A ‘Floresta Viva’ de Luciano Candisani, em exposição

floresta-viva-candisani-onca-parda-800x532Quem é fã do fotógrafo Luciano Candisani não pode perder a exposição Floresta Viva – Um Legado para a Humanidade! E quem ainda não é, também. Até 13/9, na Praça Victor Civita, no bairro de Pinheiros, em São Paulo.

Há mais de 18 anos, Candisani – que também é biólogo – se dedica à documentação da natureza e é reconhecido não só pelo trabalho impecável e surpreendente que realiza, mas pelas descobertas que tem feito, além da parceria com pesquisadores renomados pelo Brasil e pelo mundo. Além das boas histórias que conta.

Nesta exposição, ele apresenta 30 fotos – todas comentadas – que revelam o resultado do trabalho de pesquisa e registro que vem realizando desde 2012 no Legado das Águas – Reserva Votorantim*, uma área de 31 mil hectares de Mata Atlântica a 120 quilômetros da capital paulista, protegida há mais de 50 anos.

Pela primeira vez organizadas em formato de ensaio fotográfico, as imagens retratam a exuberância da mata preservada e a presença da fauna em seu habitat natural, incluindo espécies raras ou ameaçadas de extinção. É o caso da anta albina, pela primeira vez registrada na natureza, e também do cachorro-do-mato – ou cachorro vinagre. “Minha motivação criativa é registrar imagens que possam evocar a ligação inexorável entre as espécies e o ambiente nos espaços naturais ainda originais, como o Legado”, contou ele na abertura da exposição.

A espontaneidade dos animais é uma marca importante desse trabalho e só foi possível pela dedicação e paciência de Candisani em suas incursões pela mata, mas também porque ele montou verdadeiros estúdios fotográficos no meio da mata, com equipamentos de última geração como câmeras e flashs potentes e sensores. Depois de manter esses apetrechos camuflados na natureza por meses, foi que ele conseguiu alguns dos belos registros que agora expõe. Entre eles, está a onça-parda (foto no destaque), fotografada depois de nove meses de identificação de suas pegadas e o acompanhamento de pesquisadores e do próprio Candisani. Valeu a espera, não?

O fotógrafo faz questão de destacar que uma floresta só pode estar viva – daí o nome da exposição – pela presença dos animais, que, neste caso, só voltaram à região porque as árvores e a vida que os cercam (micro-organismos, inclusive) voltou assim que o desmatamento e a degradação cessaram.

A exposição revela uma pequena parte do trabalho registrado por Candisani. Só nos estúdios que montou no meio da reserva, foram feitas mais de 400 fotos de 18 espécies da fauna. As imagens realizadas pelo método tradicional – em cerca de 40 expedições com a câmera em punho e atenção total – apresentam mais de 65 espécies de animais.

Abaixo, algumas fotos da exposição Floresta Viva comentadas pelo autor:

Onça-Parda (Puma Concolor), Trilha do Cambuci, 2015
(É a foto de destaque neste post)
Uma cena inesquecível marcou minha primeira viagem ao Legado das Águas – a onça-parda surgiu da mata e, com dois pulos ágeis, atravessou a estrada de chão diante dos meus olhos atônitos, de dentro da picape. Desde então, passei a perseguir uma forma de reproduzir aquela emoção em uma imagem. Só aconteceu em maio de 2015, em um dos estúdios fotográficos automáticos que montei na mata. Essa onça disparou sua própria fotografia ao cruzar os sensores ligados à câmera. Ela ia passando, de costas para a lente, mas se virou curiosa com o barulho da câmera. Sinto nessa imagem a emoção de entrar em uma floresta viva.

Lagarto Teiú (Tupinambis Teguixim), Trilha Sobe e Desce, 2012
floresta-viva-candisani-lagarto-teiuFixei o olhar até ter certeza de que era aquilo mesmo – um lagarto teiú, no fundo da água clara do riacho. Embaixo d’água, mergulhado! Jamais vira coisa semelhante ao longo de anos de andanças pela Mata Atlântica. Por um momento, cheguei a pensar que pudesse estar afogado. Ao entrarmos no rio, ele deu mostras inequívocas não só de estar vivo mas também determinado a permanecer onde estava, com dois palmos de água sobre o corpo. Foi quando fiz essa imagem inusitada.

Filomedusa (Phyllomedusa Distincta), antiga Pedreira da Barra, 2012
floresta-viva-candisani-filomedusaUma antiga pedreira usada na construção da hidrelétrica da Barra, uma das sete situadas no Legado das Águas, transformou-se, com o tempo, em um refúgio para anfíbios. A sinfonia de vocalizações em noites úmidas de verão é impressionante. A diversidade de espécies, idem. Esta filomedusa foi flagrada nesse ambiente.

Nuvem de Efêmeras, margem da Represa do Porto Raso, 2014
floresta-viva-candisani-mariposasNuvem de mariposas efêmeras aparecem sem aviso, em qualquer lugar. Seu ciclo de vida não passa de algumas horas, daí o nome. No Legado das Águas, avistei-as inúmeras vezes em diferentes pontos da mata e até no meio da estrada. Nenhum encontro se compara ao dessa manhã na represa do Porto Raso – as mariposas, a luz da manhã revelada pela condensação da evaporação, as grandes árvores ao redor. Todos os elementos trabalhando em favor da ideia de floresta viva.

Céu estrelado na Trilha da Pedra, 2013
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*O Legado das Águas é uma das maiores reservas privadas de Mata Atlântica do país, localizada na região do Vale do Ribeira, no sul do Estado de São Paulo, que vem sendo preservada há mais de 50 anos com o objetivo de proteger as nascentes dos rios da bacia do Rio Juquiá, onde a Votorantim mantém sete usinas hidrelétricas. Desde 2012, a reserva foi transformada em um polo de pesquisas científicas, parcerias acadêmicas e desenvolvimento de projetos de valorização da biodiversidade.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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