Ameaçado de extinção, periquito-cara-suja volta a se reproduzir na Serra de Baturité, no Ceará

periquito-cara-suja

Assim como outros animais, no passado, o periquito-cara-suja (Pyrrhura griseipectus) era encontrado em diversos estados do Nordeste. Nativa da Mata Atlântica, a ave foi desaparecendo das florestas devido ao desmatamento e a caça ilegal de animais silvestres. Esta espécie de psitacídeo precisa de árvores de grande porte para fazer seus ninhos. Com a derrubada das mesmas, entrou em alarmante declínio a reprodução do periquito-cara-suja.

Em 2003, foram registrados apenas 250 indivíduos na natureza, soltos na região da Serra de Baturité, no Ceará, um dos três pontos de ocorrência da ave. A situação levou o periquito-cara-suja a ser listado como espécie com risco gravíssimo de extinção e o psitacídeo mais ameaçado das Américas.

Mas graças ao trabalho de proteção e conservação de pesquisadores e biólogos, iniciado em 2006, pela ONG Aquasis, 440 filhotes nasceram nas caixas ninhos nos últimos sete anos. E em 2016, espera-se que mais 180 pequenos periquitos-cara-suja se juntem ao grupo.

De acordo com a equipe da Aquasis, que tem o apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, o resultado do esforço é bastante significativo, pois, atualmente, estima-se que menos de mil indivíduos vivam livres na natureza, número muito baixo e preocupante.

A Serra de Baturité fica a cerca de 100 km de Fortaleza, em pleno sertão cearense. É um dos raros reminiscentes (florestas que sobraram) de Mata Atlântica no estado. Com 38 mil hectares, é uma ilha de floresta úmida em meio ao semiárido da Caatinga.

Mas por que então houve perda de habitat das aves na área? No local, estão as nascentes do Rio Pacoti, usado para abastecer cerca de dois milhões de pessoas, inclusive os moradores da região metropolitana de Fortaleza.

Então, assim como em outros lugares, pensa-se sempre no conforto e das necessidades do ser humano e esquece-se totalmente do respeito e da necessidade de proteger e conservar a fauna e flora nativa.

Alberto Campos, um dos fundadores da Aquasis, explica que o periquito-cara-suja faz o trabalho de dispersar sementes maiores, que outras espécies não conseguem quebrar. “Com o desaparecimento dele, árvores como o camunzé ou a guabiraba poderiam ficar prejudicadas, empobrecendo a floresta, o que, por consequência, afeta diretamente o bem-estar das comunidades que vivem no entorno da região e dependem da floresta”, alerta.

Por ser bastante rara e endêmica (que só existe num determinado local) dessa região nordestina, o periquito de peito cinza e cauda vermelha, tem atraído muitos apaixonados por pássaros“. A observação de aves é o turismo que mais cresce na Serra de Baturité e tem injetado renda significativa na economia local”, afirma Fábio Nunes, coordenador e e pesquisador da Aquasis.

Além do trabalho de implantação das caixas-ninhos, para estimular a reprodução do periquito-cara-suja, a ONG promoveu atividades de educação ambiental com a população da Serra de Baturité. “A região é prioritária para a conservação devido ao conjunto de espécies de fauna e flora ameaçadas que só ocorrem ali”, destaca Campos.

A Serra de Baturité é uma Unidade de Conservação Sustentável, um local onde se admite a presença de moradores. Áreas deste tipo têm como objetivo aliar a conservação da natureza com o uso sustentável dos recursos naturais. Entretanto, segundo especialistas cearenses, a construção de casas na região não tem sido controlada. Um dos planos das entidades ambientalistas agora é estimular a criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), onde animais teriam mais chances de procriar e serem protegidos.


*Enquanto fazia pesquisas para saber mais sobre o periquito-cara-suja, encontrei sites na internet que comercializam a ave. Simplesmente repugnante! Lugar de passarinho não é em gaiola, mas voando livre na natureza.

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Foto: Fábio Nunes/divulgação Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Um comentário em “Ameaçado de extinção, periquito-cara-suja volta a se reproduzir na Serra de Baturité, no Ceará

  • 10 de maio de 2017 em 6:38 PM
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    Eu queria votar pro periquito da cara suja não fosse extinto

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