‘Amazônia Hub’ encurta distâncias entre marcas da floresta, consumidores e empresas

Em 2019, partindo de experiências junto a comunidades e organizações amazônicas, três pessoas se uniram e fundaram o Amazônia Hub, negócio de impacto que se apresenta como potencial solução para comercializar os produtos da floresta de modo eficiente para todo o Brasil.

Os desafios são grandes nos aspectos logístico e mercadológico, o que fez com que o trio montasse um protótipo que oferecia logística, armazenagem, expedição, vendas online e off-line, trazendo marcas sustentáveis da Amazônia para o sudeste de forma coletiva, o que reduz custos e aumenta a visibilidade dos produtos.

Embora tenha começado com seis marcas, hoje o Amazônia Hub já tem dez em sua plataforma, e comercializa alimentos, cosméticos e acessórios. Óleos, temperos, mel, café, chocolates com cacau nativo da região, tucupi, geleias, mel, castanhas e muitos outros produtos da floresta podem ser acessados diretamente pelo site.

Em 2020, em parceria com outras organizações como o Instituto Auá, Idesam, Climate Ventures, Plataforma Parceiros pela Amazônia e Mercado Livre, o grupo participou da estruturação do movimento Amazônia em casa, Floresta em pé e ampliou ações de comunicação e integração.

“O ano de 2020 foi de crescimento e aprendizado. Tivemos parceiros estratégicos que nos ajudaram a aumentar a visibilidade, desenvolver ações conjuntas com as marcas e ampliar consideravelmente as vendas online. Apesar de toda a crise, foi um ano muito bom para o negócio”, avalia Kaline Rossi, CEO e uma das fundadoras do Amazônia Hub.

Criando pontes com consumidores e empresas

O projeto inicial era trabalhar com todos os elos da cadeia necessários para que as marcas amazônicas acessassem o mercado consumidor – logística, armazenagem, expedição, gestão de frete e vendas.

Mas, ao longo do caminho, o grupo percebeu que não seria possível concentrar tudo e mudou a estratégia, passando a trabalhar com parceiros especializados em cada área e colocando foco principalmente nas vendas por ecommerce, marketing digital e promoção dos produtos.

Além da comercialização das marcas junto ao consumidor, por meio do e-commerce, o Amazônia Hub também apoia empresas e iniciativas interessadas em trabalhar com produtos amazônicos.

Uma parceria com a Kiro, produtora de um tipo de bebida relativamente nova no mercado (o switchel), mas já com grande aceitação entre o público consumidor, possibilitou o desenvolvimento de dois novos sabores: Maçã + Pimenta Jiquitaia e Cumaru + Cupuaçu.

“O caso da Kiro foi muito bacana, pois o produto conseguiu unir ingredientes incríveis como o Cupuaçu e o Cumaru em uma bebida que vai atingir muita gente. Isso abre portas para que as pessoas provem novos sabores, ingredientes e produtos da Amazônia”, diz Kaline.

O Amazônia Hub também desenvolve kits, brindes e cestas corporativas para empresas, como forma de levar não só os produtos, mas o tema Amazônia para dentro das organizações.

Em 2021, os planos incluem investir nas vendas online, integração com os principais marketplaces brasileiros, uma maior atuação na categoria de cosméticos e de matérias primas amazônicas e até mesmo o lançamento de uma marca própria.

Trajetória amazônica dos sócios e parceiros ajudam a vencer gargalos

Kaline Rossi, Matheus Pombo e Arthur Laurence, fundadores do Amazônia Hub, tiveram vivências diferentes, mas se encontraram na busca de soluções para facilitar o acesso do consumidor a produtos sustentáveis e de qualidade da Amazônia e, ao mesmo tempo, ajudar pequenos produtores a escoarem sua produção.

CEO e fundadora do Amazônia Hub, Kaline vem do Acre, estudou engenharia florestal e trabalhou por muito tempo com cadeias produtivas de produtos florestais junto ao governo do estado e ao terceiro setor. Após cursar mestrado em economia regenerativa no Schumacher College (UK), retornou ao Brasil com uma urgência em buscar soluções para os problemas de comercialização dessas cadeias produtivas.

Matheus é gaúcho de Cruz Alta e vem de uma família de produtores rurais. Passou a infância e a adolescência no campo, se formou em administração e fez intercâmbio na Alemanha, onde trabalhou na área de logística.

Em 2016, veio a oportunidade de trabalhar na Amazônia, em Redenção, no Pará, onde desenvolveu, com o pai, um projeto de indústria de beneficiamento de castanha do Pará produzida pelos Kayapó Goroti Re. A experiência despertou em Matheus a vontade de fazer do trabalho com a Amazônia uma missão de vida.

O terceiro sócio, Arthur, trabalhou em grandes multinacionais nas áreas de planejamento estratégico e análise de investimentos. Hoje, atua como CFO do Grupo FCamara e dirige seu comitê financeiro e de governança corporativa.

A associação dos três, com suas diferentes expertises, possibilitou o estabelecimento do Amazônia Hub e bons resultados em pouco tempo de existência. A rede de contatos e parceiros permitiu alianças que trouxeram benefícios para todos os envolvidos nos processos.

Um exemplo é a marca de chocolates De Mendes, que trabalha apenas com vendas online e comercializou mais de mil barras de chocolate apenas pela plataforma do Amazônia Hub (leia tambem sobre a parceria de De Mendes com os indígenas Yanomami e Ye’kwana).

Ações com influenciadores digitais, realizadas em 2020, trouxeram 200% de aumento nas vendas de um produto voltado para o fortalecimento da imunidade com ingredientes amazônicos, o Immune, da marca Terramazônia. A Peabiru Produtos da Floresta conseguiu escoar mais de 1 mil unidades de mel de abelha sem ferrão.

Acreditamos que nosso trabalho foi bem importante para trazer marcas que, até então, não tinham condições de operar fora da Amazônia, aumentando a visibilidade, a confiança e motivação para as melhorias contínuas dos negócios que estão na nossa plataforma”, destaca Kaline.

As marcas que buscam o Amazônia Hub chegam por indicação de parceiros. A partir desse primeiro contato, é preciso entender o negócio, sua maturidade, se possui volume de produção suficiente para atender o mercado fora da Amazônia, a qualidade do produto, demanda de mercado.

Além disso, a marca precisa atender a três critérios para ser incluída na plataforma: trabalhar com insumos amazônicos; trabalhar com associações ou comunidades da região; ter compromisso com a floresta em pé.

“Empresas de impacto amazônicas fortalecidas representam pessoas engajadas em uma floresta saudável, resistindo ao avanço das atividades predatórias. Do outro lado, pessoas consumindo, conhecendo e trazendo a Amazônia para o seu dia a dia ajudam a mantê-la de pé”, conclui a CEO do Amazônia Hub.

Foto: Sebastien Goldberg/Unsplash

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

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