A pandemia é a mais nova consequência de um histórico de invasões e agressões ao meio ambiente

A pandemia é a mais nova consequência de um histórico de invasões e agressões ao meio ambiente pelo ser humano

*Por Diego Antonelli

Um meio ambiente cada vez mais encurralado. A fauna e a flora alocados em ambientes cada vez mais restritos e desequilibrados. A onda expansiva dos desmatamentos e a redução das áreas naturais colocam a saúde dos seres humanos em xeque. A recente pandemia provocada pelo coronavírus é o mais novo exemplo dos reflexos dos danos ambientais provocados pelo ser humano.

Uma biodiversidade fragilizada e com áreas reduzidas ano após ano provoca o alastramento de doenças que, até então, não eram vistas e nem conhecidas pela humanidade. A intensificação dos efeitos do aquecimento global, por exemplo, faz com que os mosquitos transmissores de dengue e zika consigam sobreviver em novos ambientes. Afinal, ambientes mais quentes permitem a migração desses agentes para localidades onde, até então, o clima era mais hostil à sua propagação e disseminação.

Além disso, a destruição da natureza possibilita o contato mais intenso entre seres humanos e animais silvestres. “A falta de ambientes naturais e o desequilíbrio ambiental fazem com que haja muito mais chance de contatos diretos entre os vírus que estão nesses animais – e estão equilibrados, sem causar dano algum a eles – mas que acabam em contato com seres humanos, gerando problemas e doenças bastante graves”, explica o diretor-executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), Clóvis Borges.

Estima-se que 65% das doenças que surgiram nos últimos 40 anos sejam zoonoses, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Animais silvestres, seja pela prática da caça, comércio ou perda de área natural, entraram em contato com o ser humano e passaram doenças que, até então, eram desconhecidas e estavam alocadas apenas nas florestas, como ebola, zika e AIDS, por exemplo.

Esse foi, também, o ponto de partida do novo coronavírus, causador da COVID-19. Esse vírus está há tempos no meio ambiente, provavelmente alojado em morcegos que vivem em seu meio natural, segundo pesquisas indicam até o momento. Mas com a crescente urbanização e a invasão humana das áreas naturais, o vírus quebrou seu ciclo natural, alcançando outros seres – como os humanos.

Uma das hipóteses para que o coronavírus tenha chegado às pessoas é de que, em algum lugar da China, um morcego tenha deixado para trás um rastro de coronavírus em seus excrementos. Um animal silvestre, possivelmente, um pangolim à procura de insetos para comer, pode ter tido contato com essas fezes. Um desses animais, após capturado, entrou em contato com seres humanos e, de alguma forma, infectou alguém. Este indivíduo, por sua vez, transmitiu o vírus a seus colegas no mercado chinês, onde outros animais silvestres também são vendidos.

Existem , também, outras suspeitas e possibilidades. Mas todas estão ligadas ao ser humano como protagonista da invasão de territórios silvestres. Outra, que também é considerada bem possível, é de que a transmissão tenha ocorrido para um indivíduo diretamente por um morcego. Os únicos mamíferos que têm a capacidade de voar podem ser infectados por vários tipos de coronavírus no mundo todo – incluindo os da cepa que provocam a COVID-19.

De acordo com as investigações até o momento, o contato silvestre deve mesmo ter sido o principal vetor de transmissão. As pessoas podem ter tido contato com a saliva e as fezes dos morcegos. A caça desses animais na China e a introdução deles em mercados que comercializam animais selvagens podem ter contribuído para a expansão da doença.

A solução para evitar problemas dessa ordem, que hoje afligem o mundo, é respeitar mais o habitat de todos os animais. A história mostra que pandemias originárias de zoonoses são resultado das intervenções do ser humano no meio ambiente. No anseio para expandir seu território, a humanidade invade o território de infinitas espécies, trazendo problemas de lá. Problemas para os quais uma pessoa, sequer, tem imunidade.

“O ser humano se acostumou com a vida artificial a custo da natureza. Isso traz reações, como o surgimento de novas doenças vindas de elementos que já existem na natureza e que entram em contato com as pessoas”, completa Clóvis.

Pandemia x Meio Ambiente

Exemplos na história mundial não faltam. A epidemia da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), entre 2002 e 2003, na Ásia, teve como origem o consumo dos mamíferos civetas que estavam, provavelmente, infectados por causa dos morcegos. Em 2012, a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS, em inglês) passou de dromedários para humanos.

A doença pelo vírus ebola, cujo morcego também é o reservatório mais provável, é outro exemplo. Quatro dos cinco subtipos ocorrem em hospedeiro animal nativo da África. Acredita-se que o vírus foi transmitido para seres humanos a partir de contato com sangue, órgãos ou fluidos corporais de animais infectados, como chimpanzés, gorilas, morcegos-gigantes, antílopes e porcos-espinhos. A epidemia entre 2013 e 2016 em solo africano ceifou a vida de mais de 11 mil pessoas.

Esses exemplos alertam para o fato que os seres humanos e a natureza fazem parte de um sistema completamente interconectado. Existe uma variedade enorme de vírus na natureza que estão inertes. A partir do momento que as pessoas invadem o meio ambiente e provocam o desmatamento, esses vírus adquirem maior potencial de atingir a espécie humana.

Um relatório chamado ‘Fronteiras 2016’ sobre questões emergentes de preocupação ambiental elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente mostra que esses tipos de zoonoses ameaçam o desenvolvimento econômico, o bem-estar animal e humano e a integridade do ecossistema.

Nos últimos anos, várias doenças zoonóticas ameaçaram causar grandes pandemias, como o surto da gripe aviária, entre 2003 e 2004, e o Zika vírus, entre 2015 e 2016. Essas doenças ainda são monitoradas de perto.

A gripe aviária, vale ressaltar, tem ligação direta com a destruição da natureza. Devido a variações climáticas, devastação de habitats e expansão de cultivos ocorreu uma mudança no padrão de migração das aves silvestres. Dessa forma, os patos selvagens – reservatórios naturais do vírus – foram até granjas e passaram o vírus para aves domesticadas, que transmitiram para os seres humanos.

Para impedir o surgimento de zoonoses que marcam a história da humanidade, é fundamental, conforme aponta as Nações Unidas, reduzir a fragmentação de habitats, inibir o comércio ilegal de animais silvestres, controlar a poluição, e, consequentemente, mitigar a intensificação dos efeitos das mudanças climáticas

*Este artigo foi publicado originalmente no jornal online e gratuito do Observatório de Justiça e Conservação. Para acessar as demais reportagens clique aqui.

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Foto: domínio público/pixabay

Observatório de Justiça & Conservação

O Observatório de Justiça e Conservação (OJC) é uma iniciativa apartidária e colaborativa que trabalha fiscalizando ações e inações do poder público no que se refere à prática da corrupção e de incoerências legais em assuntos relativos à conservação da biodiversidade, prioritariamente no Sul do Brasil, dentre os quais se destacam, a Floresta com Araucária

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