Água do rio Paraopeba continua imprópria para uso e com metais pesados um ano após tragédia de Brumadinho

Água do rio Paraopeba continua imprópria para uso e com presença de metais pesados um ano após tragédia de Brumadinho

No dia 25 de janeiro de 2019, a barragem de resíduos Córrego do Feijão, da mineradora Vale, se rompeu em Brumadinho, Minas Gerais. Passado um ano de uma das maiores tragédias ambientais do Brasil, que tirou a vida de mais de 250 pessoas e destruiu quase 270 hectares de vegetação da Mata Atlântica, o principal rio da região, o Paraopeba, continua contaminado.

No ano passado, a Fundação SOS Mata Atlântica acompanhou de perto o impacto do desastre sobre o Paraopeba. Um mês após o vazamento do minério, a contaminação do rio chegava a mais de 300 km e atingia 16 municípios mineiros.

Entre os últimos dias 7 e 17 de janeiro, uma equipe da fundação voltou à bacia do Paraopeba e do Alto São Francisco para fazer um novo monitoramento sobre a qualidade da água, percorrendo cerca de 2 mil km, ao longo de 21 cidades, entre Brumadinho e Felixlândia.

O resultado das análises realizadas por técnicos revelou que a água permanece imprópria e sem condições de uso por toda a extensão percorrida, em desconformidade com os padrões estabelecidos pela legislação brasileira.

“Somente em alguns trechos no baixo Paraopeba e início do lago de Três Marias, onde há corredeiras e maior volume de água com contribuição de afluentes de melhor qualidade, o rio apresenta condições de vida aquática’, afirmou o relatório da SOS Mata Atlântica (confira estudo completo aqui).

A avaliação apontou ainda que o número de colônias de bactérias, que têm capacidade de decompor matéria orgânica, diminuiu consideravelmente com a mudança drástica dos ecossistemas.

Dos 23 pontos analisados pela expedição, nenhum apresentou qualidade boa ou ótima. Em nove deles, os índices aferidos foram péssimos, em onze ruim e apenas em um foi regular. Em comparação a avaliação feita no ano passado, dez locais tinham resultado ruim e 12 péssimo. Ou seja, a melhora foi praticamente imperceptível.

O único aspecto que demonstrou restabelecimento foi a turbidez da água. Ela é avaliada pela quantidade de partículas sólidas em suspensão, que podem impedir a passagem da luz e a fotossíntese, causando a morte da vida aquática.

Em comparação a 2019, o Paraopeba mostrou ter se recuperado, com redução desse indicador. Na análise anterior, nos piores trechos do rio, a turbidez chegou a 96 vezes acima do valor máximo permitido pela legislação ambiental. Agora em janeiro de 2020, ela varia entre 5 e 13 vezes acima do que deveria estar. Apesar de ainda estar longe do ideal, pelo menos, há um avanço.

Presença de metais pesados no Paraopeba

Um dado preocupante destacado no relatório da Fundação SOS Mata Atlântica é que, mesmo depois de um ano do crime de Brumadinho, metais pesados ainda estão presentes na água do rio Paraopeba, como ferro, manganês e cobre, em níveis muito acima dos limites máximos permitidos.

Segundo as análises, o cobre foi encontrado em concentrações 44 vezes superiores, na média. Já o nível de manganês, em alguns pontos, chegou a ser detectado 14 vezes acima dos limites máximos permitidos. O ferro, por sua vez, que não pode existir em águas deste tipo, apresentou concentrações 15 vezes superiores ao aciet.

“O consumo de quantidades relativamente pequenas de cobre livre pode provocar náuseas e vômitos. Existe o risco de seres humanos apresentarem sintomas como rigidez muscular, tremores das mãos e fraqueza a partir da ingestão de manganês, forma da contaminação deste metal. A concentração elevada de ferro e manganês na água podem ser os responsáveis pela coloração avermelhada do rio. Ou seja, estes metais oferecem riscos à saúde humana, dos organismos vivos e ecossistemas”, ressaltam os pesquisadores.

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Foto: reprodução vídeo SOS Mata Atlântica

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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