A castanha-brasileira

coleta da castanha

O improviso associado à paciência e ao planejamento é provavelmente a maior virtude de quem se aventura a fotografar fora do conforto do estúdio. Faço isso já faz algum tempo. E em certas ocasiões, um pouco de aventura e emoção também se juntam à essa experiência.

Desde o início da minha carreira, quando saio para fotografar para revistas, livros, projetos pessoais ou para atender especificamente um cliente, já tenho em mente algumas imagens que quero fazer e às vezes, até desenhos esquemáticos do que imagino para o trabalho. Porém, é comum as condições serem bem diferentes do que eu havia imaginado, aí entra o improviso com força total.

Procuro contar histórias com as minhas fotografias. Elas devem ser ricas na informação e simples na composição, de forma a comunicar a essência do que quero mostrar.

Nesta série, que compartilho logo mais abaixo, o trabalho foi sobre coleta da castanha-do-brasil. Conhecida também como castanha-do-pará ou ainda, castanha-brasileira (Bertholettia excelsa). Esta árvore frondosa, exclusiva da Amazônia, pode chegar a 50m de altura e infelizmente, está na lista de espécies ameaçadas, devido ao desmatamento da floresta para conversão em pasto e agricultura intensiva.

Quando estamos degustando esta deliciosa fonte de saúde, provavelmente não nos damos conta de que, a castanheira que deu origem à castanha, pode ser mais antiga que o descobrimento oficial do Brasil.

As castanhas crescem num invólucro natural, conhecido como ouriço, que possui uma casca muito forte. No interior do ouriço, estão as castanhas, cada uma protegida por uma casca grossa e resistente.

Para a coleta das castanhas é preciso se embrenhar na floresta e percorrer longas distâncias para conseguir um rendimento que compense. Esta coleta é feita por moradores de comunidades e ribeirinhos, que trabalham em reservas extrativistas, percorrendo as áreas onde há maior concentração de castanheiras.

A coleta dos ouriços caídos no chão da floresta é feita com uma ferramenta simples, porém muito engenhosa e eficiente, o cambito. Ele é de madeira e “abraça” o ouriço, que é jogado no paneiro, cesto carregado nas costas dos castanheiros.

Depois de coletados, os ouriços são finalmente abertos para a retirada das sementes. As castanhas, por sua vez, são vendidas para serem beneficiadas, podendo virar óleo de castanha, farinha ou a castanha in natura, como normalmente a conhecemos.

Os castanhais são longínquos e requerem uma estrutura e muitos dias na floresta. Para fotografar, há que se enfrentar chuva, vento, insetos, dormir em redes em abrigos improvisados. Nas condições extremas da Amazônia, um bom planejamento é muito importante para proteção do equipamento, como baterias, cartões de memória, entre inúmeras outras coisas.

O desafio deste meu trabalho foi fazer o processo da coleta das castanhas que mostrasse movimento, dinamismo e não somente, retratos parados. Por isso mesmo, a fotografia que considero a que mais representa o trabalho da coleta é em que o castanheiro está em movimento, carregando um paneiro cheio de castanhas, com a castanheira ao fundo, a imagem que abre este post e está novamente abaixo.

Logo após eu fazer estas fotografias caiu uma chuva muito forte e tive que interromper o trabalho e voltar ao acampamento, que ficava a uma hora e meia de caminhada na floresta.

Foram seis dias de viagem entre o rio Iratapuru, no Amapá, comunidade, igarapé Amazonas e vários acampamentos, para no final, ter apenas 40 minutos para fazer as fotografias que desejava. Todavia, vendo o resultado final valeu a pena. Consegui as fotos que eu havia imaginado em situações bastante imprevisíveis.

coleta da castanha-do-brasil

 

*Para fazer a foto, utilizei uma lente grande angular para dar o efeito convexo no movimento da floresta ao fundo. Para “borrar” o fundo, escolhi um longo tempo de exposição, mas não queria que o castanheiro virasse um borrão na minha foto. Para solucionar o problema, usei um flash regulado para ficar mais fraco relativamente que a luz do dia. Assim, consegui um efeito de “congelamento” do Manoel, porém, sem sobrepor a luz do flash à luz do dia.

Câmera Nikon D800, lente 10-24mm DX com 1/10s de exposição e flash SB800 com -1EV de exposição

Para se aprofundar mais na fotografia, assista meu curso on-line neste link. E para obter mais informações sobre as castanhas-do-brasil acesse esta reportagem do WWF-Brasil.

Zig Koch

Fotógrafo profissional com ênfase em imagens de natureza, turismo e viagens. Autor de 14 livros e 25 exposições individuais, sendo quatro internacionais. Percorreu todos os biomas brasileiros, viajou para vários países de outros continentes, fotografando para revistas, ONGs e empresas.

2 comentários em “A castanha-brasileira

  • 28 de abril de 2017 em 9:35 AM
    Permalink

    Ave, Zig Koch!
    Que felicidade ver sua matéria com fotos bem explicadinhas e tudo mais! Bateu aquela saudade dos amigos que fizemos durante a expedição à Amazônia, quando catamos e vimos as Castanheiras em nossa frente, sensação de formiga frente a uma fonte magnífica de alimento…
    Tenho uma observação a fazer: será que chamam de ouriço a castanha brasileira por conta da portuguesa, essa sim, bem espinhuda? Não lembro de ver espinhos em nenhuma fase de nossa castanha! Você viu?
    Abração, querido amigo e inté!

    Resposta
    • 28 de abril de 2017 em 4:03 PM
      Permalink

      Oi Renato

      Esta vida digital acaba tendo vantagens. Falamos com com pessoas que não vemos faz tempo!!

      Não sei da onde vem a origem mas na nossa castanha o ouriço não tem espinhos.

      Forte abraço!!

      Resposta

Deixe uma resposta