Amazônia tem o outubro com o maior desmatamento dos últimos dez anos

Amazônia tem o outubro com o maior desmatamento dos últimos dez anos

890 km² de floresta desmatada. Este foi o tamanho da destruição registrado pelo mais recente monitoramento divulgado pelo Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon)*. O volume é o maior para este mês dos últimos dez anos. Em comparação a outubro de 2019, o aumento foi de 49%.

Ainda de acordo com o instituto,  de janeiro a outubro deste ano, a Amazônia perdeu 6.920 km² de área verde, 23% a mais que no mesmo período do ano passado.

Em outubro também foi observado um salto na degradação da Amazônia (o termo degradação é usado quando não há corte raso da mata, como no caso dos incêndios). Ao todo, as florestas degradadas totalizaram 2.351 km², um crescimento de 279% em relação ao mesmo mês do ano passado.

Assim como em meses passados, o Pará é o estado onde ocorreu o mais alto índice de desmatamento em outubro de 2020, 53%. Depois aparecem  Rondônia (12%), Acre (9%), Mato Grosso (9%) e Amazonas (9%).

Chama a atenção também a variação registrada no Maranhão, entre outubro de 2019 e no mês passado. Houve um aumento de 400% no desmatamento e 1.867% na degradação.

Amazônia tem o outubro com o maior desmatamento dos últimos dez anos

Ranking dos estados que mais destruíram a floresta em outubro

Mais da metade dessa devastação (53%) na Amazônia aconteceu em áreas privadas ou sob diversos estágios de posse. O restante do desmatamento foi registrado em assentamentos (28%), Unidades de Conservação (15%) e Terras Indígenas (4%).

Dos dez municípios que mais desmataram, nove estão no Pará. Apesar disso, aquele que aparece em primeiro lugar no ranking é Porto Velho, em Rondônia, com pouco mais de 40 km2 de desmatamento.

Amazônia tem o outubro com o maior desmatamento dos últimos dez anos

O mapa do desmatamento em outubro de 2020

Mensalmente, o Imazon realiza o levantamento do desmatamento da Floresta Amazônica, através de dados gerados pela plataforma Google Earth Engine (EE), com a utilização de imagens de satélites e mapas digitais.

Discurso de Bolsonaro contradiz a realidade

No final de semana, durante a reunião (virtual) de cúpula do G20, com os principais líderes globais, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, mais uma vez, repetiu o discurso de que o país protege “a Amazônia, o Pantanal e os todos os nossos biomas”.

Bolsonaro também disse que a agropecuária não pode ser responsabilizada pelo desmatamento e fez críticas a outros países, sem citar nomes.

“Ressalto que essa verdadeira revolução agrícola no Brasil foi realizada utilizando apenas 8% de nossas terras. Por isso, mais de 60% de nosso território ainda se encontra preservado com vegetação nativa. Tenho orgulho de apresentar esses números e reafirmar que trabalharemos sempre para manter esse elevado nível de preservação, bem como para repelir ataques injustificados proferidos por nações menos competitivas e menos sustentáveis”, criticou.

Há poucas semanas, o governo brasileiro promoveu um “tour” pela Amazônia com embaixadores de diversos países. Durante três dias, o vice-presidente, Hamilton Mourão, coordenador do Conselho Nacional da Amazônia Legal, levou os estrangeiros às cidades de Manaus, Maturacá e São Gabriel da Cachoeira, todas no estado do Amazonas. A intenção era tentar melhorar a imagem do Brasil perante o mundo e mostrar que não há nem desmatamento nem incêndios na região.

Depois da volta da viagem, o embaixador Heiko Thoms afirmou que “A percepção do governo alemão sobre o governo Bolsonaro não mudou” e que não há previsão de retomada de transferência de recursos para o Fundo Amazônia. Ele ressaltou a falta de ação e planejamento, de longo prazo, do governo brasileiro

Criado em 2008, o Fundo Amazônia promove e apoia financeiramente iniciativas para a prevenção e o combate ao desmatamento e também, para a conservação e o uso sustentável das florestas na Amazônia Legal, área que compreende nove estados brasileiros e corresponde a quase 60% do território nacional.

Financiado principalmente pelos governos da Noruega e da Alemanha, o fundo tinha seus recursos geridos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento e os projetos analisados pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA). Até 2019, foram apoiadas 103 deles.

Mas no ano passado, o governo federal decidiu, por conta própria, tentar mudar as regras do fundo. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, declarou que queria usar os recursos da iniciativa para desapropriar terras.

Rapidamente os governos alemão e norueguês vieram a público mostrar insatisfação com a decisão e em relação à política ambiental Brasil, principalmente, os índices crescentes de desmatamento na Amazônia.

O repasse do dinheiro do fundo foi cancelado e R$ 2,9 bilhões do Fundo Amazônia estariam paralisados até hoje.

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*O Imazon é um instituto nacional de pesquisa, sem fins lucrativos, composto por pesquisadores brasileiros, fundado em Belém há 29 anos. Através do sofisticado Sistema de Alerta do Desmatamento (SAD), a organização realiza, há mais de uma década, o trabalho de monitoramento e divulgação de dados sobre o desmatamento e degradação da Amazônia Legal, fornecendo mensalmente alertas independentes e transparentes para orientar mudanças de comportamento que resultem em reduções significativas da destruição das florestas em prol de um desenvolvimento sustentável

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Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real/Creative Commons/Flickr

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Um comentário em “Amazônia tem o outubro com o maior desmatamento dos últimos dez anos

  • 25 de novembro de 2020 em 8:15 PM
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    Já temos a tecnologia que nos permite ” olhar” do espaço, tudo que ocorre na Terra. Até quando vamos ter que assistir esses dados sobre desmatamento e queimadas, sem nenhuma ação efetiva? O nosso ministro, Ricardo Salles e nosso vice presidente Amilton Mourao, vão continuar omissos? Se o Braziu não tem capacidade de proteger suas riquezas, como é fato, não pode criticar quem demonstre preocupação com esses biomas. Temos que desenvolver um sistema que possibilite uma maior vigilância e punição aos criminosos que insistem em depreda nosso patrimônio. Outra coisa, é super importante, essas invenções sobre plástico bio- degradaveis, entre outras invenções já conhecidas, estarem nas grades Curriculares das Escolas e Faculdades.O governo brasileiro deveria valorizar essas descobertas, dando visibilidade à essas práticas e incentivando as empresas á investir nessas tecnologias.

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