) na Indonésia e, também, com problemas na coluna devido a explosão de uma mina terrestre que atingiu o veículo onde ele estava durante a guerra de independência de Moçambique, em 1974.

Apesar das sequelas desses episódios, ele continua forte e ativo, andando de bicicleta por vários quilômetros todos os dias.

“Meus projetos fotográficos levam de seis a oito anos para serem completados. Se eu começar um grande projeto agora, talvez morra antes de terminar”, disse à Folha de SP recentemente. “Eu sei que não viverei muito mais tempo. Mas não quero viver muito mais. Já vivi muito e já vi muitas coisas”, contou ao The Guardian.

E completa: “Não vou deixar de fotografar. Nenhum fotógrafo para, porque é uma forma de vida”.

Sua intenção, agora, é dedicar-se à organização e edição de seu acervo que, há quinze anos, já reunia mais de 500 mil fotografias – imagine! -, e à montagem de exposições no Brasil e no exterior.

Para ele, editar é reviver. “A cada fotografia que edito, lembro a velocidade [da câmera] com a qual trabalhei, a abertura do diafragma, lembro dos cheiros que senti naquele momento, as emoções que tive”, explicou à Folha SP. “Estou vivendo uma segunda vez as minhas fotografias.”

Revolução dos Cravos e fábricas soviéticas

Neste momento, Salgado prepara duas mostras. Uma sobre as fábricas soviéticas para o Museu Wende, em Los Angeles, na Califórnia, EUA. E outra, que será inaugurada em maio no MIS – Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, sobre a Revolução dos Cravos, com fotos feitas em Portugal, Moçambique e Angola (na época, colônias).

Esse movimento aconteceu em 1974 e pôs fim a 48 anos de ditadura salazarista (de Antônio Salazar) e 13 anos de guerras coloniais.

Este trabalho tem significados muito especiais para Salgado. 

Primeiro porque foi realizado pouco tempo depois de ele descobrir sua paixão pela fotografia ao pegar emprestada a câmera Leica de Lélia Wanick, pianista e arquiteta com quem é casado há 60 anos, que administra seu estúdio em Paris.

E também porque o casal estava exilado em Paris. Ao saber do levante, o fotógrafo decidiu ir para Lisboa. 

“Vivíamos uma ditadura horrível no Brazil e a identificação com Portugal sempre existiu”, declarou à Folha. “Ver a revolução no país era o máximo para nós. Eles eram um povo triste, de cabeça baixa, esmagados por uma ditadura de 50 anos. Eu vi o país todo despertar depois da anestesia fascista”.

Foi na viagem à Moçambique – um dos locais da África onde revolucionários combatiam soldados portugueses em “guerrilhas fortes” – que aconteceu a explosão que atingiu o carro em que Salgado estava.

Prêmio Sony e COP30

Este ano, também, Sebastião Salgado receberá prêmio do Sony World Photography Awards 2024, por sua Contribuição Extraordinária para a Fotografia, anunciado no ano passado pela World Photography Organisation – WPO (como contamos aqui).

Segundo a instituição, a distinção homenageia uma pessoa ou grupo de pessoas que tiveram impacto significativo no meio fotográfico. 

Aos 80 anos, Sebastião Salgado “aposenta” a câmera para se dedicar à edição de acervo e novas exposições 

Foto realizada na Etiópia, em 2004, do livro e exposição Êxodos

⁠”Suas imagens, expostas em importantes instituições culturais e destacadas em publicações de todo o mundo, se transformaram em símbolo do jornalismo fotográfico contemporâneo“, destacou a WPO sobre o artista.

“Um dos fotógrafos mais talentosos e mundialmente celebrados da atualidade, Sebastião Salgado alcançou renome internacional por suas notáveis composições em preto e branco capturadas ao longo de uma carreira de mais de 50 anos”, completou.

Sobre a homenagem, Salgado declarou: “Sinto-me honrado por receber este prêmio e por saber que o meu trabalho tem chegado ao público. A fotografia é o meu modo de vida, é a minha linguagem. E, ao longo da minha carreira sempre estou interessado em capturar o momento histórico em que vivemos e contar as histórias da nossa espécie e do nosso planeta”.

E completou: “Um fotógrafo fotografa com a sua herança e no meu trabalho procuro explorar a nossa experiência humana partilhada”.

O fotógrafo brasileiro foi o segundo latino-americano agraciado com esse prêmio, depois da mexicana Graciela Iturbide em 2021.

Este ano, Salgado também selecionará imagens de seu acervo sobre a Amazônia para participar da Conferência das Mudanças Climáticas da ONU, a COP30, que será realizada em Belém, no Pará. 

“É um momento forte para apresentar esse trabalho. Precisamos lutar para preservar se ainda quisermos existir como espécie. Caso contrário, vamos desaparecer”.

Aos 80 anos, Sebastião Salgado “aposenta” a câmera para se dedicar à edição de acervo e novas exposições 

Xamã Yanomami em ritual no Pico da Neblina, Amazonas (2014)

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Fontes: The Guardian, Folha de SP, Veja, Estado de Minas 

Leia também:
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Foto (destaque): Renato Amoroso/divulgação

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