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“A justiça será feita quando os povos da floresta forem respeitados”, diz Alessandra Sampaio, viúva do jornalista Dom Phillips

Por Maria Fernanda Ribeiro*

Sete meses passaram desde os assassinatos do indigenista brasileiro Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Philips, em uma comunidade ribeirinha da região do rio Itacoaí, do município de Atalaia do Norte, na divisa com a Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas, no dia 5 de junho de 2022. 

As audiências de instrução que antecedem o julgamento dos três acusados que estão presos em Manaus e devem ir à júri popular estavam confirmadas para acontecer ainda em janeiro deste mês, mas foram subitamente adiadas para março ​​devido à indisponibilidade de salas para que os presos acompanhassem as audiências e por “falhas na comunicação”, justificou o juiz Fabiano Verli.

Em julho de 2022, o Ministério Público Federal (MPF) acusou cada um dos envolvidos por duplo homicídio qualificado e ocultação de cadáver em um dos dois inquéritos abertos para investigar os detalhes dos crimes e a participação. São eles: Amarildo da Costa Oliveira (o “Pelado”) – assassino confesso das vítimas –, seu irmão, Oseney da Costa Oliveira (o “Dos Santos”), e Jefferson da Silva Lima (o “Pelado da Dinha”).

Até então a denúncia havia descartado um mandante para o crime, mas o caso teve uma reviravolta quando foi confirmado que Ruben da Silva Villar, o ‘Colômbia’ foi o mandante. Segundo o superintendente da PF no Amazonas, Eduardo Fontes, em coletiva na segunda-feira (23), ‘Colômbia’ conversou nas vésperas e depois do crime com os assassinos.

Enquanto os trâmites legais se desdobram aos poucos e aos trancos, Alessandra Sampaio, viúva de Dom Philips, reconstrói a vida e a rotina disposta a preservar o legado do marido. Ainda não há nada concreto, a não ser a certeza de que precisa ser algo que tenha a cara dele. “Quero fazer algo com a cara do Dom, o menos vaidoso possível e com objetivo”.

Alessandra, que afirmou conhecer a Amazônia somente por meio dos relatos e do olhar de Dom, agora traça sua própria jornada para se aproximar da região e da floresta. “Tudo o que tenho feito é estudado e lido. É como se eu estivesse voltando para a faculdade”, disse Alessandra.

Enquanto mergulha no tema, Alessandra espera pelo julgamento dos algozes de Bruno e Dom. Ela – que se frustrou com a denúncia inicial do MPF por não ter apontado um mandante para o crime e também não o considerou como premeditado – afirmou que a justiça só será considerada como feita quando os povos indígenas e seus territórios estiverem de fato protegidos. 

A justiça será feita, mesmo, quando os povos da floresta forem respeitados, quando as demarcações estiverem funcionando, quando tiver fiscalização e quando as populações não-indígenas não estiverem tão à mercê da miséria”, afirma. 

A agência Amazônia Real entrevistou Alessandra Sampaio em dezembro do ano passado, pouco antes do Natal. Na conversa online, ela contou como tem passado os dias desde a morte do companheiro, quais são os planos para o futuro e suas expectativas para o julgamento.

A aliança de casamento Dom continua pendurada em seu pescoço e uma nova tatuagem com a frase, “Amazônia, sua linda”, a última que Dom publicou em suas redes sociais cinco dias antes de desaparecer, não é descartada.

Como é que você tem passado esses meses desde a morte do Dom? 

Primeiro tem o âmbito pessoal porque a morte do Dom não é só minha, nem só da minha família, nem só da família dele, extrapola tudo isso. Então, o ambiente íntimo é de reconstrução da vida, da rotina, mesmo com muita tristeza, muita saudade, seguir em frente. Porque a vida está aí e estou viva e saudável. Então, preciso seguir com o que imagino para a minha vida.

Saindo desse âmbito pessoal e familiar, tem sido um grande aprendizado para mim porque não é minha área, nem a jornalística e nem a ambiental, e eu tenho aprendido muito. Tenho aprendido não de uma maneira não muito sistemática, com muita gente se aproximando e se oferecendo para trocar ideias. Tem sido interessante, são pessoas generosas e que trabalham com isso, tanto indígenas quanto ativistas.

Fiz, também, um curso na Pontifícia Universidade Católica (PUC) com Eloy Terena [advogado indígena, que recentemente foi nomeado secretário-executivo do Ministério dos Povos Indígenas] sobre Direito e Políticas Indigenistas no Brasil. Tem muita gente querendo ajudar, mas respeitando também porque preciso de um tempo para reconstruir minha vida pessoal.

Tem algum plano para 2023 que envolva o nome do Dom? 

Não tenho nada pensado porque minha preocupação é muito séria em relação ao nome do Dom, para não usar isso de uma forma leviana porque ainda não tenho essa expertise. Então, por ingenuidade ou ignorância, não quero arriscar colocar o nome dele em nenhum tipo de projeto, instituição ou fundação sem começar a entender realmente.

Tenho conversado com uma amiga da área ambiental, mas ainda é algo muito embrionário. E ainda não conheço a Amazônia pessoalmente, só através dos olhos do Dom. Mas eu vou me programar para isso, fazer incursões, conhecer as pessoas. Porque falar da Amazônia com essa admiração toda e não conhecer a floresta é uma loucura.

Algumas pessoas dizem que vai passar o timing, que preciso fazer logo, mas o mais importante não é o timing, mas o que ficou disso, então é por isso que penso em fazer as coisas com mais calma. Penso em fazer algo na área de educação ambiental, que acho importante. 

Como tem sido para você receber as homenagens em nome do Dom?

É muito emocionante e também é uma construção porque percebo que há várias entidades em diferentes instâncias e isso é importante porque faz reverberar o trabalho do Dom. E vai muito além do Dom. É a questão de ter tocado a consciência das pessoas para o lado ambiental e tocou muito as pessoas, seja de qual prêmio for, se é mais formal ou informal, mas as pessoas vêm falar comigo porque sentem muito, sentem a perda de um ser humano, do Dom e do Bruno.

Quais são as suas expectativas em relação ao julgamento dos assassinos do Dom e do Bruno e o que é Justiça para você?

Eles [os acusados] precisam ser julgados e condenados de acordo com a lei. Não sou a favor de vingança, pelo contrário, e todos tem que seguir as regras, vale para todo mundo. E acho que eles têm todo o direito à defesa como cidadãos. Mas já sabemos das implicações deles e desejo que sejam condenados e que paguem por isso.

É muito importante um evento como esse não ficar sem justiça porque, se a gente quer uma sociedade mais civilizada e que respeite as leis, é um caso para servir de parâmetro para as pessoas que possam pensar em cometer crimes. Numa instância maior é esperar a atuação do Estado.

A justiça será feita mesmo quando os povos da floresta forem respeitados, quando as demarcações estiverem funcionando, quando tiver fiscalização e quando essas populações não-indígenas não estiverem tão à mercê da miséria.

É uma instância maior. O que o Estado está fazendo para barrar essas organizações criminosas?

O que você espera como uma reparação do Estado?

Espero que haja uma reparação coletiva, mas primeiramente a proteção dos territórios. Não estamos pedindo nenhuma indenização individual.

Como você encarou a denúncia do MPF, de que não houve crime premeditado e nem um mandante?

Meus advogados já tinham dito que isso ia acontecer antes de acontecer. E acham difícil a coisa se desdobrar, que só os que já estão presos mesmo serão condenados. Mas eu acho que foi um crime premeditado e fiquei muito chocada, achei que iam chegar até os mandantes, que teria gente grande envolvida. Na hora fiquei bem frustrada, mas falaram para não perder meu tempo e energia com isso porque dificilmente conseguiria chegar em gente maior. Tinha uma visão meio inocente da coisa. 

Mesmo com essa denúncia, que te frustrou, se os três que estão presos forem condenados, você vai considerar que a Justiça foi feita?

É o mínimo para ter ordem na região, mas meu conceito de Justiça é muito maior e passa minimamente pela proteção dos territórios e das pessoas que vivem ali e que conservam a floresta. 

Policiais federais com os restos mortais de Dom Phillips e Bruno Pereira / Foto: Avener Prado/Agência Pública)

Você ainda acompanha as notícias? Tem fôlego para isso?

Acompanho, sim. E tenho amigos jornalistas que não me deixam esquecer. Mas poucas coisas me afetam porque o Dom já se foi. Então, saber as minúcias das coisas não me afetam muito. Eu fiquei bem impactada quando soube que o Dom não tomou o primeiro tiro, que foi o Bruno. E que o Bruno caiu e aí o Dom tomou o tiro. Então, penso naqueles segundos intermináveis para ele, que devem ter sido um horror. Isso me abalou bastante. Mas, de resto, eles não estão mais aqui e busco ter uma visão mais espiritualizada. Não vai me trazer nada ficar esmiuçando e não fico procurando esse lado pior, mais trágico, mais horroroso.

Como você avalia o tratamento da imprensa nacional e internacional na cobertura após o caso?

Naturalmente ia esfriar um pouco, mas eu sinto, principalmente dos jornalistas no Brasil, que ainda tem uma movimentação para não deixar cair no esquecimento. Para mim, o mais bacana disso, é que não é o Dom, é que essa luz sobre todo esse absurdo que acontece na Amazônia ficou um pouco mais evidente. Não acho que a sociedade tinha noção dessa profundidade. Eu tinha através do Dom, mas não na profundidade que eu quero agora e como estou entendendo um pouco melhor também, com tudo o que estou lendo a respeito.

As pessoas estão perguntando como podem ajudar e eu digo que elas precisam se informar para poder pressionar. É tudo muito complexo. A gente acha que é só um probleminha de um pescador que matou o Dom e o Bruno, mas não é isso, é uma coisa grandiosa. Do mesmo jeito que é grandiosa a questão da conservação, que é fundamental. Talvez a morte do Dom e do Bruno tenha dado essa dimensão para as pessoas. Eu sinto muita fidelidade da mídia.

Você sente vontade de conhecer o lugar onde a tragédia aconteceu?

Tenho curiosidade de conhecer. Não fui antes por causa dessa eleição tão polarizada e recebi a recomendação dos meus advogados para não ir. Mas quero estar presente no julgamento, quero conhecer a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari, a Univaja porque sou extremamente grata aos povos indígenas, principalmente os do Vale do Javari, pelo carinho, pela lealdade, não tenho palavras. Em primeiro lugar, eu agradeço a eles e, em segundo, aos jornalistas.

Quem me avisou do desaparecimento do Dom foi um jornalista e não a polícia. São coisas que a gente não esquece, principalmente essa coisa do cuidado e da lealdade. Não quero remontar nada, quero conhecer independente de ter sido lá que ele perdeu a vida.   

Onde você tem encontrado conforto?

Tenho entendimento de uma coisa maior, acho que a reverberação é o que mais me conforta, de todas as manifestações em nível mundial, todo esse movimento muito incrível. Todo o carinho que recebi, pessoas que nunca ouvi falar, um monte de carinho vindo que eu acho sensacional, está sendo muito aprendizado.

É uma dor tão profunda que te dá outro entendimento, outra visão da vida. No meio de tanta dor, de estar recolhida, de sentir uma dor física, o carinho constante das pessoas ajuda a curar. Dá uma sensação tão boa de pertencer a esse mundo, que é tão violento, mas tem tanta gente legal e torcendo por você. Não é ficar presa ao que você perdeu, mas chega tanta coisa boa para te alimentar, te dar forças, que tem que seguir por aí. É o que faz sentido para mim. 

Como está a publicação do livro que o Dom estava escrevendo sobre a Amazônia?

Não posso falar porque tem uma tal de confidencialidade, esse mundo novo, uma loucura isso. Mas o que posso dizer é que tem um grupo, com a agente literária do Dom, que é inglesa, assim como a editora, e tem um time de pessoas organizando o que vai ser feito. Porque tinha uma parte escrita e falta a outra parte e parece que quem vai escrever vai ser mais de uma pessoa. Mas eu não estou nesse grupo porque não sei como escrever um livro. É um grupo que se auto-gerencia. O que sei é que deve ser em 2024.

Como está a sua vida profissional?

Eu tinha um pequeno negócio sustentável, com produção muito caseira de acessórios e estava abrindo com uma amiga uma plataforma para vender artesanatos do Nordeste, mas tudo perdeu o sentido e, agora, tudo o que tenho feito é estudado e lido. É como se eu estivesse voltando para a faculdade. Agora a pegada é outra.

Muita gente fala que não tenho obrigação de seguir o legado do Dom, mas sempre me tocou muito a questão ambiental, que eu via pelos olhos dele, mas sinto que tem uma responsabilidade, sim.

Acho que tenho uma oportunidade na mão, esse legado que ele deixou, e tenho a responsabilidade de conduzir isso porque acho que pode ter consequências importantes na vida de algumas pessoas, como a educação. Seria egoísta da minha parte deixar essa oportunidade de lado. Quero fazer algo com a cara do Dom, o menos vaidoso possível e com objetivo. É uma responsabilidade gigantesca pelo bem comum. Um trabalho sério e relevante.

Alessandra Sampaio durante o funeral de Dom em Niterói (Foto: Tânia Rego/Agência Brasil)

Funeral de Dom Phillips (Foto: Alessandra Sampaio)

Velório do indigenista Bruno Pereira (Foto: Arnaldo Sete/Marco Zero Conteúdo)

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*Este texto foi originalmente publicado no site da agência Amazônia Real em 26/1/2023 e adaptado por Mônica Nunes para publicação aqui, no Conexão Planeta.

Foto (destaque): Alberto Cesar de Araújo/Amazônia Real (Alessandra Sampaio na cerimônia de premiação Prêmio Vladimir Herzog, em São Paulo)

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