50 anos do show que ajudou a mudar a história do movimento ambientalista

Estas palavras lançaram publicamente o embrião do que viria a se transformar, em poucos anos, na maior e mais conhecida organização de defesa do meio ambiente do mundo.

Em tradução livre: “Irmãos e irmãs em paz verde… A paz verde é linda. E você é lindo/a porque está aqui esta noite. Você veio aqui porque não está em uma viagem mortal! Você acredita na vida, você acredita na paz, e você as quer agora! Ao vir aqui esta noite, você está tornando possível uma viagem para a vida toda. Você está apoiando o primeiro projeto do Green Peace: enviar um navio para Amchitka para tentar impedir os testes de bombas de hidrogênio lá ou em qualquer lugar!“.

Jim Bohlen, cientista florestal, Paul Cote, estudante de direito, e
Irving Stowe, advogado, quem organizou o show de Amchitka
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Foto: Greenpeace/Divulgação

Elas saíram da boca de um dos seus fundadores do Greenpeace, Irving Stowe (à direita, na foto acima), quando, na noite de 16 de outubro de 1970, ele saudou as 10 mil pessoas presentes no Pacific Coliseum, em Vancouver, para um show que reuniu no mesmo palco os ídolos da folk music Phil Ochs, Joni Mitchell e James Taylor.

O registro deste show histórico foi recuperado e lançado em um CD duplo chamado Amchitka — The 1970 concert that launched Greenpeace, que atualmente está esgotado e virou peça de coleção.

Não é preciso gostar de folk music ou ser sócio da entidade ambientalista para apreciar as 25 canções que evocam uma época cujo ativismo ambiental – surgido na esteira das mobilizações pacifistas, pelos direitos humanos e por equidade de gênero -, era mais necessário do que nunca. 

O show foi organizado quase que de uma hora para outra com o fim de arrecadar fundos para alugar um barco que levaria um grupo de ativistas para uma viagem quase suicida ao arquipélago das Aleutas, no Mar de Bering, entre o Canadá e a, então, União Soviética.

O objetivo era evitar uma série de testes nucleares programados pelo governo americano perto da ilha vulcânica de Amchitka.

Bastidores do show: do lado direito (da esquerda para a direita):
Joni Mitchell, James Taylor, Elliot Roberts e Phil Ochs
Foto: Greenpeace/Divulgação

Paz e amor

O temor muito disseminado na época era de que os testes poderiam desestabilizar geologicamente a região e provocar um desastre de grandes proporções, incluindo gigantescos tsunamis.

A Ilha também era o santuário de lontras marinhas, cuja sobrevivência poderia ser ameaçada pela radiação provocada pelas explosões subterrâneas.

As músicas do show captam bem o clima de “paz e amor” da época, mas não escondem o ambiente político sombrio causado pelo apogeu da Guerra Fria.

Alguns dias antes da apresentação, o primeiro-ministro canadense Pierre Elliott Trudeau decretou lei marcial, depois de uma série de ataques terroristas perpetrados por um grupo separatista de Quebec. As liberdades civis foram suspensas, mas o show aconteceu assim mesmo.

James Taylor – Foto: Greenpeace/Divulgação

Phil Oaks não deixou passar esta tensa contradição e antes de tocar a música Rhythms of Revolution lembrou que “não era todo dia que se podia tocar em um Estado policial”. A plateia veio abaixo.

Alguns pontos altos do CD, que eu tenho o privilégio de ter, são Phil Oaks e sua canção, James Taylor cantando sua já então clássica Fire and Rain e Something in the way she moves (que teria inspirado o primeiro verso de Something, de George Harrison), além do duo improvisado entre Joni Mitchell e James Taylor para Mr. Tambourine Man.

Joni Mitchel – Foto: Greenpeace/Divulgação

O show termina com uma interpretação coletiva de The Circle Game, clássico de Mitchell.

A história do Greenpeace

O CD que registra o show traz, além de fotos históricas do concerto, um texto escrito pela filha do fundador do Greenpeace, Barbara Stowe, que na época tinha 14 anos de idade. Ela faz um reconto na primeira pessoa não apenas dos bastidores da preparação e realização do concerto, mas principalmente da formação do grupo ambientalista.

Foto: Greenpeace/Divulgação

É interessante comparar a quase ubiquidade atual do Greenpeace com a sua gênese, 50 anos atrás, a partir de um grupo de militantes pacifistas vivendo na fria costa oeste do Canadá.

Barbara explica como a ação aparentemente transloucada de alugar um barco e levá-lo ao local de um teste nuclear estava perfeitamente coerente com a visão de mundo adotada por sua família, moldada pela religiosidade Quaker, profundamente pacifista.

Entre os princípios adotados pelos quakers, além do pacifismo, está o de bearing witness, cuja tradução para o português é difícil, mas que significa algo como testemunha ativa ou testemunha presente.

Em termos práticos isso significa que a consciência de que um mal está para ser feito traz o imperativo moral de ignorá-lo (e, portanto, tornar-se cúmplice por omissão) ou agir de forma concreta e visível para impedi-lo ou denunciá-lo. 

Daí para a ideia de alugar um barco e levar um grupo para o local de um teste nuclear fazia todo o sentido.

O grupo de militantes precursor do Greenpeace se chamava Comitê Não Faça a Onda e tinha, entre seus simpatizantes, Bob Hunter, um jornalista que escrevia sobre temas ambientais para o jornal local.

Ele e outros jornalistas tomaram parte da tripulação e ajudaram a dar o toque midiático que faltava para que aquela aventura de zarpar mar adentro em um precário barco, rebatizado de Green Peace, reproduzisse a mística de Davi contra Golias, necessária para incendiar as emoções e a solidariedade de milhares de pessoas no Canadá, nos Estados Unidos e até no Japão.

O nome Greenpeace, segundo o registro de Barbara Stowe, surgiu espontaneamente quando seu pai cumprimentou em uma reunião o ativista Bill Darnell fazendo um V com os dedos e gritando Hey, Bill, Peace!, ao que ele respondeu Let´s make it a green peace! 

Assim, de uma interjeição surgida quase ao acaso, Irving Stowe percebeu que se juntavam duas forças poderosas em uma simples e única expressão: a transcendência política do movimento pacifista e a emergente preocupação com o meio ambiente, tema que já começava a capitalizar as atenções públicas. 

As duas palavras foram estampadas em bottons, vendidos nas ruas para arrecadar dinheiro para financiar a viagem do barco. Como o espaço era pequeno as palavras Green e Peace ficaram muito juntas no bottom e acabaram se transformando em uma palavra só, como é conhecida mundialmente, até hoje. 

O resto é história que ainda está sendo contada e recontada. Mas é muito interessante beber um pouco nas fontes originais e entender como os processos de transformação surgem da conjunção de ideias e ações e um grupo de pessoas dispostas a levar adiante a frase inspiradora de Gandhi: Devemos ser a mudança que queremos ver no mundo.

Fotos: Greenpeace/Divulgação

Renato Guimarães

Jornalista, com mestrado em relações internacionais, é especialista em temas ligados à mobilização e engajamento em causas de impacto social. Morou oito anos no Peru, de onde conheceu bastante da América Latina. Trabalhou em organizações como Oxfam GB, Purpose, Instituto Akatu e IFC/Banco Mundial. Foi sócio de duas consultorias – Gestão Origami e Together – e Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil. Atualmente, é Assessor Sênior do Social Good Brasil e VP de Engajamento da Together, agência focada em processos de mobilização para causas de impacto

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