A Amazônia é o pulmão do mundo?

desmatamento na Amazônia cresce 20% entre agosto de 2018 e abril de 2019

Atualizado em 13/11/2020

Quando fez essa pergunta em um post em seu perfil no Facebook, em meados de agosto (2019), o cientista Antonio Nobre, respondeu: Sim e Não! Queria esclarecer e talvez ajudar a acalmar a polêmica em torno da expressão que muita gente usa, há muito tempo, para revelar sua preocupação com a Amazônia ou pra dizer o quanto ela é importante para a humanidade. Polêmica reforçada com as declarações do Papa Francisco e do presidente da França, Emmanuel Macron, num clima de total consternação devido às queimadas no bioma.

O músico britânico Sting – em post publicado em seu perfil no Facebook, em 27/8/2019, no qual acusou Bolsonaro de “negligência criminosa em escala global” – disse o mesmo sobre a Amazônia, reiterando que o termo “pode não ser anatomicamente correto, mas o significado convém, já que é algo vital e insubstituível na cadeia do bem-estar de nosso planeta e o estreitamento crescente dos vetores climáticos com os quais a vida humana pode sobreviver”.

A Amazônia é especialidade de Nobre, portanto, ninguém mais interessante para esclarecer o assunto. Ele é autor do relatório O Futuro Climático da Amazônia sobre a importância da floresta e seu papel no contexto das mudanças climáticas, lançado em 2014.

Todos os dias, o cientista acompanha e comenta, no Facebook, as notícias mais relevantes sobre desenvolvimento sustentável, ciência, árvores, reflorestamento… Fica empolgado a cada notícia sobre mutirões de plantio pelo mundo. Agora, especialmente, ele acompanha notícias e comentários sobre a floresta amazônica, que ainda está em chamas.

Mas o fato é que a Amazônia não é o pulmão do mundo. Essa afirmação certamente é fruto de licença poética, uma maneira de dizer que a Amazônia é extremamente vital para a humanidade, como comentou Sting. E é.

Os verdadeiros pulmões do mundo são os oceanos devido às algas marinhas. Elas produzem mais oxigênio pela fotossíntese do que precisam e o excesso é liberado para o ambiente. Já a floresta amazônica libera muito menos oxigênio para a atmosfera porque, a maior parte do gás que produz, é consumido por ela.

Esta é uma explicação bem resumida do que vai pelos livros de Ciência e pela internet. Mas o que quero mostrar, aqui, é o texto que Nobre publicou no Facebook pra responder à questão que lançou, e que intitula este post. Dizer “Sim e Não!” só aguçou a curiosidade de quem esperava uma resposta mais objetiva.

Assim, entre explicações científicas e reflexões generosas, ele conta o que acontece com o CO2 e com O2 na floresta, quase como numa aula de biologia daquele professor que a gente mais gosta.

No final do texto de Nobre, incluí um vídeo – que faz parte do especial Dança da Chuva, produzido pela Agência Fapesp, e tem pouco mais de seis minutos – no qual ele fala dos Rios Voadores, que abastecem o sudeste do país com chuvas e umidade. Um ótimo complemento para a leitura.

Agora, respire fundo!

A Amazônia é o pulmão do mundo?
por Antonio Nobre

Pulmão é o órgão do corpo animal que faz troca de gases. As folhas das plantas (todas plantas: no mar ou em terra) fazem troca de gases. E, não por coincidência, elas trocam os mesmos gases trocados pelos animais (CO2 e O2). O processo que nas plantas consome CO2 e produz O2 chama-se fotossíntese. O processo que nos animais (e plantas também) consome O2 e produz CO2, chama-se respiração

A floresta amazônica saudável – e, nos tempos atuais, de aumento da concentração de CO2 na atmosfera – sequestra CO2 (netamente). Mas, quando assim o faz, produz e libera a mesma quantidade estequiométrica de O2. A floresta doente, ou em regiões muito desmatadas e degradadas, já não compensa o excesso de CO2 emitido pelos processos destrutivos, e pode até emitir CO2 netamente. 

[Aqui, vale uma explicação: net ou neto é o peso líquido, ou seja, o saldo no caso do CO2 ou do O2, entre tudo que entrou e tudo que saiu da planta ou do animal; netamente, no texto, se refere a neto]

Então, a floresta funciona, sim, como um pulmão – entre suas múltiplas funções que emulam órgãos do corpo – porque troca gases

Pulmão saudável cosome CO2 (limpando o ar deste gás, hoje em excesso) e emite uma “relativamente pequena” quantidade de O2. Num pulmão doente, os fluxos netos se invertem. 

O sequestro de CO2 é relativamente mais importante para o clima global – em termos de trocas de gases – do que a emissão de O2. Portanto, essa função de pulmão/filtro de CO2 precisa ser mantida (para a floresta continuar saudável) e recuperada com restauração florestal (para as regiões impactadas).

Agora, sobre a controvérsia e o senso comum. Novamente, o oxigênio vem de TODAS as plantas: aquáticas e terrestres. Como temos quase 21% de O2 na atmosfera e apenas 0,04% de CO2, a retirada e a produção de volumes equivalentes destes gases gera efeito proporcionalmente MUITO maior no estoque de CO2 do que no de O2. 

Essa polêmica sobre se a Amazônia é ou não o pulmão do mundo é enviezada e sofre de erros históricos.

Uma floresta em estado clímax, de fato, consome todo O2 que gera, tendo um fluxo neto de troca de CO2 com a atmosfera que se aproxima de zero. Mas tal floresta precisaria existir em uma atmosfera onde a concentração de CO2 (lembre-se: esse gás é um ADUBO para as plantas) estivesse estável, o que não é o caso. 

Com o aumento de CO2 no ar, as plantas fazem mais fotossíntese, retiram o excesso, e portanto, geram um neto de O2. Assim, deixam de estar no estado clímax.

Acho bom combater erros (inclusive daqueles que não estudaram o ciclo biogeoquimico global do carbono). Mas de todos os erros e imprecisões, esses sobre o pulmão do mundo para florestas é o mais irrelevante e periférico.

Conselho: parem de bater em quem fala que a Amazônia é o pulmão do mundo, porque “também” o foi no sentido biogeoquimico e simbólico, função que precisa ser recuperada. E mais: ela é, junto com os oceanos e outros ecossistemas, o coração, os rins, o fígado, o sistema endócrino…

Gaia vive e respira, precisa de todos os seus órgaos funcionais para continuar a oferecer um lar cósmico confortável para nós!”.

Agora, depois desta reflexões e do convite de Nobre para sermos mais maleáveis nos debates sobre as qualidades pulmonares da Amazônia, assista ao vídeo produzido pela Pesquisa Fapesp que faz parte do especial Dança da Chuva, de janeiro de 2015 – no qual o cientista explica o maravilhoso sistema dos Rios Voadores, um mistério decifrado que valoriza ainda mais a floresta, que ainda continua em chamas.

Foto: imagem ilustrativa (junaidrao/creative commons/flickr)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Deixe uma resposta