A antropóloga Beatriz de Almeida Matos – viúva do indigenista Bruno Pereira, assassinado brutalmente com o jornalista Dom Phillips, no Vale do Javari, no Amazonas, em junho de 2022 – foi nomeada, em 14/2, para o cargo de diretora do Departamento de Proteção Territorial e de Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato, que integra o Ministério dos Povos Indígenas.
A nomeação, feita por Rui Costa, ministro da Casa Civil, foi publicada no mesmo dia no Diário Oficial da União (DOU).
Beatriz é professora de Antropologia e Etnologia Indígena do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas na Universidade Federal do Pará (UFP) e atuava no OPI – Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato, instituição fundada por Bruno da qual foi presidente. Militante da causa indígena, trabalhou por anos na região do Vale do Javari, onde ela e Bruno se conheceram.

Repercussão
A repercussão da notícia não poderia ser mais positiva. Quem conhece Beatriz, sabe da importância de tê-la ao lado na luta pelos povos indígenas, em especial os isolados e de recente contato. Destaco, aqui, alguns dos comentários que encontrei no Twitter.
Ontem, 15/2, o OPI divulgou a notícia, confiante de que ela fará boa gestão: “Nossa ex-presidente Beatriz Matos foi nomeada Diretora de Proteção Territorial e de Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato do Ministério dos Povos Indígenas, desafio para o qual tem toda a expertise acumulada trabalhando com o Opi e com seu marido, Bruno Pereira”.
E acrescentou: “Temos certeza que @irekaron [seu perfil na rede social] fará um belo trabalho na promoção dos direitos dos povos indígenas e desejamos toda força!”.
Em resposta, a antropóloga compartilhou a homenagem (veja no final deste post) e declarou: “É uma honra fazer parte desse Ministério. Aceitei o desafio com esperança, alegria e saudade. Vou com ele e vários parceiros para fazermos o que sonhamos juntos”.
A Comissão Arns – formada por ex-ministros, juristas, cientistas políticos, jornalistas, entre outros ativistas com projeção nacional e internacional em defesa dos direitos humanos – parabenizou a antropóloga: “Parabéns, Beatriz! Temos certeza de que fará um excelente trabalho. Conte com a Comissão Arns no que for preciso”.
O biólogo, jornalista e ativista André Aroeira (que já integrou nossa equipe de colaboradores), foi o segundo a comentar o tweet de Beatriz: “Esse deve ser o trabalho mais importante do mundo. Muito boa sorte!”.
A antropóloga e pesquisadora da temática de mineração, Maria Júlia Zanon, escreveu, carinhosa: “Que importante isso, Bia! Toda sorte do mundo pra vc nessa empreitada, vc tem retaguarda de muita gente que te acompanha, te guarda e está torcendo para os seus caminhos seguirem bem. Um beijo grande!”.
O perfil do Fundo Amazônia, reativado esta semana, também se manifestou: “Parabéns pela sua nomeação @irekaron, você é essencial para a nossa luta”.
Megaoperação no Vale do Javari
Já faz oito meses que Bruno e Dom foram brutalmente assassinados no Vale do Javari, no Amazonas, e as investigações têm caminhado lentamente, com alguns revezes.
Agora, aguarda-se o julgamento dos três acusados – Amarildo da Costa Oliveira (o “Pelado”), que confessou o crime, seu irmão, Oseney da Costa Oliveira (o “Dos Santos”), e Jefferson da Silva Lima (o “Pelado da Dinha”) -, que devem ir à júri popular. Ele estava marcado para janeiro, mas foi adiado para março.
Quando eles foram presos, a Polícia Federal descartava a existência de um mandante, até que o traficante Ruben da Silva Villar, conhecido como ‘Colômbia’, foi apresentado como tal e preso, em julho de 2022. Em outubro, ele foi solto sob fiança (R$ 15 mil), mas descumpriu as determinações da liberdade provisória e voltou para a prisão.
A ação de Bruno e da Equipe de Vigilância da Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), ao pressionar os criminosos que atuavam na região, como também as investigações de Dom Phillips para seu livro e a ameaça de denúncia em Atalaia do Norte, contrariou os interesses do traficante, que tem dupla nacionalidade brasileira e peruana.
Segundo os indígenas, a venda dos pirarucus e tracajás pescados por eles na região, ilegalmente, é usada para lavar dinheiro do narcotráfico no Peru e na Colômbia, que fazem fronteira com o Vale do Javari.
Agora, com o governo Lula, a região será palco de uma megaoperação das forças de segurança para a retirada de caçadores, pescadores e garimpeiros ilegais da região.
A coordenação está sendo feita em conjunto pelos ministérios da Defesa, da Justiça, dos Povos Indígenas e dos Direitos Humanos, e conta com agentes da Polícia Federal, do Ibama, da Funai e da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena).
Militares da Marinha já estão no local, mas os agentes devem desembarcar em Atalaia do Norte (AM) em 27 de fevereiro. E, no primeiro dia da missão, os ministros Flávio Dino (Justiça), Sonia Guajajara (Povos Indígenas) e Silvio Almeida (Direitos Humanos), como também Joenia Wapichana (Funai) e de Ricardo Weibe Tapeba (Sesai), estarão presentes.
A seguir, posts de Beatriz Matos e do OPI sobre sua nomeação:
É uma honra fazer parte desse Ministério. Aceitei o desafio com esperança, alegria e saudade. Vou com ele e vários parceiros para fazermos o que sonhamos juntos. https://t.co/hul1XPHhfr
— Beatriz Matos (@irekaron) February 16, 2023
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Fontes: perfis no Twitter, Brasil de Fato, G1
Foto (destaque): reprodução






