Análise de peixes-leões coletados em Fernando de Noronha revela que espécie invasora já se alimenta de outras locais e pode se reproduzir a qualquer momento

Análise de peixes-leões coletados em Fernando de Noronha revela que espécie invasora já se alimenta de outras locais e pode se reproduzir a qualquer momento

Desde o ano passado o alerta está ligado entre biólogos e pesquisadores de Fernando de Noronha. Nada menos do que 50 peixes-leões foram avistados nas águas da ilha e houve a captura de 32 deles. Nativo dos Oceanos Índico e Pacífico, esse peixe (Pterois volitans ou P. miles) é um predador. Seus espinhos venenosos provocam muita dor e, em recifes de corais, ele se alimenta vorazmente de outros peixes. Em seu habitat natural, ele é controlado pela cadeia alimentar, onde é presa de espécies de garoupas e até por tubarões. Mas longe desses inimigos, se reproduz rapidamente e sem controle. Uma fêmea pode colocar até 2 milhões de ovos por ano.

O alarde dos cientistas brasileiros tem motivos. Até o começo de 2021, apenas cinco peixes-leões tinham sido capturados em nossa costa. Mas em poucas semanas de agosto do ano passado vários foram observados em Noronha.

Desde então, o Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBio), responsável pelas áreas protegidas do arquipélago, intensificou uma campanha de alerta e monitoramento entre moradores, pescadores e empresas da área turística sobre os perigos relacionados ao peixe-leão. Além disso, foram promovidos cursos e palestras de capacitação com as operadoras de mergulho para promover o acompanhamento da espécie e sua captura, de forma segura.

Simultaneamente, várias amostras dos peixes-leões coletados foram enviadas para análise. Esta semana, a equipe do Projeto Conservação Recifal divulgou os primeiros resultados. Os exames de 24 animais revelaram que eles estão se alimentando de outros peixes, espécies locais, e as fêmeas já estão em fase reprodutiva.

“Nós analisamos o conteúdo estomacal dos animais e constatamos que o peixe-leão está se alimentando das espécies que há em Noronha. Isso era esperado, mas ruim porque algumas espécies nativas podem ser reduzidas. Esse é um dos nossos medos”, afirmou o biólogo marinho Pedro Pereira, diretor do projeto, em entrevista ao portal de notícia G1.

Análise de peixes-leões coletados em Fernando de Noronha revela que espécie invasora já se alimenta de outras locais e pode se reproduzir a qualquer momento

Mergulhador capturando um peixe-leão em Noronha

Outra grande preocupação é que há machos e fêmeas, ou seja, a espécie pode se disseminar sem controle em Fernando de Noronha.

Mais amostras dos peixes-leões capturados na ilha foram enviadas também para o Departamento de Biologia da Universidade Federal Fluminense e para a Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, mas ainda não há retorno dessas instituições.

Nas últimas décadas, houve uma proliferação sem controle da espécie tanto no Mar Mediterrâneo como no Caribe (leia mais nesta reportagem de 2016). Em alguns países, o abate do peixe-leão já é permitido. Mas em outros lugares, a solução para combater o invasor é levá-lo para o prato! Apesar de seus espinhos serem venenosos, a carne não é!

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Fotos: Tchami/Creative Commons/Flickr (abertura) e reprodução Instagram Sea Paradise 

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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