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A indigenista Neidinha, Txai Suruí, o artivista Mundano e um grupo de indígenas e cinegrafistas sofrem emboscada na terra Uru-Eu-Wau-Wau

Por Elaíze Farias*

Um grupo de aproximadamente 50 homens cercou e intimidou no último domingo, 14/5, durante quatro horas, a indigenista Ivaneide Bandeira, a Neidinha Suruí, sua filha Txai Suruí e outros cinco indígenas, do povo Uru-Eu-Wau-Wau, em uma estrada que dá acesso ao posto de vigilância da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), em Rondônia.

Junto com Neidinha estavam o artivista Mundano e uma equipe de documentaristas, totalizando 16 pessoas. A estrada fica na região do PAD Burareiro (Projeto de Assentamento Dirigido), em Monte Negro, Rondônia, e é reconhecida pela Funai como terra indígena do povo Uru-Eu-Wau-Wau. Os homens que abordaram a equipe de Neidinha alegam que são assentados do Incra e que não há indígenas naquela área.

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Neidinha disse à Amazônia Real que, ontem, 15/5, após fazer Boletim de Ocorrência na Polícia Federal, se deu conta que se tratou de uma emboscada, na qual as principais vítimas seriam ela, Txai e os indígenas. Ela também comunicou o episódio à Funai e ao Ministério dos Povos Indígenas (MPI).

“Não sei o que poderia acontecer conosco se não fosse a equipe de documentaristas que a gente estava acompanhando. Agora com a cabeça mais fresca, percebo que foi uma emboscada, eles sabiam quem a gente era. Eles estavam muito preparados e orientados. Atravessaram a estrada quando a gente passava”.

A indigenista disse que durante toda a abordagem, sempre hostil, os homens fizeram filmagens dela, dos indígenas e de seus acompanhantes. Até que ela própria decidiu filmá-los também (assista no final deste post). Seu receio era que houvesse mais homens escondidos dentro da mata e que eles estivessem armados, apesar de não terem apontado armas para ela.

“A gente estava acompanhando o Mundano e uma equipe de um diretor estrangeiro [o documentarista Heydon Prowse, diretor e jornalista inglês]. O Mundano iria fazer uma intervenção artística na região da barreira da Funai, a barreira 2, por conta da simbologia e da pressão da grilagem que tem na área. Passamos por aquela estrada, que é uma estrada de trânsito de todos nós. Quando estávamos no início ainda, eles nos fecharam. Colocaram carro por todos os lados e não nos deixaram passar, nos cercaram”, conta a indigenista, que é fundadora da Associação Etnoambiental Kanindé, uma das mais renomadas organizações indigenistas do país.

Segundo Neidinha, a partir de então, seu grupo passou a sofrer intimidação.

“Eles disseram que a gente tinha invadido propriedade particular. Eu disse que ali é terra indígena. Tinham uns que estavam calmos, mas outros bem agressivos. Mas quase todos com celular gravando na nossa cara, em cima da gente. Diziam que ali nunca tinham visto índio”.

Ela afirmou que sua maior preocupação era com um dos indígenas Uru-Eu-Wau-Wau, que estava passando mal antes da abordagem dos homens e que precisava ser retirado para ser levado ao hospital. Neidinha também ficou inconsolável quando o indígena mais velho explicou ao grupo de homens que naquela área está localizado o cemitério onde estão os restos mortais de seus ancestrais.

“Um dos invasores respondeu ao Uru-Eu para ele ‘tirar e levar os ossos dali’. Foi muito revoltante”.

A situação ficou menos tensa quando um carro da Funai ia passando pela estrada e levou o indígena doente, com outros dois Uru-Eu-Wau-Wau.

Segundo Neidinha, a abordagem foi planejada porque, além de cercarem e prenderem o grupo por tanto tempo, os homens queriam forçá-los a aguardar a chegada de um jornalista apoiador deles.

“Eles queriam que a gente ficasse lá. Queriam nos filmar e nos expor. Eu fui perdendo a paciência e disse que o que eles estavam fazendo era cárcere privado e que íamos denunciar na Polícia Federal. Eu fui lá no meio deles e era uma falação preconceituosa, grosseira. Eles nos arrodeando e um deles me disse que aquilo era o meu presente do dia das mães”.

Para a indigenista, contudo, os homens deram provas contra eles próprios, porque demonstraram serem invasores e que impedem os indígenas de usarem seu território.

Embora tenha conseguido se retirar depois de responder ameaçando denunciar, o mesmo não aconteceu com a equipe de documentaristas e o próprio Mundano, que continuou sob o poder dos homens na estrada.

“Eles tiveram que continuar lá até chegar o tal jornalista. Foram coagidos a falar e a dar entrevista. Foram forçados pelo jornalista apoiador daqueles homens. Eu vi hoje (15/5) a entrevista e pelo que senti, eles estavam acuados”, relatou.

Neidinha contou que não é a primeira vez que passa por situação como esta de ameaça e intimidação, mas em outros “perrengues” as circunstâncias eram mais previsíveis.

“O que aconteceu ontem foi totalmente surpresa. Nunca passou pela nossa cabeça que iríamos ser emboscados dessa forma pelos invasores do Burareiro”, contou. Ela disse que não conhece nenhum dos homens do grupo, mas que foi reconhecida por um deles.

A indigenista espera que a providência mais urgente seja o retorno de policiamento para a estrada e para o posto da Funai. “Isso é resultado de terem tirado a PM e a PF de lá. Por que o pessoal do Batalhão Ambiental saiu também? Ali ninguém está seguro. O que esses homens fizeram ontem foi muito grave”.

Neidinha e o povo Uru-Eu-Wau-Wau têm sua luta narrada no documentário O Território, que teve pré-indicação ao Oscar de 2023 e recebeu vários reconhecimentos em premiações internacionais.

Invasores filmaram grupo de Neidinha

Em filmagens feitas pelo celular de Neidinha, os homens não se sentem constrangidos em aparecer. Eles também falam e dão a sua versão sobre a abordagem.

“Essa terra já tem muito tempo, onde moro. A gente sofreu humilhação. O índio cuspiu na cara dele. Junto com Funai. Os únicos índios que a gente vê aqui, que eu conheço, passa na caminhonete. Ninguém nem sabe onde fica a aldeia dele”, diz um deles. “Vamos aqui bater o pé que não é área indígena”, diz outro.

Eles também destacam que Neidinha é servidora pública e cobram dela documento que prove que é terra indígena. É quando Txai Suruí, com calma, sugere que se faça uma reunião posteriormente.

“Aqui é demarcado pelo Incra”, diz outro. “Temos título dessa área. Invasores são vocês. A gente nunca vai lá dentro, na base do Funai”, relata.

Txai Suruí é cercada pelos invasores e procura negociar, propondo reunião na presença da Funai / As fotos são de baixíssima qualidade porque reproduzidas de vídeo realizado com celular

Em casa, em Porto Velho, ela continuava preocupada com a equipe que acompanhava Mundano, de quem perdeu contato. “Só recebemos uma ligação de um deles hoje, dizendo que estavam em uma das aldeias Uru-Eu. Mas antes de ir , eles foram forçados a dar entrevista. Por isso eles falam daquele jeito”, contou.

Ao repórter do site Sintonia de Rondônia, Mundano, cercado pelos homens e visivelmente intimidado, falou sobre seu trabalho e disse que sua perspectiva era fazer uma reflexão sobre a necessidade de proteger a natureza ((assista o vídeo no final deste post).

matéria com versão dos homens que cercaram o grupo de Neidinha diz que “os órgãos de proteção a essa áreas ganhou mais apoio, isso preocupa os assentados pois não consegue apoio e entende que ONGs usam dinheiro do fundo amazônico para destorcer [sic]a realidade e pede ajuda dos deputados federais de Rondônia.”

Terra originária

O local onde aconteceu a agressão é uma área originária do território Uru-Eu-Wau-Wau que ficou sobreposta a uma área de assentamento do Incra desde a década de 70. A sobreposição impactou a sobrevivência dos indígenas e o Incra continuou emitindo títulos a assentados dentro do território indígena, incentivando invasões nas décadas seguintes.

Placa da Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau com marcas de tiros / Foto: Associação Kanindé

Na década de 1980, as disputas pelo território ficaram mais intensas após o processo de colonização e expansão de fronteiras agrícolas e pastoris no interior do estado de Rondônia

Apesar do reconhecimento dos direitos e da homologação da Terra Indígena, os conflitos territoriais não acabaram e os invasores utilizam diferentes formas para invadir cada vez mais, com a esperança de ampliar o espaço já ocupado através de desmatamento, caça, garimpo ilegal, incêndios criminosos, roubo de castanhas e derrubada de castanhais, entre outras atividades ilícitas.

No final de abril, lideranças do povo Uru-Eu-Wau-Wau, acompanhados de Neidinha e do advogado Ramires Andrade reuniram-se na sede da Funai, em Brasília, para buscar solução para o caso.

Na ocasião, a diretora do Departamento de Proteção Territorial da Funai, Janete Carvalho, declarou que o órgão reconhecia que o PAD Burareiro é território indígena e se comprometeu, junto ao Incra e ao Ministério dos Povos Indígenas, a discutir a retirada dos invasores e a anulação de titularidades de alguns deles.

“A gente tem uma ordem da Justiça mandando a Funai tirar as pessoas que estão dentro da TI Uru- Eu-Wau-Wau e fazer também um plano de proteção”, afirmou a diretora.

A seguir, assista ao vídeo gravado por Neidinha durante a discussão com os invasores e também a entrevista feita com Mundano (visivelmente intimidado) por um repórter de um site de Rondônia, que apoia os assentados:

____________

* Este texto foi publicado originalmente pela agência Amazônia Real em 15/5/2023

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Foto: reprodução de vídeo/Neidinha Suruí (na foto, Mundano (camiseta branca) e equipe de documentaristas foram constrangidos a falar para a TV local)

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