A pedido de Joe Biden, embaixador dos EUA no Brasil se reúne com lideranças indígenas

Em 12 de abril – portanto, muito próximo da Cúpula do Clima, que será realizada pelo governo americano em 22 (Dia da Terra) e 23 de abril -, Todd Chapman, embaixador do Estados Unidos no Brasil, se reuniu com integrantes da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).

Ele atendeu a pedido do presidente Joe Biden.

Em março, a entidade enviou uma carta pra Biden e John Kerry, do Departamento de Estado para Mudanças Climáticas, solicitando que o governo americano promovesse um “canal direto de comunicação” com lideranças indígenas brasileiras sobre assuntos ligados à Amazônia.

O documento lista uma série de ameaças do governo Bolsonaro contra os indígenas como a promoção do desmatamento, que só aumenta, o incentivo a projeto de lei que libera a mineração em terras indígenas. E questiona se Bolsonaro pode realmente se comprometer com as metas ambientais cobradas por Biden.

Funai convida indígenas desenvolvimentistas

O governo brasileiro foi convidado a participar do encontro com Chapman e as lideranças indígenas. A Funai (Fundação Nacional do Índio), então, indicou indígenas envolvidos com o agronegócio, garimpo e atividades madeireiras para a reunião. Muito coerente com a visão desenvolvimentista promovida pelo governo.

A Funai é dirigida por um ex-delegado da Polícia Federal, Marcelo Xavier da Silva, declaradamente comprometido com ruralistas. Em abril de 2020 editou medida que permitia a invasão, o loteamento e a venda de áreas em mais de 237 terras indígenas em processo de demarcação.

Os indígenas indicados pelo órgão apoiam Bolsonaro e são apoiados por ele e, assim, não representam a essência e o pensamento dos povos indígenas.

Como era de se esperar, sua presença causou desconforto durante a reunião, que durou 1h30 e tinha como pautas a proteção do meio ambiente, a preservação da floresta e a crise climática. Mas nenhuma informação detalhada foi divulgada a respeito dessa ‘saia justa.

Jonathan Pershing, assessor de John Kerry, enviado pelo governo para acompanhar Chapman, também ouviu as demandas dos indígenas.

Sonia Guajajara, coordenadora executiva da Apib, contou ao jornal O Globo que a conversa “foi formal e bem protocolar, mas, como o próprio embaixador disse, esse é o primeiro de muitos diálogos que virão”.

Sim, isso foi confirmado pelo jornal O Globo: em duas semanas deve ser realizada nova reunião, na qual serão analisadas somente questões relacionadas à preservação do meio ambiente.

Será isso suficiente para evitar a participação dos indígenas convidados pela Funai, portanto, do governo Bolsonaro, reforçando seu desinteresse pelo clima?

A carta dos indígenas a Biden

No encontro com Chapman, a Apib enfatizou os pedidos feitos ao governo de Bolsonaro – e explicitados na carta a Biden – para que retome a demarcação das terras indígenas e fortaleça os mecanismos de rastreabilidade e transparência para a venda/compra de commodities do Brasil.

Isso ajudaria a impedir a aquisição de produtos oriundos de terras indígenas, de áreas desmatadas e onde há conflitos, ou ainda se explore o trabalho escravo.

As lideranças indígenas ainda destacaram a urgência da retomada do Plano de Combate ao Desmatamento na Amazônia e para que se comprometa com as promessas referentes ao combate da crise climática feitas à ONU com o intuito de cessar o desmatamento e aumentar a ambição para reduzir emissões de gases de efeito estufa.

Por fim, os signatários da carta pedem ajuda aos EUA para obter recursos financeiros com o objetivo de investirem em projetos de reflorestamento e restauração não só da floresta amazônica, mas também da Mata Atlântica e do Cerrado, entre outros.

“É fundamental que o presidente Joe Biden estabeleça um diálogo junto ao Governo Brasileiro com bases na garantia da preservação da vida e da biodiversidade do planeta em contraponto ao fortalecimento de políticas anti-indígenas”, finalizam.

Foto: montagem com fotos de Todd Chapman/Divulgação Embaixada dos EUA e Sonia Guajajara/Divulgação Apib

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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