
Foto: Travis VanZant / California Department Fish and Wildlife
Após a devolução histórica de terras para o povo indígena do Rio Tule, liderada por Gavin Newson, governador da Califórnia, indivíduos da espécie alce-de-tule foram reintroduzidos e voltaram a ocupar as montanhas da Serra Nevada, a sudoeste dos Parques Nacionais Sequoia e Kings Canyon.
Essas terras ancestrais indígenas se estendem pelas encostas do Condado de Tulare, um dos 58 existentes no estado americano, fundado em 1852.
Segundo a Agência de Recursos Naturais da Califórnia, a área devolvida ao povo originário abrigava duas propriedades rurais e tem mais de 67 km2, que agora conectam a reserva do povo do Rio Tule (Tule River) – também conhecido como Yowlumne Hills – com grandes extensões de terras do Serviço Florestal dos EUA, como o Monumento Nacional da Sequoia Gigante, localizado dentro da Floresta Nacional da Sequoia.
A nova conexão favorece todas as espécies que dependem dessa paisagem e, agora, dispõem de um corredor ecológico protegido. Entre elas está o alce-de-tule (Cervus canadensis nannodes), espécie endêmica da Califórnia, que, há décadas, não era avistada nas encostas da Serra Nevada.
No final de outubro, indígenas, apoiadores e o governador se reuniram para celebrar a devolução da terra soltando alces-de-tule trazidos de uma reserva administrada pela Agência de Recursos Naturais para que possam repovoar a área (veja o registro em vídeo no final deste post).
A reintrodução é resultado de parceria entre o Departamento de Pesca e Vida Selvagem da Califórnia e os indígenas, que estão bastante empenhados em reintroduzir diversas espécies em suas terras – como castores no Rio South Fork Tule, em 2024 – a fim de contribuir para melhorar a saúde do ecossistema.

“Primeiros e melhores guardiões”
O acordo para a devolução das terras aos indígenas – que é considerado pelo governo como o maior do tipo no Vale Central – foi financiado pelo programa Soluções Tribais Baseadas na Natureza da referida agência, que estabelece, em todo o estado, parcerias que tornam possível devolver as terras ancestrais a seus povos originários.
Em agosto, foi realizada devolução semelhante, quando mais de 400 hectares de terra (4 km2) no Condado de San Diego foram devolvidos ao povo Iipay, de Santa Ysabel.
“Os erros históricos cometidos pelo estado contra os povos nativos desta terra reverberam pelos mundos naturais da Califórnia — ecossistemas que perderam seus primeiros e melhores guardiões”, declara Newsom em comunicado. “Hoje é o marco de um passo crucial para aprofundar a relação entre o estado e a Nação Indígena Tule River, que contribui para restaurar a profunda ligação entre esse povo e suas terras ancestrais”.
Recuperação e manutenção das florestas
A recuperação e o manejo de florestas para produção de madeira e outros produtos (envolvendo planejamento, plantio, manejo, colheita e processamento das árvores), atividades conhecidas como silvicultura, estão incluídas nos planos de gestão da terra indígena.
A prevenção de incêndios também está contemplada e envolverá “a limpeza de detritos de incêndios florestais anteriores e a reintrodução de queimadas controladas culturais na paisagem”, garantindo maior resiliência, explica o site SFGATE.
Um dos últimos cursos d’água sem barragens na Serra Nevada do Sul, a bacia hidrográfica de Deer Creek também faz parte dos planos de proteção.
Em comunicado, Lester R. Nieto Jr., presidente do Conselho Tribal do Rio Tule, destaca que “a devolução de terras demonstra a própria essência da restauração de terras ancestrais, ampliando o acesso a recursos alimentares e medicinais essenciais. Também apoia a preservação contínua de sítios culturais, aprofunda a gestão ambientale restaura os esforços de reintrodução da vida selvagem”.
E ele completa: “O povo indígena do Rio Tule compreende esta terra localizada nas Colinas de Yowlumne como um lugar de encontro e de cura”.
A espécie
O alce-de-tule é uma subespécie do alce canadense (cervus canadensis) – um dos maiores cervídeos do mundo – e é a menor das subespécies de alce da América do Norte.
Sua população foi drasticamente reduzida em meados do século XIX, principalmente devido à caça comercial descontrolada e ao deslocamento causado pelo gado.
Em meados da década de 1870, acreditava-se que o alce-de-tule estivesse extinto. Mas, segundo alguns relatos, por volta de 1874, foram descobertos menos de trinta indivíduos em um único rebanho perto de Bakersfield, na fazenda de um pecuarista com consciência ambiental chamado Henry Miller.
Foi ele quem teve a ideia de preservar esse grupo isolado e, graças a seus esforços, em 2020, havia 5.700 alces-de-tule distribuídos em 22 rebanhos na Califórnia, todos descendentes daquele pequeno grupo remanescente. Hoje, acredita-se que existam pouco mais de 4 mil indivíduos da espécie.
Animal herbívoro, se alimenta de vegetação rasteira. No verão, come gramíneas e juncos, especialmente de tule (o termo vem da língua asteca nahuatl: tōlli), que é uma planta aquática conhecida como junco de caule duro (gênero Schoenoplectus), comum em pântanos de água doce e lagos, que é fonte importante de sódio. No inverno, prefere plantas lenhosas, cascas e galhos de árvores. Mas também aprecia samambaias, frutas e cogumelos
Como acontece em muitas espécies, o macho e a fêmea da espécie são muito diferentes, como mostram as imagens abaixo.

Foto: National Park Service / divulgação
Os machos têm chifres, que perdem todos os anos, quando chacoalham a cabeça e eles caem. A razão dessa prática ainda é debatida pelos cientistas: alguns acreditam que tenha a ver com a necessidade de se regenerar para manter a simetria dos chifres e sua condição física.
A seguir, assista ao vídeo gravado durante a soltura dos alces-de-tule, no final de outubro, na terra do povo indígena do Rio Tule, divulgado por Gavin Newson, governador da Califórnia.
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Com informações do SFGATE, do National Park Service e do Tribal Businesse News




