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Ameaça à restinga da Praia Brava de Caiobá, na orla de Matinhos, no Paraná, mobiliza pesquisadores e moradores

No último fim de semana, pesquisadores e moradores da Praia Brava de Caiobá, na orla de Matinhos no litoral do Paraná, foram surpreendidos com a retirada de parte da restinga “pela raiz”, por meio de tratores a serviço do Instituto Água e Terra (IAT), entidade vinculada à Secretaria do Desenvolvimento Sustentável e do Turismo do governo do estado.

De acordo com o IAT, a retirada da vegetação faz parte do projeto de Recuperação da Orla de Matinhos. No entanto, no dia seguinte à denúncia, a ação foi suspensa temporariamente pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) para avaliação técnica da obra.

Agentes do Ibama chegam ao local onde tratores retiravam vegetação na Praia Brava de Caiobá, a serviço do IAT / Foto: divulgação

No mesmo dia, o Ministério Público Federal (MPF) instaurou um inquérito civil público para oficiar o IAT e verificar a licença ambiental para a retirada da restinga. O órgão está investigando a alegação de retirada irregular de restinga na Orla de Matinhos, com base em representação que apresenta vídeos que provam a destruição da vegetação. 

Enquanto isso, a população se mobiliza: amanhã, 17 de dezembro, a partir das 14h, na Avenida Atlântica com Rua Jacarezinho, na Praia do Caiobá, será realizado o encontro ABRACE A RESTINGA – A restinga de Matinhos pede socorro! para chamar a atenção da cidade, do governo e da opinião pública. “Vamos salvar o que resta da restinga em Caiobá! Juntos, abraçá-la!”, diz o texto que acompanha o convite (abaixo)para a participação de todos na mobilização.

Os organizadores destacam que esta é “uma ação importante para mostrar a força da união em prol da natureza que nos resta, e para as nossas gerações: presente e futura”. E justificam a ação: “Neste último final de semana, tratores arrancaram essa importante vegetação do litoral que contribui para a prevenção do avanço do mar, e que mantém espécies animais”.

Se você também é contra a supressão da restinga e quer sua proteção, não deixe de participar e de compartilhar o convite nas redes sociais! Se você não mora no Paraná, mas tem amigos e parentes que vivem no estado, dissemine e peça a adesão a esta mobilização.

Está mais do que provado que a participação popular inibe o descaso e ações e decisões governamentais e o apoio de políticos que, em geral, privilegiam o interesse de poucos.

O que é restinga

A restinga fixa dunas e estabiliza mangues. É um ecossistema formado por vegetação que, além de ser habitat de diversos animais, faz a contenção do avanço da areia da praia provocado pelo vento e das marés, servindo ainda de “filtro” para as impurezas advindas da cidade, do ambiente urbano. É uma barreira que garante a saúde das pessoas e a conservação da praia.

Ilustração do Projeto Árvore e Água

Devido à riqueza natural que abriga e à sua relevância para o equilíbrio sistêmico, é classificada como Área de Preservação Permanente (APP) que, de acordo com o Art. 3º, inciso II, do Código Florestal, é uma “área protegida, coberta ou não por vegetação nativa, com a função ambiental de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica e a biodiversidade, facilitar o fluxo gênico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bem-estar das populações humanas”.

Além disso, os especialistas calculam que, para a vegetação se consolidar, como na Praia Brava, é preciso que as plantas se desenvolvam por mais de uma década. Por tudo isso, a restinga não pode ser suprimida, muito menos sem planejamento e à revelia da população local.

O caso

À reportagem do G1, o oceanógrafo Rangel Angelotti, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), questionou a forma como a vegetação foi arrancada. 

“Você, com um projeto bem estruturado, poderia, se fosse o caso, fazer um remanejamento, tirar algumas espécies, mas nunca com um maquinário pesado levando todo esse ecossistema junto. São muitas espécies no meio dessa ‘espécie alvo’ que estão querendo tirar. Você está levando dez, doze anos de composição vegetal disso, que não faz sentido algum”.

Segundo Angelotti, a faixa de areia que, agora, está “nua”, representa um grande perigo.

Já o IAT justifica que a vegetação está sendo arrancada dessa forma devido a identificação de espécies exóticas, que não são naturais da restinga.

O engenheiro florestal Leandro Duarte, que trabalha no instituto, foi ouvido pelo G1 e declarou que o projeto contempla a retirada da restinga num trecho de 1,5 km, entre o Canal da Avenida Paraná e o Morro do Boi. E ainda disse que a vegetação será replantada: mudas foram retiradas e levadas para um viveiro. “Eu acredito que, em alguns meses, a gente vai ter toda essa vegetação bem desenvolvida pra impedir esse processo de diminuição da praia”, disse.

A argumentação do oceanógrafo Angelotti é a melhor resposta para essa declaração. Não há qualquer justificativa plausível para a ação truculenta.

Foto: prefeitura de Matinhos (Praia Brava de Caiobá, supressão da restinga)

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