4 novas espécies de ‘tubarões tropicais caminhantes’ – usam as barbatanas para andar – revelam capacidade adaptativa e de evolução

O tubarão simpático das fotos (que ilustram este texto) vive na região da Baía de Milne, no leste da Papua-Nova Guiné, e é uma das quatro espécies de tubarões tropicais caminhantes (ou ambulantes), do gênero Hemiscyllium, descobertas em 2018 na Indonésia, elevando para nove a quantidade de espécies.

Essas criaturas de um metro e meio de comprimento vivem perto da Austrália em recifes e sua presença ajuda a sinalizar a qualidade do meio ambiente. São chamados de caminhantes porque, além de nadar usam suas barbatanas peitorais (frente) e pélvicas (costas) para percorrer o fundo do mar ou o topo de recifes de coral, fora da água, na maré baixa, para “pescar” alimento.

Com grande mobilidade, esses tubarões se contorcem entre poças de maré e diferentes áreas do recife ea atacam caranguejos, camarões e peixes pequenos. Aliás, seu jeito sinuoso de se locomover é o que os assemelha aos tubarões mais conhecidos por nós.

Em artigo publicado em janeiro deste ano na revista científica Marine and Freshwater Research, pesquisadores da ONG Conservation International (CI), da Universidade de Queensland, do Instituto Indonésio de Ciências, do instituto australiano CSIRO e da Universidade da Flórida revelaram essa descoberta e algo muito incomum: que essas espécies evoluíram nos últimos nove milhões de anos, ou seja, representam as espécies de tubarões mais recentemente desenvolvidas na Terra.

Gavin Naylor, diretor do Programa da Flórida para Pesquisa de Tubarões na Universidade da Flórida e um dos autores do artigo, explica que a maioria dos tubarões evolui lentamente, como os tubarões Sixgill, habitantes do mar profundo, que “parecem retidos no tempo”. Ele conta que: “Há animais de 180 milhões de anos atrás com exatamente os mesmos dentes”.

Nível do mar, novos recifes e formações de terra influenciaram evolução

Foto: Mark V. Erdmann/Conservation International

Essa descoberta contradiz informações de pesquisas anteriores que diziam que os tubarões – que estão entre os animais mais antigos do mundo – demoram a evoluir. Pois os tropicais-caminhantes não só evoluíram como aprenderam a andar.

“Descobrimos que esses tubarões que usam suas barbatanas para ‘passear’ em recifes rasos, só se separaram evolutivamente de seu ancestral comum mais próximo há cerca de 9 milhões de anos e, desde então, estão ativamente irradiando um complexo de, pelo menos, nove tubarões ambulantes”, relatou o Dr. Mark Erdmann, vice-presidente da Conservação Internacional para os programas da Marinha da região Ásia-Pacífico e, também, um dos autores do artigo.

“Nove milhões de anos pode parecer muito tempo, mas, na verdade, os tubarões governam os oceanos há mais de 400 milhões de anos. E essa descoberta recente prova que os tubarões que podemos chamar de ‘modernos’ têm notável poder evolutivo e capacidade de se adaptar às mudanças ambientais”, acrescentou.

Sim, não é pouca coisa. Mas como os pesquisadores chegaram à essa conclusão?

“Usamos o DNA desses tubarões. Com eles, conseguimos estimar quando evoluíram e investigar os processos que levaram à especiação”, explicou Dra. Christine Dudgeon, pesquisadora da Escola de Ciências Biomédicas da Universidade de Queensland (também autora do artigo) para o site da CI.

“Descobrimos que mudanças no nível do mar, novos recifes e formações de terra e movimentos dos tubarões desempenharam um papel nessa evolução. E esta informação é importante não apenas para os tubarões ambulantes, mas para entender como as espécies evoluíram nessa região de maior biodiversidade marinha tropical do mundo“.

Degradação ambiental e sobrepesca

Foto Mark V. Erdmann/Conservation International

De acordo com Gavin Naylor, diretor do Programa de Pesquisa em Tubarões no Museu de História Natural da Flórida (que também escreveu o artigo), os tubarões-caminhantes do gênero Hemiscyllium representam a geração mais recente dessa espécie, que provavelmente ainda se diferenciam no oeste da Nova Guiné.

“Esses tubarões oferecem uma rara e emocionante oportunidade para vermos ‘evolução em ação’ em um grupo cujas origens antecedem os dinossauros. por 200 milhões de anos “.

Em 2016, durante revisão dos estudos sobre o gênero de tubarão-caminhante, a Conservation International, na companhia de alguns parceiros, descobriu que as nove espécies conhecidas estavam concentradas numa região no norte da Austrália, na ilha da Nova Guiné e também em ilhas-satélites (Raja Ampat, Aru e Halmahera) no leste Indonésia.

Também descobriram que devido às faixas de habitat muito pequenas e isoladas, esses tubarões são extremamente vulneráveis a ameaças como a degradação do meio ambiente e a sobrepesca.

Lista vermelha para a conservação

Foto Mark V. Erdmann/Conservation International

As novas descobertas renovam a esperança de que mais espécies de tubarões-ambulantestambém chamadas de tubarões de bambu, como o “nosso amigo”, na foto de destaque -, sejam adicionadas à Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, como alerta para sua preservação. Até agora, apenas três das nove espécies conhecidas estão incluídas.

“Apenas o reconhecimento global da necessidade de proteger os tubarões-caminhantes poderá ajudará a garantir que eles prosperem e continuem a fornecer benefícios aos ecossistemas marinhos e às comunidades locais por meio de seu valor como ativos turísticos“, destaca Erdman.

“É essencial que as comunidades locais, governos e o público internacional continuem lutando para estabelecer áreas marinhas protegidas para ajudar a garantir que a biodiversidade do oceano continue a florescer ”.

Andi Rusandi, diretor de conservação de Biodiversidade Marinha do Ministério de Assuntos Marinhos e Pescas da Indonésia (MMAF), ressalta que a importância desta pesquisa está também na confirmação de que a biodiversidade marinha da região é incomparável.

“Este é um trampolim importante para entender melhor essas criaturas únicas, e isso abrirá o caminho para que cientistas indonésios, do governo, de universidades e a sociedade civil estudem mais e profundamente nossas espécies endêmicas de tubarão-ambulante”.

Interdependência

Proteger os tubarões e tornar essa prática oficial na Indonésia é imprescindível. “E não podemos parar por aí”, salienta Victor Nikijuluw, diretor sênior do Programa Marítimo da CI na Indonesia. “Precisamos garantir que esses animais e os habitats de recifes de coral de renome mundial permaneçam intocados para que possam continuar atraindo turistas e apoiando o bem-estar local”.

O especialista destaca que isso só será possível por meio de planos de gerenciamento de conservação que considerem todo o ecossistema conectado, do alto da cordilheira da ilha até a natureza do recife. Também é imprescindível reconhecer os benefícios que esses recursos naturais oferecem a todas as partes envolvidas. “Somente através dessa abordagem do cume ao recife é que poderemos realmente garantir a natureza da qual nosso povo depende”.

Agora, assista ao vídeo da CI que mostra os movimentos sinuosos e rápidos de um tubarão-caminhante e suas barbatanas:

Fontes: CI, National Geographic,

Foto (destaque): Mark V. Erdmann/Conservation International

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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