A última nação indígena

Atualizado em 21/6/2021
Desde que foi lançado, em março deste ano, na Berlinale – Festival de Cinema de Berlim, o filme ‘A Última Floresta’, de Luiz Bolognesi, tem participado de festivais pelo mundo. Recentemente, recebeu o prêmio de Melhor Filme na competição oficial do Seoul Eco Film Festival, na Coréia do Sul! Em 19 e 20 de junho, voltou à Berlinale para participar de exibições presenciais e ganhou o prêmio do público como Melhor Filme da Mostra Panorama
__________________

O texto abaixo, do crítico José Geraldo Couto, foi publicado originalmente no site do IMS – Blog do Cinema
________________

Filmado na aldeia Watoriki, em Roraima, o filme de Luiz Bolognesi entrelaça o registro documental do cotidiano da aldeia e a narrativa mítica sobre a origem do povo Yanomami.

A conexão entre essas duas dimensões é conduzida pelos próprios indígenas, para quem os mitos têm a densidade das coisas palpáveis. Em vez de separar o mito e o real, para eles o mito é o real.

O mérito maior do diretor, que teve como corroteirista o líder yanomami Davi Kopenawa, foi o de aderir sem reservas a essa visão de mundo e construir com talento e paciência um relato fluente que é ao mesmo tempo poético e político.

Poesia e política

O poético e o político se combinam, por exemplo, na história de um personagem que saiu para caçar, deixando na aldeia a mulher e os filhos, e não voltou ao anoitecer, como se esperava.

A esposa suspeita que ele tenha sido seduzido e levado por uma ninfa mitológica para viver com ela no fundo das águas. Mas ele também pode ter abandonado a aldeia para se juntar aos garimpeiros ilegais que infestam a região. Nesse caso, a sedução seria a do dinheiro e das luzes da cidade.

E é nisso que reside a qualidade extraordinária de A última floresta.

Caso se limitasse a registrar o dia a dia na aldeia e colher os mitos e lendas indígenas, seria, bem ou mal, só mais um documentário etnográfico. Se centrasse todo o foco no conflito com os garimpeiros e outros invasores, talvez se esgotasse na denúncia militante ou na função jornalística.

Ao fundir as duas coisas, potencializa a ambas, infundindo vida e atualidade ao mito ao mesmo tempo em que adensa a postura política com o lastro poético, humano e sagrado do imaginário.

A reconstituição do mito de origem Yanomami, com a história dos irmãos Omama e Yoasi e seu encontro com a ninfa Thuëyoma, é interpretada por jovens da aldeia com um frescor e uma graça que dificilmente seriam alcançados por atores profissionais.

Um confronto (provavelmente encenado) com garimpeiros, o paciente trabalho de tapeçaria colorida, a produção do beiju, o exercício de caça com arco e flecha dos meninos, as histórias contadas na rede, o impressionante transe dos xamãs ao aspirar a fumaça de um pó alucinógeno que os faz dançar, cantar e atuar como numa performance moderna, tudo flui com a naturalidade do rio translúcido que atravessa a região.

Ruídos linguísticos

Chama a atenção, nos diálogos e narrações na língua Yanomami, a presença, aqui e ali, de palavras do português: nomes de doenças, de armas e de aparatos tecnológicos (“helicóptero”, por exemplo) trazidos pelos brancos, além de números referentes a grandes quantidades (“trinta, quarenta”). Outra que se destaca é “mercadoria”.

Esses ruídos linguísticos dizem muito sobre os atritos da cultura indígena com a dita civilização ocidental.

Uma dessas palavras invasoras – “associação” – surge numa das falas mais significativas de todas, a de uma mulher que conclama suas companheiras a organizar uma cooperativa para venderem em melhores condições seu artesanato aos brancos e, com isso, tornarem-se mais independentes dos homens da aldeia.

Esse dado desmancha a noção de que a cultura indígena é algo estático, alheio à história, ou que desta só sofre passivamente os estragos e a aniquilação.

O elemento de ligação entre as faces múltiplas desse povo extraordinário é, evidentemente, Davi Kopenawa, ao mesmo tempo xamã, líder político e interlocutor dos Yanomami com o mundo dos brancos. Não por acaso, o filme termina com uma palestra sua na universidade de Harvard, da qual ouvimos só as primeiras e contundentes frases.

Na verdade, não é bem o fim. Há ainda duas imagens notáveis.

A primeira delas, de Davi sentado numa cama de hotel, banhado pela luz que vem da rua e pelos ruídos urbanos, lembra uma cena análoga do Dersu Uzala, de Kurosawa, em que o protagonista percebe a cidade como um lugar absurdo e indecifrável. Um homem fora do lugar, em suma.

A segunda imagem, que repete mais detidamente uma que vimos de passagem no início, é da aldeia vista por uma câmera aérea que se distancia cada vez mais, mostrando que aquela linda taba em forma de circunferência em torno de um pátio de terra batida é um ponto mínimo no meio da mata exuberante, em contraste com as horrendas cicatrizes deixadas pelo garimpo predatório.

Nunca ficou tão claro, ao menos para mim, que defender os indígenas e defender a floresta são uma única e mesma luta.

Fotos: Divulgação

José Geraldo Couto

Jornalista, crítico de cinema e tradutor. Formado em história e em jornalismo pela USP, trabalhou por mais de vinte anos na Folha de S. Paulo e três na revista Set. É autor, entre outros, dos livros André Breton (Brasiliense), Brasil: Anos 60 (Ática) e Futebol Brasileiro Hoje (Publifolha). Escreve semanalmente sobre cinema para o site do Instituto Moreira Salles e ministra cursos livres em torno da história do cinema.

Deixe uma resposta