2022: nossas escolhas para apoiar novos mundos e abandonar a barbárie

2022: nossas escolhas para apoiar novos mundos e abandonar a barbárie

Escrever o último texto do ano sempre aciona em mim uma ‘chave do tempo’. Penso em tudo sobre o que escrevi aqui, no Conexão Planeta, que sempre tem a ver com o que vivenciei, de modo presente ou virtual.

Penso na quantidade de movimentos, ações e ideias que nos revelam outros mundos possíveis em relação a este que temos visto surgir, de intolerância, ignorância, desigualdade e fome.

A esse Brasil escancaradamente dolorido, fragmentado, preconceituoso, que parte dos brasileiros resolveu, nas eleições de 2018, que seria o país a se viver, no qual esses outros mundos tentam ter o direito de existir.

Por aqui, em 2021 vimos muitas histórias de resistência, muitas vidas ligadas à defesa do bem-estar comunitário, a agricultura familiar e os assentamentos campesinos nos lembrando todos os dias de rever nossos padrões de consumo alimentar, seja pela saúde, seja por suportar um outro modo de produzir o que chega à nossa mesa.

Uma nova geração de empreendedoras e empreendedores que surgem na Amazônia buscando manter a floresta em pé e gerar renda para suas populações.

Iniciativas municipais e estaduais de apoio e fomento à economia solidária nos territórios. Bancos comunitários e incubadoras. Trabalho em rede, coletivo.

Mas também acompanhamos muitos retrocessos em âmbito federal, que seguem no caminho de tentar exterminar a existência desses mundos.

Os agricultores familiares seguem sem apoio federal desde o início da pandemia. Povos indígenas e quilombolas encontram-se ameaçados, correndo risco de vidas e tendo suas terras invadidas por garimpo, gado e especulação.

Unidades de conservação brasileiras, como a Reserva Extrativista Chico Mendessobre a qual escrevi aqui no Conexão – seguem ameaçadas de serem extintas, reduzidas ou terem seu grau de proteção diminuído.

Direitos humanos são reduzidos dia após dia no país. Das mulheres, da comunidade LGBTQIA+, dos povos indígenas, quilombolas, comunidades ribeirinhas e extrativistas, negros e negras. Mas muitas e muitas vozes seguem mostrando que outros mundos são possíveis.

Na atuação coletiva, no ativismo muitas vezes solitário e perigoso, no pulso firme da sociedade civil organizada, na atuação política – sim, existem bons políticos em meio a esse mar.

A essas vozes deixo o meu agradecimento neste ano tão doído que passamos, continuidade de um processo de país e de mundo que insiste em nos colocar retrogradamente no caminho da barbárie. Essas vozes nos dão esperança na resistência. Seja ela consciente ou não.

Em 2022, nossas escolhas determinarão o caminho

Costumo escrever o último post do ano convidando as pessoas a uma reflexão sobre o consumo, a darem presentes que trazem em si as sementes desses novos mundos. Produtos da agricultura familiar, da economia solidária ou de negócios que geram impactos positivos para o ambiente e para as comunidades.

O convite continua de pé. Mas, agora, temos também outro item para a lista: apoiar esses mundos em sua resistência. Basta ler todos os dias os jornais para perceber como a cada dia essas vozes correm riscos. E o quanto parecemos impotentes diante disso, por mais que denunciemos, escrevamos, assinemos petições e pressionemos os parlamentares em que votamos.

Apoiar esses mundos passa também pelo nosso voto. Em 2022 temos a chance de apoiar essas vozes ao escolher melhores governantes. Melhores parlamentares.

Desde que comecei a votar – aos 16 anos – e a me interessar por entender as consequências desse ato, saímos de uma caminhada que parecia certa, rumo à civilidade, para um retrocesso que parece não ter fim. Queimamos uma década de conquistas nos últimos quatro anos.

Não, o Brasil não era perfeito antes. Tínhamos muitas, mas muitas coisas a reformar. Mas havia sinais bastante claros de que a caminhada poderia seguir naquele caminho civilizatório e ser aprimorada. O que nos parecia descalabro há alguns anos, hoje se converteu em quase precipício.

O antropólogo Darcy Ribeiro (que foi senador e lutou pela garantia da educação pública no país) já nos dizia: o Brasil, último país a acabar com a escravidão, tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso.

Deixo aqui, no cerrar das luzes de 2021, essa semente. Para pensamos claramente nos mundos que queremos apoiar, nas vozes que precisamos ecoar e sobre o quanto a política pode contribuir para seu fortalecimento ou seu quase extermínio.

2022 será um ano difícil. Mas temos todas essas vozes para apoiar, nos inspirar, ecoar e com as quais nos engajar. Temos candidatas e candidatos que são também parte desses outros mundos.

É tempo de relembrar o quanto as nossas escolhas podem determinar nossa direção nos próximos anos. Do quanto nossa voz pode ser usada para potencializar outras vozes.

Nos vemos em 2022!

Foto: Daphne Richard | Unsplash

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, governos locais, políticas públicas, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para potencializar modos mais sustentáveis e diversos de estar no mundo.