Ane Alencar: uma ativista que usa a Ciência em prol da Amazônia

Ane Alencar: uma ativista que usa a Ciência em prol da Amazônia

Quando ainda estava na faculdade e era estagiária na Embrapa, a geógrafa paraense Ane Alencar foi a primeira cientista a mapear incêndios florestais na Amazônia, numa época em que o senso comum ainda dizia que florestas tropicais não pegam fogo.

Pouco tempo depois, estava na criação do IPAM – Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, organização não governamental cujo foco de atuação é o ativismo em prol da conservação ambiental baseado na Ciência.

Especializada em sensoriamento remoto, Ane é uma estudiosa da relação entre fragmentação florestal, desmatamento, mudanças climáticas e suscetibilidade das florestas ao fogo.

“Estamos em um momento de encruzilhada da humanidade. Temos que mudar nossa forma de nos relacionarmos com a terra, com o meio ambiente, porque o planeta está nos forçando a isso. Jogamos para a atmosfera uma quantidade de gases de efeito estufa que faz com que estejamos correndo riscos de grandes catástrofes: secas, fogo e inundações são as principais. Na Amazônia, o fogo é o maior perigo. Precisamos reduzir e controlar o fogo”, disse ao Mulheres Ativistas.

A cientista acaba de se tornar a primeira pesquisadora latino-americana premiada pelo Leading Women in Machine Learning for Earth Observation (em português, Mulheres Líderes em Aprendizado de Máquina para Observação da Terra), organizado pela Radiant Earth Foundation.

O que veio primeiro, a cientista ou a ativista?

A cientista veio primeiro. O ativismo veio por tabela. Sempre gostei de mapas, de entender a paisagem. Passava horas na natureza tentando saber porque as coisas tinham determinado formato, porque o rio fazia aquelas curvas. Era fascinada por minerais, fazia coleção de pedras.

Mas não tinha clareza que queria ser geógrafa. Queria ser psicóloga. Entretanto, desisti de fazer psicologia e acabei optando por assumir a geografia e meu amor pelos mapas. Me fascinei com a geografia porque ela trabalha, tanto na geografia física como na humana, a relação entre o ser humano e a natureza na produção do espaço geográfico.

Começou a trabalhar com sensoriamento remoto ainda na faculdade?

Com dois anos de curso, fui fazer um estágio em cartografia na Embrapa, que fazia parte de um convênio com uma instituição norte-americana (a Woods Hole Research Center). Meu trabalho era para botar no mapa, ou seja, digitar, todos os dados de textura dos perfis de solo do RADAM – Brasil para a Amazônia.

Nunca tinha visto um computador, mas era muito boa em cartografia. As pessoas me davam um mapa, eu tirava coordenadas e, sem muito esforço, sabia calcular escala, ampliar ou reduzir a escala. Esse grupo com o qual fui trabalhar foi o que, mais tarde, formou o IPAM.

Comecei a usar o computador e me perguntaram se gostaria de aprender sensoriamento remoto. Adorei Juntei o dinheiro que tinha na bolsa, comprei meu primeiro computador e mergulhei no mundo das imagens de satélite e do geoprocessamento.

Como as queimadas na Amazônia entraram em seu trabalho?

Ainda no estágio, no início dos anos 1990, estava olhando imagens de satélite – que, para mim, são obras de arte! – e vi umas manchas roxas sobre as florestas em Paragominas, no Pará. Pensei: “o que será isso?”. E comecei a mapear.

Mostrei para o Daniel Nepstad, que era meu chefe, e achamos que poderia ser fogo. Ele me convidou para irmos a campo para investigar e confirmamos a suspeita. Esse trabalho virou um estudo maior sobre o uso do fogo na Amazônia e projetou o IPAM como uma importante fonte de informação e análise sobre fogo na Amazônia.

Com esse trabalho, fui me consolidando na organização como a pessoa responsável pelos mapas, e isso me colocava em uma posição na qual eu contribuía para as várias frentes de trabalho da instituição. Como o trabalho do IPAM tem por objetivo promover a sustentabilidade na Amazônia, acabei me encontrando como ativista também.

Como é ser ativista em uma organização que trabalha com foco na Ciência?

Existem várias formas de ser ativista. Trazer luz a um tema relevante para a conservação e melhorar as informações para o debate, fazendo com que cheguemos a um final mais favorável à conservação e às populações que vivem na Amazônia têm sido nossa forma de ativismo. Sempre nos posicionamos dessa forma, trabalhando com fatos; nossa ferramenta e nossa contribuição são dados científicos.

Os estudos com fogo na Amazônia foram um exemplo disso?

Sim. O embrião dos estudos de fogo no IPAM foi aquela imagem do satélite que identifiquei. Aquele trabalho gerou um mapa de Paragominas com as propriedades e as áreas de cicatrizes de incêndios florestais. Vimos que a floresta amazônica, que ninguém acreditava que pegava fogo, estava queimando naquele momento.

Daniel mostrou para o Banco Mundial, que contratou o IPAM para fazer uma pesquisa mais ampla sobre o uso do fogo na Amazônia, em 1995. Eu tinha acabado de me formar e coordenei essa pesquisa, realizada em cinco lugares da região (Paragominas, sul do Pará, norte de Mato Grosso, Rondônia e Acre).

Ane Alencar: uma ativista que usa a Ciência em prol da Amazônia
Ane Alencar em expedição de campo com foco no combate a incêndios na Amazônia, Cerrado e Pantanal / Foto: Ivan Canabrava/Illuminati Filmes, IPAM, Woodwell

Em uma época desmatamentos recordes, eu procurava por incêndios florestais. Íamos nas fazendas e conversávamos com os fazendeiros que confirmavam as queimadas. Esse trabalho virou um livro, coordenado pelo Daniel Nepstad, a Adriana Moreira e eu, chamado Floresta em Chamas, lançado em 1999, que foi a primeira grande contribuição do IPAM e ajudou a direcionar várias políticas relacionados ao fogo.

Quais trabalhos vieram depois?

Partimos para o Programa Cenários para a Amazônia, no qual fomos trabalhar com impacto de infraestrutura rodoviária como vetor do desmatamento. Tínhamos um grande grupo de pesquisa e publicamos muito sobre isso.

Paralelamente, no início dos anos 2000, veio o Seca Floresta, em Santarém, um grande experimento de exclusão de chuvas, para podermos entender o impacto do fogo na floresta e as emissões de CO2.

Mais tarde, iniciamos o debate sobre REDD – Redução das emissões por desmatamento e degradação florestal, na qual o IPAM foi pioneiro. Eu trabalhava com todas essas iniciativas, pois era a responsável pelas análises espaciais. Além disso, fui fazer mestrado, tentando entender a relação entre fragmentação da paisagem, mudança climática e fogo, que gerou meu primeiro artigo científico.

Estava também trabalhando fortemente no Plano BR-163 Sustentável, um Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável para a área de Influência da Rodovia BR-163, do governo federal, que abrangia uma área de 1,232 milhão de km2 em 79 municípios dos estados do Pará, Mato Grosso e Amazonas.

Eu coordenava a inserção do IPAM naquele processo, que acredito ter sido o trabalho mais bonito da minha vida, com tantas instituições trabalhando juntas em uma proposta para o governo, que acabou gerando um plano para o desenvolvimento da região.

Como foi participar desse processo na BR-163?

Fizemos várias viagens por essas rodovias na Amazônia, entrevistando as pessoas, entendendo a dinâmica local e os desejos da população sobre esses grandes investimentos em infraestrutura na região. Em uma dessas viagens, nós fizemos um levantamento, em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) para a criação das unidades de conservação da Terra do Meio.

Eu estava tão imersa no mundo dos impactos de infraestrutura na Amazônia, que, quando fui fazer doutorado, meu orientador queria que fosse sobre a BR-163, mas quis voltar ao fogo e me aprofundar no entendimento da relação entre fragmentação florestal, desmatamento, mudanças climáticas e inflamabilidade florestal.

Foi uma dissertação muito legal, publiquei dois artigos e um deles mostra claramente as mudanças de padrão de manchas, mudanças de intensidade, período e frequência do fogo na Amazônia. Depois disso, no IPAM, começamos a criar ferramentas e plataformas, como as para medir mudanças no estoque de carbono, até chegarmos na família MapBiomas.

MapBiomas é uma rede colaborativa, formada por ONGs, universidades e startups de tecnologia, que revê as transformações do território brasileiro, por meio da Ciência, tornando acessível o conhecimento sobre o uso da terra, para buscar a conservação e combater as mudanças climáticas.

Essa rede me proporcionou realizar meu grande sonho, de ter dados históricos de cicatriz de fogo para toda a Amazônia, para podermos explorar, analisar e entender a dinâmica do fogo como agente de transformação da paisagem. No ano passado, lançamos a primeira coleção com esse histórico e estamos terminando um artigo sobre isso agora.

Como você vê a situação da Amazônia atualmente?

Estamos em um momento de encruzilhada da humanidade. Temos que mudar nossa forma de nos relacionarmos com a terra, com o meio ambiente, porque o planeta está nos forçando a isso. Jogamos para a atmosfera uma quantidade de gases de efeito estufa que faz com que estejamos correndo riscos de grandes catástrofes: seca, fogo e inundações são as principais.

Na Amazônia, o fogo é o maior perigo. Grande parte do fogo é acidental. A floresta não deveria estar pegando fogo, mas está, e cada vez mais frequentemente, o que a deixa cada vez mais suscetível a novos incêndios. Precisamos reduzir e controlar o fogo.

E como isso pode ser feito?

Estamos tentando fazer com que a degradação florestal por fogo seja levada em consideração nas emissões de gases de efeito estufa. Internacionalmente, há países que não contabilizam essas emissões porque o fogo para alguns desses países é considerado como distúrbio natural, como no Cerrado por aqui.

São locais que se recuperam rapidamente depois que pegam fogo. Mas a Amazônia não é adaptada ao fogo, ela é muito sensível e está sendo fortemente impactada. Meu próximo sonho é ajudar a montar uma rede de pesquisa de florestas tropicais para que possamos nivelar o conhecimento sobre degradação florestal por fogo e demonstrar a contribuição dessas florestas para as emissões, para que possamos protegê-las.

Você é otimista em relação ao que pode ser feito?

Tem dias que me sinto completamente pessimista e outros em que me sinto otimista. Prefiro acreditar que é possível, senão eu paraliso. Me lembro muito da década de 1990, com as taxas altíssimas, que chegaram a mais de 25 mil quilômetros de desmatamento ao ano. Nunca pensei que chegaríamos a menos de 10 mil quilômetros e conseguimos.

O Brasil conseguiu reduzir o desmatamento da maior floresta tropical do mundo com inteligência, acreditando na ciência, fortalecendo as instituições responsáveis pelo monitoramento e comando e controle, e principalmente fazendo valer a legislação ambiental. Com um governo favorável e boa vontade, mostramos que é possível, que podemos fazer.

O desmonte atual me deixa triste, pois penso que tudo pode mudar muito rapidamente, é só flexibilizar todas as barreiras para que poucas pessoas possam ganhar mais dinheiro à custa dos recursos naturais dos brasileiros, como esse projeto para liberar a mineração em terras indígenas.

Espero que consigamos reverter, mas não tenho uma resposta pronta. O otimismo é aquele que me dá vontade de acreditar que as coisas vão mudar, porque eu já vi isso acontecer.

Quais os desafios de ser uma mulher cientista no Brasil?

Tive muita sorte de entrar em um grupo de pesquisa e uma instituição que me deram liberdade e permitiram suprir minha necessidade de aprender sem ter que me preocupar se eu era homem ou mulher. Mas vejo que, infelizmente, isso ainda é raro na Ciência brasileira. Estamos mudando isso aos poucos. Consigo perceber.

Temos cada vez mais mulheres sendo porta vozes de suas próprias descobertas e começando a ser reconhecidas por isso. Mas quantos trabalhos e descobertas deixaram de ser feitos no nosso passado porque as mulheres não podiam estudar, trabalhar, votar, exercer sua capacidade de ver o mundo e comunicar o que viam?

Hoje tem mudado, mas ainda precisamos descobrir como dar mais espaço e acreditar mais nas mulheres. Não é uma questão de querer ser melhor que os homens, mas, sim, de ter oportunidades iguais. Quando comecei, era uma das poucas cientistas de fogo na Amazônia, mas agora temos várias supercientistas que admiro. No entanto, sensoriamento remoto ainda é uma área muito masculina e uma mulher precisa unir todas as forças para se fazer ouvida.

Você tem um exemplo de uma situação assim?

Uma vez, eu ia fazer uma apresentação em uma reunião fechada e, quando entrei na sala, fui apresentada a um senhor que mal olhou para mim quando apertou minha mão e nem prestou atenção ao meu nome. Quando fiz minha apresentação, ele disse que era uma informação muito relevante e que queria falar com o Alencar. Disse: “Quero falar com esse Alencar que produziu isso”.

Na hora não entendi, foi tão chocante… Demorei para me dar conta que ele não considerou que Alencar era eu. Eu era uma pessoa tímida e costumava deixar outras pessoas falarem com a imprensa nos temas que eu poderia contribuir, por exemplo.

Isso mudou quando percebi que preciso ser um veículo, uma voz para a mudança, entendi que que isso também era uma missão. Foi aí que surgiu fortemente a Ane ativista.

Edição: Mônica Nunes

Foto (destaque): IPAM/Divulgação

Maura Campanili

Jornalista e geógrafa, foi repórter e editora de cidades e meio ambiente na Agência Estado e na revista Terra da Gente. Trabalhou em ONGs como a SOS Mata Atlântica, Instituto Socioambiental e Rede de ONGs da Mata Atlântica. É autora e editora de livros e publicações socioambientais e autora do blog ‘Paulistanasp’ no qual fala de temas que lhe são caros: meio ambiente, a metrópole paulistana, literatura e feminismo.

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