‘Anticorpos Agroecológicos’: iniciativa garante segurança alimentar para comunidades vulneráveis

Durante a pandemia, vários foram os movimentos que surgiram e atuaram para garantir a alimentação diária a populações vulneráveis. Sobre algumas delas já escrevi, aqui, no Conexão Planeta. E hoje trago mais uma: a Anticorpos Agroecológicos – Frente de Segurança Alimentar para a Pandemia.

A iniciativa une duas pontas: pessoas em situação de vulnerabilidade e agricultores orgânicos, ao mesmo tempo em que garante a remuneração dos pequenos agricultores e combate a fome distribuindo cestas para comunidades em São Paulo.

E tem um componente a mais: a escolha das hortaliças, frutas e raízes tem a preocupação de fortalecer o sistema imunológico das pessoas. Daí, o nome Anticorpos Agroecológicos.

“Assim que começou a pandemia, surgiram movimentações para doação. Muitas pessoas tinham já essa ideia de doar alimentos agroecológicos ou orgânicos para as comunidades. Víamos muitas campanhas de cestas básicas, inclusive do governo, aqui de São Paulo, mas faltavam alimentos frescos. Então, resolvemos ter o foco em complementar essas doações com alimentos que fossem benéficos para a saúde nessa situação de pandemia. Muitos cítricos, vitamina C, mandioca e batata doce, que ajudam a alcalinizar o sangue”, define Lucas Ciola, ativista ambiental e técnico em agricultura orgânica, coordenador da Frente.

A proposta se desenvolve por meio de um trabalho em rede bem abrangente, que inclui a participação de pessoas, movimentos e organizações em doações em dinheiro ou alimentos, carretos, formação de redes de doadores, mapeamento de comunidades vulneráveis e plantio de hortas urbanas.

A Frente Anticorpos elabora um banco de dados, incluindo comunidades vulneráveis, doadores de dinheiro, agricultores e carretos, e faz também o agendamento para organizar e viabilizar a doação. Até o final de julho, reunindo nove núcleos de produtores agroecológicos, a iniciativa arrecadou R$ 24.940,00, o que possibilitou doação de oito toneladas de alimentos às comunidades.

O movimento, cada vez mais, é coletivo

Lucas relata que a iniciativa começou a partir da manifestação de comunidades com demanda de alimento. “Como tenho muita interlocução com agricultores por conta da agroecologia, e também com as comunidades, por minha atuação com a Rede Permaperifa, comecei a atender as demandas e isso foi se transformando em um operacional de viabilizar as doações. Logo convidei algumas pessoas para me ajudarem e a gente criou essa frente, com objetivo também de mapear agricultores que estavam com a produção encalhada. E focamos em ter doações em dinheiro, vindas principalmente da classe média, pessoas já ligadas em ecologia. Esse dinheiro vai para os agricultores, e a gente leva a produção deles para as comunidades. ”

São muitas as organizações participantes da iniciativa. Segundo Lucas, outras campanhas de doação são parceiras, como o Pertim, o De Ponta a Ponta e o Pontes da Terra. São várias frentes que atuam em parceria e partilham o banco de dados. “Temos vários coletivos se ajudando, como o União de Hortas Comunitárias de São Paulo, a própria Rede Permaperifa, o Muda, a Bancada Ativista, movimentos sociais como o MST, que é um parceiro superimportante. A Cooperapas, em Parelheiros, o Da Roça, agricultores do Alto do Ribeira, enfim. É uma grande associação”, salienta Lucas.

No grupo que operacionaliza as conexões atuam cerca de 15 pessoas, além do coletivo de carretos voluntários. Até o momento, foram atendidas mais de duas mil famílias em situação de vulnerabilidade.

Para Lucas, o fato de organizações que participam da iniciativa terem credibilidade ajuda a chancelar a iniciativa. Ser uma frente híbrida, que inclui sociedade civil, poder público e iniciativa privada atuando juntos proporcionou credibilidade e confiança para as pessoas doarem em dinheiro e ajudarem a movimentar a rede.

Parceria com o Fundo Fica possibilita aluguel de galpão e ampliação da iniciativa

Recentemente, a Frente conseguiu, em parceria com o Fundo Fica, viabilizar o aluguel de um galpão na região do Butantã para ampliar as ações, facilitando o recebimento de caminhões que entregam os alimentos que vêm do campo, o armazenamento os itens e a separação para as doações. Ao mesmo tempo, o galpão possibilitou apoiar parceiros como a Cooperativa Terra e Liberdade e o Grupo de Consumo Feminismo & Agroecologia.

Há a intenção de criar um Banco de Alimentos Civil, focado em doações, e ao mesmo tempo ser um negócio social, algo como um entreposto de alimentos orgânicos baratos – pela promoção da compra direta dos produtores, sem atravessador -, feira agroecológica e local para encontros e promoção de oficinas.

“A parceria com o Fundo Fica tem sido estruturante. Não só porque injetou recurso que viabilizou a doação de duas toneladas de alimento, o que beneficiou cerca de 20 comunidades, como também porque ele nos apoiou no contrato de aluguel do galpão agroecológico, que tem se tornado uma plataforma importante, tanto para as doações quanto para a economia solidária que distribui cestas de alimentos agroecológicos para Grupos de Consumo Responsável e para grupos de entrega delivery, nas vendas diretas do agricultor, ” diz Lucas.

Assim, a dinâmica do galpão não apenas fortalece a doação, mas também a economia de base cooperada ou economia da cooperação. Trata-se de uma plataforma para receber os alimentos da roça e distribuir na cidade, estimulando, cada vez mais, o consumo solidário de alimentos saudáveis. Hoje o espaço dá apoio, em diferentes níveis, a cerca de 12 grupos de agricultores, que escoam alimentos regularmente para a campanha de doação da Frente.

Também está no horizonte da iniciativa a criação de um fundo comum, que ajude no desenvolvimento e funcionamento de um banco social, como o Banco Sampaio ou o Palmas.

O retorno parcial às atividades, com o início do relaxamento do isolamento social em São Paulo, no entanto, tem comprometido um pouco o tempo dos integrantes da Frente. Todos trabalham e acumulam agora mais uma atividade, que é a campanha de doação de alimentos, além do gerenciamento do galpão. Mas a iniciativa segue com a intenção de criar um financiamento coletivo, buscando doadores regulares, em base mensal, de modo a manter as doações mesmo com o relaxamento da quarentena.

“Queremos manter as doações enquanto houver demanda de comunidades com fome, mesmo que esse ritmo diminua um pouco. E estamos testando o galpão com esses empreendimentos solidários, tentando empreender. Estamos negociando com outras organizações que podem trazer apoio financeiro para manter o galpão em funcionamento. Se não conseguirmos, possivelmente teremos que fechar o espaço para manter a doação de alimentos. Temos uma escolha muito responsável para fazer. Se não der para viabilizar o galpão e as doações, vamos priorizar as doações. ”

Foto: Pertim

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

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