Ações nas periferias de São Paulo garantem alimentação para pessoas em vulnerabilidade e renda para agricultores familiares

Nos últimos meses, a movimentação pela solidariedade nas periferias e a capacidade de articulação e organização da sociedade civil contrasta com a falta de empatia, organização e até mesmo de responsabilidade do governo federal no enfrentamento à pandemia.

Iniciativas que garantem doação de cestas básicas e máscaras a partir de campanhas de financiamento coletivo se multiplicam. E são fundamentais neste país desigual em que vivemos.

Destaco, aqui, alguns desses movimentos que não só garantem alimentação para as pessoas, mas também renda para pequenos produtores da agricultura familiar, que encontram dificuldade em escoar sua produção devido ao isolamento social. A proibição de aglomerações interrompeu feiras e participação em eventos, onde muitas vezes vários agricultores e agricultoras escoavam boa parte, senão a totalidade, de sua produção.

Zona norte: marmitas e cestas socorrem famílias

Na Vila Medeiros, zona norte do município de São Paulo, iniciativas apostam justamente em alimentar pessoas em situação de vulnerabilidade e garantir renda para pequenos agricultores.

A articulação envolve o restaurante Mocotó, o Instituto Ibia (que também conecta o campo à cidade) e outros parceiros. Centenas de famílias no território recebem cestas de alimentos, e também marmitas diárias.

Com o Instituto Ibia, são doadas cestas de orgânicos e itens de higiene. E por meio da campanha Quebrada Alimentada, são preparadas as marmitas para distribuição.

As cestas já chegam a mais de 300 famílias da região. E diariamente o restaurante distribui 200 refeições, que serão mantidas mesmo quando o Mocotó reabrir, enquanto durarem as doações.

A historiadora Adriana Salay está envolvida na articulação dessas ações. Ela e a família são moradoras da Vila Medeiros, bairro periférico da zona norte. Seu companheiro é Rodrigo Oliveira, chef do Mocotó.

“Quando decidimos que o restaurante precisava fechar por causa da pandemia, já sabíamos das consequências para a população local. Muitas pessoas aqui vivem de trabalhos informais. E logo começamos a preparar refeições para distribuir diariamente a partir do restaurante e, paralelamente, também iniciamos a distribuição de cestas básicas. ”

A iniciativa serve diariamente, sete dias por semana, 200 refeições. E Adriana relata que, logo no início, receberam uma série de ofertas de ajuda, espontaneamente, como doação de produtos pela chef Paola Carosella e de outros chefs de restaurantes, e até de iniciativas do próprio entorno, como uma família que organizou uma ação e arrecadou cinco toneladas de arroz e feijão para o projeto.

“A rede que tem se formado tem sido maior do que a gente imaginava. A situação de crise ensina novas possibilidades de se organizar socialmente. Em situações em que não temos crise, já há uma fome, que eu chamo de fome estrutural, causada pela desigualdade social. E em crises como essa, o número de pessoas nessa situação aumenta muito, porque muita gente perde sua fonte de renda. Para combater a fome estrutural é preciso política pública. Na crise, precisamos de medidas emergenciais fortalecidas, e eu vejo que a sociedade civil tem desempenhado um papel fundamental para que elas existem”.

Zona sul: conversas, oficinas, cinturão verde

Atravessando o mapa de São Paulo, na zona sul, o CCA Auriverde (Centro da Criança e Adolescente), localizado no bairro do Grajaú, teve que interromper suas atividades presenciais no fim do mês de março. Rodas de conversa, reforço escolar e oficinas deixaram de ser oferecidas no local.

Numa ação articulada rapidamente, dez dias depois, a Associação Auriverde, à qual está integrado o CCA, já distribuía alimentos orgânicos para as famílias, em parceria com a Pertin (que arrecada fundos para comprar alimento de quem produz e entrega a quem não tem) e a Cooperapas (cooperativa de agricultores orgânicos da região).

No início de maio, o articulador da Casa Ecoativa e gerente do CCA, Jaison Pongialuppi, informava em suas redes sociais que os alimentos já tinham chegado a mil famílias. E o trabalho continua na região

A Associação Auriverde atende famílias na região com o objetivo de promover a melhoria da qualidade de vida. Com a pandemia, o objetivo passou a ser garantir recursos para compra de alimentos, água, produtos de higiene e saúde.

A campanha de financiamento coletivo promovida pela Associação, ativa até o final deste mês, tem arrecadado dinheiro para compra de alimentos, e beneficia ao mesmo tempo famílias em situação de vulnerabilidade e pequenos produtores de alimentos orgânicos da região.

No extremo sul do município de São Paulo há uma espécie de cinturão verde, com produção agrícola familiar bastante diversificada. Naquele pedaço estão também rios de água limpa e mananciais de abastecimento de água, e grande parte da vegetação e fauna remanescentes da Mata Atlântica.

A produção agrícola é consumida, em grande parte, em outras regiões da cidade, de maior poder aquisitivo. A campanha da Associação Auriverde está promovendo o consumo dos alimentos orgânicos na própria região onde são produzidos, comprando diretamente dos agricultores e entregando às famílias.

Também no sul de São Paulo uma outra mobilização tem promovido distribuição de cestas e doação de marmitas para famílias com crianças que estão fora da escola e, por isso, sem acesso à merenda. A iniciativa é organizada pela Agência Solano Trindade, pelo restaurante da agência, o Organicamente Rango, em parceria com o Greenpeace.

Foto: Louis Hansel Shotsoflouis/Unsplash

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

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