A líder indígena Alessandra Korap Munduruku recebe prêmio internacional de direitos humanos

Alessandra Korap Munduruku tem apenas 36 anos e é uma das lideranças indígenas de destaque no país devido à sua luta pelos direitos de seu povo – os Munduruku – e de todos os povos indígenas brasileiros contra grandes projetos governamentais que afetam seus territórios, como é o caso da liberação da mineração proposta pelo governo Bolsonaro.

No ano passado, logo após denunciar invasões e atividades mineradoras nas terras de seu povo no Congresso Nacional, em Brasília, teve sua casa em Santarém (onde estuda), invadida e é alvo constante de ameaças.

“Quem defende o rio e o território, é ameaçado. Quando o presidente fala, é venenoso. Então, esses ataques vêm do próprio presidente. Ele fala e as pessoas já fazem. A gente tem de se cuidar, lutar de uma forma que, muitas vezes, tem de dar passos pra trás. E, quando a gente faz isso, eles se fortalecem com as pessoas a favor da destruição do território. Onde vamos parar?”, disse ao jornal Folha de São Paulo, na ocasião.

Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real

Este ano, ela foi escolhida pelo júri do Prêmio Robert Kennedy de Direitos Humanos (EUA) para receber US$ 30 mil ((cerca de R$ 166 mil), além de “apoio contínuo da RFK Direitos Humanos para seu importante trabalho, como litígios estratégicos, treinamento e capacitação e defesa perante governos, organizações internacionais e outras instituições”.

Isto, sim, é um prêmio à altura do tema! É imprescindível que quem atua em defesa dos direitos humanos – especialmente neste momento da humanidade, em que o obscurantismo tenta tirar cada vez mais direitos – tenha suporte e capacitação para poder lutar.

Em seu site, os organizadores explicam que o prêmio foi criado para “identificar e homenagear aqueles que incorporam a crença de Robert F. Kennedy de que o poder da coragem moral individual pode superar a injustiça“.

E a partir de que nomes é feita essa escolha? A cada ano, a organização convida o público a nomear “campeões notáveis” com essa coragem moral, “que enfrentam a opressão, mesmo com grande risco pessoal, na busca não-violenta dos direitos humanos”.

Prêmio coletivo

Os Munduruku na auto-demarcação do território Sawre Muybu/
Foto: Anderson Barbosa/Greenpeace

O Prêmio Robert F. Kennedy é uma homenagem ao irmão do presidente democrata John Kennedy, morto em 1963. Procurador-geral e senador por Nova York, Robert também foi assassinado, em 1968.

Desde que foi criado, em 1983, o prêmio RFJ de Direitos Humanos reconheceu 38 ativistas e organizações oriundos de 30 países.

Entre os homenageados estão o ativista de direitos humanos venezuelano Alfredo Romero (2017), crítico da ditadura encabeçada por Nicolás Maduro, e a militante sul-africana Winnie Mandela (1985), ex-mulher de Nelson Mandela. Ela dividiu o prêmio com o reverendo Allan Boesak e Beyers Naude, com quem lutou para acabar com o apartheid na África do Sul.

No ano passado, a organização March For Our Lives, criada pelos atuais alunos e ex-alunos da Marjory Stoneman Douglas High School em Parkland, Flórida, foi a vencedora. Ela surgiu depois do massacre de fevereiro de 2018: “esses jovens adultos acenderam um fogo no coração de cada geração na América – especificamente a juventude, conduzindo a próxima geração a uma nova era de consciência e envolvimento político”.

Esta é a segunda vez que um brasileiro ganha o prêmio RFK. Em 2001, o advogado Darci Frigo foi homenageado por seu trabalho em favor da reforma agrária.

Por telefone, Alessandra contou aos organizadores que o prêmio certamente ajudará a fortalecer a luta dos Munduruku.

“A Funai e o presidente negam nosso direito à terra. Os caciques ficaram muito felizes com o prêmio, apesar de tudo o que está acontecendo, das ameaças. É um prêmio coletivo em defesa do território. Todo o dinheiro será usado pra isso”.

Cerimônia virtual, com painel de debates

Este ano, a organização do prêmio RJK realizará uma cerimônia virtual em 22 de outubro, às 18h (horário de Brasília)apresentada por Kerry Kennedy, com a participação de seu presidente, Robert F. Kennedy -, para homenagear Alessandra “por seu trabalho em defesa da cultura, meios de subsistência e direitos dos povos indígenas no Brasil”.

Ontem, a organização disse em seu Twitter: “Todos os anos, homenageamos campeões de coragem moral em todo o mundo com nosso Prêmio de Direitos Humanos. Temos o orgulho de anunciar nosso Prêmio de 2020: Alessandra Korap (@Alkorap1), líder indígena do povo Munduruku do coração da Amazônia brasileira”.

A cerimônia terá discurso de John Kerry, ex-secretário de Estado dos EUA, sobre as inúmeras ameaças e desafios que as comunidades indígenas enfrentam em todo o mundo, e poderá ser acompanhada pelo público, mediante inscrição gratuita.

Do encontro ainda fará parte um painel de debates moderado por Andrew Revkin, diretor do Earth Institute da Columbia University, “sobre os desafios que o povo Munduruku e a população indígena no Brasil, em geral, estão enfrentando, que inclui exploração, degradação e invasão de suas terras e territórios, garantindo seu direito de ser devidamente consultados sobre projetos que afetam seus direitos e as ameaças a líderes indígenas e ativistas por seu trabalho. Tudo isso em meio à pandemia de coronavírus, que representa risco especialmente sério para esses povos”.

Participarão do debate:
Juarez Saw Munduruku, Chefe da aldeia Sawré Muybu;
Maria Leusa Cosme Kaba, líder feminina Munduruku;
Antonia Urrejola Noguera, relatora sobre os Direitos dos Povos Indígenas e Comissária da Comissão Interamericana de Direitos Humanos,
José Francisco Calí Tzay, relator especial da ONU para os Direitos dos Povos Indígenas;
Christian Poirer, Diretor de Programa da Amazon Watch; e
Sebastião Salgado, premiado fotógrafo e documentarista.

Alessandra e suas causas

Durante discurso na Câmara dos Deputados, em 2018 –
Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Rea
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Ela nasceu na aldeia Praia do Índio, no município de Itaituba, no Pará, que fica na Amazônia. É defensora dos direitos humanos e líder do povo Munduruku do Médio Curso do Rio Tapajós.

Em 2014 e 2015, trabalhou como professora de educação infantil, e, em 2017 e 2018, foi coordenadora da Associação Indígena Pariri, entidade que ainda assessora.

Chefe das mulheres guerreiras Munduruku do Médio Tapajós, ainda acompanha caciques e lideranças na defesa do território do rio Tapajós e do Amazonas. Como líder, defende os direitos indígenas, em especial a luta pela demarcação de Terras Indígenas e contra projetos que visam devastar terras indígenas na região do Tapajós.

Mulheres Guerreiras Munduruku – Foto: Fábio Nascimento/Greenpeace

O território desse povo fica dentro da maior reserva aurífera do país, e, também, na área de influência da BR-163 (Cuiabá-Santarém) e da BR-230 (Transamazônica)Por isso, enfrentam invasões de mineradores, madeireiros e grileiros e a homologação e demarcação de suas terras sempre foi postergada (leia: A tragédia dos Munduruku).

Mas mesmo terras homologadas não são respeitadas. Na região, há uma verdadeira ‘febre do ouro’, que vem destruindo igarapés e rios. Essa invasão tem promovido, também, a ganância e conflitos entre indígenas contrários e favoráveis à exploração do ouro.

Faz tempo que eles mesmos criaram e treinaram um grupo de guardiões que auto-demarcam suas terras e expulsam invasores, como já escrevemos, aqui no site.

Ativista, participou de diversos protestos e ações políticas em Brasília, como a que pedia a suspensão da construção de uma grande hidrelétrica. Também liderou ações políticas que impediram a realização de audiência pública voltada para a discussão de projetos de concessão florestal em territórios indígenas e tradicionais.

Em 2019, como parte de sua estratégia de se aprofundar no conhecimento dos pariwat (brancos) para melhor defender e gerir, com autonomia, o território Munduruku, decidiu estudar Direito na Universidade Federal do Oeste do Pará. Logo, logo, vai ser doutora!

Uma das características de sua atuação é que Alessandra age tanto local (com seu povo), como em termos nacionais (por todos os povos) para construir e articular a luta pela garantia dos direitos dos povos indígenas, seja em espaços políticos dos Munduruku, na articulação dos povos indígenas do Brasil e outros movimentos tradicionais indígenas, como também na universidade, em eventos e audiências.

Pela Constituição, essa atividade é ilegal, mas Bolsonaro prometeu regulariza-la com Projeto de Lei (PL) 191/2020,. Temos um presidente que provoca conflitos com suas ideias desenvolvimentistas. Na semana passada, duas rodovias foram interditadas por garimpeiros munduruku e não-indígenas em protesto pela legalização do garimpo. 

Entre suas preocupações mais urgentes, está justamente esse PL. No ano passado, Korap participou de diversos protestos e iniciativas que contestavam os planos de Bolsonaro e ganhou projeção. 

Segundo o jornal Folha de São Paulo, em reunião com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), a líder bateu várias vezes na mesa ao falar dos problemas do seu povo e criticar as políticas do governo federal.  

“Se for aprovado, a liberação vai servir para todas as terras indígenas! O Ibama já não dá conta, imagina com esse PL! Será a morte dos rios, dos peixes. Todo o povo da Amazônia vai sofrer. Não vai ter floresta em pé. É o PL da morte!”.

Ninguém intimida, nem segura Alessandra Korap Munduruku! Reconhecimento mais que merecido, que venham outros! E que ela vença todas as lutas em defesa dos povos indígenas. Estamos, aqui, na torcida, e para apoia-la.

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Foto (destaque): Alberto César Araújo/Amazônia Real

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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