A cidade perdida de Akakor e os astronautas do Rio Negro

Quando o jornalista alemão Karl Brugger foi morto em um assalto nas proximidades do Barril 1800, em Ipanema, a bala que atingiu seu coração também deixou um rastro de mistério. Não à toa.

Pouco antes de sua morte, em 2 de janeiro de 1984, ele havia decidido se aposentar precocemente para colocar em prática um projeto antigo: encontrar a cidade perdida de Akakor na Amazônia.

Até hoje, o misterioso lugar atrai curiosos e turistas guiados por Tatunca Nara, um alemão que se diz filho de uma freira e herdeiro da cidade e de seus habitantes igualmente fantásticos, os Ugha Mongulala. Eles teriam sido escolhidos pelos deuses e se estabelecido na região há quinze mil anos. Mas não há notícia de que alguém tenha visto a cidade.

Curioso, Brugger tinha muito pouco jeito de alemão. Era um jornalista ‘furão’, conta o cineasta Jorge Bodanzky, que queria saber de tudo primeiro, com exclusividade. Andava na Amazônia como se fosse um nativo: comia farinha e dormia em rede.

Cineasta e repórter conheceram-se na Alemanha, em 1971, durante uma época de trabalho na rádio da Baviera. Brugger queria vir para a América do Sul, mas ser correspondente demandava matérias com imagem. Foi aí que Bodanzky entrou em cena.

A parceria durou muitos anos e muitos trabalhos, especialmente numa porção do continente sacudida por tensões políticas e golpes.

Como em outros momento, o misticismo e os limites do fantástico atravessaram o caminho de Bodanzky e seus colegas na Amazônia. Desta vez, conduzidos por um outro alemão, Hans Richard Günther Hauck, que se apresentava como Tatunca Nara.

A caminho de Akakor

Para contar a história do não-personagem — nas palavras do cineasta — e encontrar alguma coesão, o ano de partida é 1972. Karl Brugger encontrou Tatunca no Bar Graças a Deus, em Manaus, por meio de um militar que tinha alguma função de comando na região da Amazônia.

O relato, junto com a história que fisgou o jornalista até o fim de sua vida, está em A Crônica de Akakor, livro que Brugger escreveu a partir da convincente oratória de Tatunca.

Filhos de deuses, os Mongulala reinaram por milênios em plena floresta, e o alemão que dizia ter nascido entre índios era seu herdeiro. Extraterrestres, discos voadores, pirâmides, Machu Picchu e todo tipo de coisa passaram a fazer parte da mitologia, a cada conversa.

“A Crônica de Akakor é testemunha perante a História do mais antigo povo do mundo, desde o início, a hora zero, quando os Primitivos Mestres nos deixaram, até o momento atual, quando os Bárbaros Brancos estão a tentar destruir o nosso povo.”, diz um trecho do livro. Vale destacar que, apesar de ser mencionada, a crônica nunca apareceu.

Após registrar muitos relatos, Brugger pediu a Tatunca para conhecer a cidade. Antes parte de um império, Akakor estaria, após sucessivas crises, protegida no subterrâneo da floresta. Um sistema complexo de túneis garantia parte de sua proteção, e apenas Tatunca sabia o caminho.

Como precisava de imagens para o registro, Karl Brugger pediu a Bodanzky que o acompanhasse. O diretor foi cético desde o princípio: estava claro que havia um esperto vendendo histórias sobre uma cidade fantasiosa, mas a riqueza de detalhes intrigava e valia a viagem.

Tatunca caracterizado como um Unha Mongulala, tribo que diz chefiar e que é descendente
de deuses astronautas. Foto: arquivo/Amazônia Latitude

Durante os preparativos para a viagem até Akakor, os repórteres deixaram Tatunca tomando conta do barco enquanto iam a um bar. Na época, o som era registrado com um aparelho chamado Nagra, que permite sincronizar imagem e som na edição.

De volta ao barco, ouviram de Tatunca que alguém havia entrado no barco e roubado o microfone, um aparelho caro e aparentemente sem interesse para o meio da Amazônia.

Época de seca, o Rio Negro estava baixo e a embarcação ameaçava encalhar. Em dado momento, o condutor disse que era impossível continuar. Ágil, Tatunca se ofereceu para, com a câmera fotográfica de Brugger, registrar a chegada e a cidade.

E nada. Meses depois, Tatunca chegou de caminhão ao apartamento de Brugger em Ipanema, no Rio, para devolver a câmera. E o filme?

“Ele mostrou um filme totalmente velado, disse que ‘existem elementos extremamente poderosos e magnéticos que queimaram, velaram o filme. Mas disse que ia preparar uma recepção melhor para quando voltássemos. E pediu dinheiro para o combustível até Manaus”, conta Bodanzky.

Publicado em 1976, A Crônica de Akakor, de Karl Brugger, recebeu um prefácio especial. Na década de 1970, extraterrestres estavam em alta, e o autor de Eram os deuses astronautas?, Erich Von Daniken, escreveu a seção, comovido e impressionado com as coincidências entre sua obra e símbolos de Akakor.

O motivo: na viagem de 1972 que encalhou, Tatunca lia Eram os Deuses…, publicado em 1968, que fazia grande sucesso. Enquanto lia, copiava símbolos do livro de Daniken. Entregou-os a Brugger e disse serem símbolos da escrita dos seus parentes amazônicos.

“Quer dizer: ele [Daniken] foi clonado por ele mesmo, achando que o Tatunca tinha realmente uma escrita misteriosa. só que a escrita misteriosa foi copiada próprio livro dele”, lembra o cineasta.

À época, Bodanzky registrava seu trabalho com uma câmera Super-8, já que o material bruto ia para edição na Alemanha. Abaixo está o registro da viagem para Akakor que encalhou, com Tatunca, de cabelos pretos para trás, e Brugger, de cavanhaque. A trilha sonora é de David Maranha, que a compôs para uma exposição do cineasta em Lisboa.

Um fato curioso é que Brugger narrou essa história em um programa de rádio de Munique. Porém, a viagem inacabada ganhou outras cores na narração de Brugger. Tempestades, barco virado e perda de equipamento encheram a história de heroísmo. Além disso, Akakor havia sido encontrada. Felizmente, lembra o diretor, o colega emocionado omitiu seu nome, como o fez também na Crônica, de 1976.

‘Sempre tem algo esquisito’

Apesar de curiosas, as histórias de Tatunca e Akakor são rodeadas de mau agouro.

Em 1990, o Fantástico, programa da Rede Globo, fez uma matéria que cruzava informações e entrevistas na Alemanha com os mitos e causos que Tatunca vendia — e ainda vende.

Procurado pela polícia alemã, negou sistematicamente à reportagem ter cometido os crimes dos quais era acusado. Entre eles, o desaparecimento de três estrangeiros que seguiram em expedições junto com ele para ver a cidade perdida.

“Ele é um fantástico contador de histórias, o Tatunca. Merece ser aplaudido por isso, por inventar tudo isso e juntar isso e conseguir vender a jornalistas sérios”, ressalta Bodanzky.

Invariavelmente, porém, as histórias acabam de um jeito esquisito. Foram muitos desaparecimentos, mortes e brigas de pessoas que compraram a ideia de Akakor.

Obcecado por descobrir a cidade e dar o furo de sua vida, Karl Brugger não se contentava em manter a relação de dinheiro por histórias de Tatunca. Em 1983, pediu uma aposentadoria precoce da rádio alemã, algo esquisito para um posto cobiçado de correspondente na América do Sul, e fez da descoberta o objetivo de sua vida.

Bodanzky estava em Angra dos Reis, numa região de praias do estado do Rio de Janeiro, quando soube que o colega daria uma recepção em Ipanema para apresentar seu substituto na rádio.

“Naquela época, os jornais demoravam um pouco a chegar. Parei num posto para tomar um café e por acaso passei na banca de jornal. Vi a manchete ‘assassinado correspondente da televisão alemã em Ipanema”. Não acreditei. Olhei e era o Brugger morto. Em vez de ir ao coquetel, fui ao enterro dele”.

Imediatamente, as notícias giravam em torno de uma conspiração que teria causado a morte de Brugger, talvez por sua ligação com Tatunca e Akakor, talvez pela tatuagem de tartaruga que o jornalista fizera, igual à de Tatunca — uma marca dos escolhidos.

Bodanzky nunca acreditou nisso. O Rio de Janeiro sempre foi uma cidade violenta, e o assaltante que disparou contra Brugger, um garoto, pode tê-lo feito por acidente. O detalhe é que o jornalista passava ao seu substituto uma dica importante: nunca reagir a um assalto.

Trambiques à parte, Tatunca Nara é uma figura que navega exatamente no limiar entre ficção e realidade. “É uma história macabra, inconclusa, todo mundo que entrou nessa não conseguiu, foram dezenas de pessoas dizendo ‘agora vou, vou achar’ e ninguém resolveu nada”, diz o diretor.

David Pennington, técnico de som que trabalha com Bodanzky, também viu a figura de perto. Em certa ocasião, perto das festas de natal, estava em Manaus e, sabendo da história de Tatunca, passou em sua casa, em Barcelos, também no Amazonas. Pennington passou o Natal na casa de Tatunca Nara.

No meio da noite, talvez para contribuir para a aura de mistério que envolve o chefe alemão dos índios Ugha Mongulala, um avião pousou perto da casa. Pennington conta que, com uma lanterna, Tatunca disse “ninguém sai”, conversou com alguém, pegou uns pacotes e o avião decolou.

“Imagine o Tatunca em Barcelos, com uma árvore de natal bem alemã, velinhas, enfeites e algodão imitando a neve, cantando noite feliz em alemão”, conta Bodanzky.

Nem deuses, nem astronautas

Pessoalmente, conta o cineasta, Tatunca é simpático e charmoso. Convence as pessoas a irem para Akakor em cinco minutos. A figura parece não caber na caixa nem de trambiqueiro e nem mesmo de personagem. “Ninguém cerca esse homem. Nenhum trabalho, nunca li nada sobre ele que dissesse ‘é isso’”.

Há rumores, até mesmo, de que Tatunca era informante da polícia em Manaus, o que lhe garantia andar armado e circular tranquilamente em plena ditadura militar.

“Minha relação com essa história não é a história, ela não me comove. O que me interessou aí é justamente essa não definição, eu ficava muito intrigado”, lembra o diretor, quando menciona a relação de Brugger, que sabia estar sendo explorado, mas continuava a buscar mais informações.

Entre as muitas coisas que Tatunca é e não é, e vivendo de maneira modesta, como contam vídeos, muitas reportagens e até um filme de Indiana Jones, ele representa um desejo. Talvez o mesmo desejo que levou Heidi Mosbacher, outra alemã, a se tornar mãe de preguiças na floresta, mesmo que represente um lado mais sombrio dessa vontade.

É na Amazônia, uma das últimas fronteiras no território e na imaginação das pessoas, que lugares como Akakor, El Dorado e tantos outros podem existir. Não adianta, mesmo em 2020, olhar pelo racional, pela tecnologia dos satélites e tentar encontrar a resposta.

“Não se pode dizer ‘é um espertalhão que vende a história por dinheiro’, há mais coisas envolvidas aí”, encerra Bodanzky.

Consta que, no momento, há uma empresa de mídia inglesa em busca da cidade perdida. Pagando em dinheiro pelo caminho e pela exclusividade, é claro.

Foto (destaque): arquivo pessoal – Jorge Bodanzky e Tatunca no rio Negro, 1972

*Este texto foi originalmente publicado no site Amazônia Latitude e faz parte do projeto ‘Roteiros da Amazônia’, fruto da parceria entre o cineasta Jorge Bodanzky e a revista Amazônia Latitude. Confira todas as edições aqui.

Amazônia Latitude

Projeto independente, sem fins lucrativos, visa ampliar o debate crítico a respeito da região amazônica e expor sua diversidade cultural, sua riqueza natural e seus dilemas. Seu site é gerido por uma rede de colaboradores e editores remotos de diversos pontos do país e do globo

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