105 líderes políticos, espirituais, cientistas, artistas e ativistas assinam apelo para que a vacina contra COVID-19 seja universal e gratuita

18 ganhadores do Prêmio Nobel, 34 chefes (e ex-chefes) de Estado e primeiros-ministros, 10 artistas e ativistas sociais, 7 líderes empresariais e 35 líderes políticos, religiosos, de organizações e instituições internacionais, ativistas, acadêmicos, entre outros, assinaram um chamado iniciado pelo Yunus Center – do economista social Muhammad Yunus (Prêmio Nobel da Paz de 2006, o primeiro na foto acima) – , e publicado em 28/6, para pedir que governos, fundações, filantropos e empresas sociais se dediquem e avancem na produção e na distribuição de vacinas contra COVID-19, de forma gratuita, em todo o mundo.

Mais: é um pedido para que entidades sociais, políticas e de saúde reafirmem a responsabilidade coletiva pela proteção das pessoas vulneráveis, sem discriminação, e tornem possível a liberação de qualquer patente e a classificação dessa vacina como domínio público.

No documento, os signatários também pedem para que todos os líderes mundiais, incluindo o secretário-geral da ONU, António Guterres, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, líderes religiosos, líderes sociais e morais, dos laboratórios de pesquisa e de empresas farmacêuticas, a mídia e o público se unam a eles neste movimento.

Convoca a OMS a elaborar um Plano de Ação Mundial sobre a vacina COVID-19, criando “um comitê internacional responsável pelo monitoramento da pesquisa de vacinas e garantir acesso igual à vacina para todos os países e todas as pessoas dentro de um prazo pré-determinado anunciado publicamente”.

Afinal, os laboratórios que estão investindo para encontrar uma vacina – a cura – esperam ser remunerados por isso, obter retorno financeiro. Encontrar uma solução para tornar a vacina gratuita no mundo inteiro é um baita desafio, sem dúvida, que exige uma grande ação coletiva.

A petição e a lista das 105 adesões iniciais estão disponíveis no site Vaccine Common Good. Eu assinei: fui a 1.636a. pessoa que aderiu ao chamado. Assine você, também!

Junte-se à ativista paquistanesa Malala (que acaba de se formar em Filosofia, Política e Economia, em Oxford), ao empresário e filantropo americano Richard Branson, ao fundador da Wikipedia Jimmy Wales, à escritora e ativista malasiana Marina Mahathir, aos atores George Clooney, Sharon Stone, Matt Damon, e aos cantores Bono Vox e Andre Bocelli, entre outros.

Do Brasil, apenas Lula (ex-presidente) e Guilherme Leal (empresário) fazem parte da lista inicial de signatários.

Cientistas unidos

A pandemia da Covid-19 tem revelado pontos fortes e fracos dos sistemas de saúde em todos os países, como também destacado obstáculos e iniquidades na obtenção do acesso aos serviços de saúde, o que preocupa os signatários sobre “a eficácia da campanha de vacinação, que dependerá de sua universalidade“, como destacou o pedido assinado por mais de 100 cientistasentre eles Muhammad Yunus (notabilizado pela criação e implantação do microcrédito em comunidades pobres da África), Jeffrey Sachs e 14 cientistas brasileiros – em 1o. de maio.

“De fato, todos convergem para a ideia de que a única maneira de erradicar definitivamente a pandemia é ter uma vacina que possa ser administrada a todos os habitantes do planeta, urbanos ou rurais, homens ou mulheres, que vivem em países ricos ou pobres”, diz o texto.

“A busca por uma nova vacina é um processo longo (o tempo estipulado é de cerca de 18 meses no caso da pandemia atual, o que seria um recorde absoluto de velocidade). Esta pesquisa é cara. Muitos laboratórios de pesquisa comercial envolvidos nesta pesquisa esperam um alto retorno de seu investimento. Precisamos descobrir a fórmula qual seria o nível justo desse retorno em troca de colocar a fórmula em domínio público. O mais importante é colocar o resultado em domínio público, disponibilizando-o para ser produzido por qualquer pessoa sob rigorosa supervisão regulatória internacional”.

Para inspirar, eles viajaram no tempo e destacaram a história da vacina contra a poliomielite. “Na década de 1950, a poliomielite era uma doença terrível, também causada por um vírus, que afetava crianças (aproximadamente 20.000 casos por ano), causando paralisia ao longo da vida. Jonas Salk (1914-1995), um biólogo americano inventou a primeira vacina contra a poliomielite. Para desenvolver esta vacina, ele recebeu uma doação de uma Fundação fundada pelo Presidente Roosevelt com doações de milhões de americanos. Pela conquista de seu sucesso, ele creditou a participação de 1,4 milhão de crianças nas quais a vacina foi testada”.

E finalizaram seu chamado assim: “Pesquisadores que desenvolvem inovações terapêuticas como vacinas precisam da cooperação de todos. Uma vacina só pode funcionar se as inoculações forem realizadas em larga escala. Salk nunca patenteou sua invenção. Ele não exigiu royalties por isso. Tudo o que ele estava interessado era disseminar a vacina o mais amplamente possível, o mais rápido possível.

É um bom momento para estabelecer uma norma para o mundo, para que não fiquemos cegos por dinheiro e esqueçamos a vida de bilhões de pessoas”.

Com base na ação dos cientistas, da qual participou, Yunus convidou líderes de outras esferas – política, artística, espiritual – para inspirar os demais habitantes deste planeta a aderir a essa corrente. Reproduzo, abaixo, a tradução livre do texto do chamado do Yunus Centre, na íntegra.

O texto do chamado liderado por Yunus

Nós, abaixo-assinados, fazemos este apelo conjunto a todos os líderes globais, organizações internacionais e governos para que adotem medidas legais e façam declarações oficiais sobre as vacinas COVID-19 como um Bem Comum Global, livres de qualquer direito de patente pertencente a qualquer pessoa.

Os signatários abaixo incluem os ganhadores de Prêmios Nobel, líderes da sociedade civil e líderes morais mundiais de todo o mundo.

  1. DIREITO AO ACESSO GRATUITO À VACINA PARA TODOS

Nosso direito à saúde pode ser garantido apenas pelo nosso dever à saúde, tanto em nível individual quanto no coletivo. Como prioridade, é necessário reconhecimento conceitual e a verdadeira tradução em ação de nossas responsabilidades. Ao mesmo tempo que a pandemia do COVID-19 causa estragos à Mãe Terra, ocorre uma explosão de atividades de pesquisa e ensaios clínicos para encontrar curas e vacinas. De fato, todos convergem para a idéia de que, em última análise, a única maneira de erradicar definitivamente a pandemia é ter uma vacina que possa ser administrada em todos os habitantes do planeta, urbanos ou rurais, homens ou mulheres, que vivem em países ricos ou pobres.

A pandemia expõe claramente os pontos fortes e fracos dos sistemas de saúde em diferentes países, bem como os obstáculos e desigualdades de acesso à saúde. A eficácia da próxima campanha de vacinação dependerá de sua universalidade.

Governos, fundações, organizações financeiras internacionais como o Banco Mundial e os bancos regionais de desenvolvimento devem elaborar detalhes de como disponibilizar as vacinas gratuitamente.

Apelamos aos governos, fundações, organizações de caridade, indivíduos filantropos e empresas sociais (ou seja, empresas criadas para resolver os problemas das pessoas sem tirar nenhum lucro pessoal delas) a se apresentarem para produzir e/ou distribuir as vacinas por todo o mundo.

Convidamos todas as entidades sociais, políticas e de saúde a reafirmar esta responsabilidade coletiva pela proteção de todas as pessoas vulneráveis ​​no que tange à pobreza, discriminação, gênero, doenças, perda de autonomia ou funcionalidade ou idade.

  1. TRANSPARÊNCIA NA DETERMINAÇÃO DO RETORNO JUSTO DOS INVESTIMENTOS EM PESQUISA

A pesquisa para uma vacina é um processo longo. O tempo estimado para o desenvolvimento de uma vacina COVID-19 é de cerca de 18 meses ou menos, o que seria um recorde absoluto de velocidade.

Esta pesquisa precisa de imensos investimentos econômicos. Muitos laboratórios de pesquisa do setor privado que estão envolvidos na pesquisa de vacinas esperam retorno sobre seus investimentos. Precisamos elaborar um procedimento inequívoco para determinar qual seria a forma justa de retorno para esses laboratórios, em troca de colocar a vacina em domínio público.

Por esse motivo, as informações emitidas pelo setor privado, cientistas e autoridades precisam ser oportunas, precisas, claras, completas e transparentes. Os resultados da pesquisa devem ser de domínio público e disponibilizados para qualquer laboratório que prometa operar sob rigorosa supervisão regulatória internacional.

  1. PLANO DE AÇÃO

Instamos a Organização Mundial da Saúde a elaborar um Plano de Ação Mundial sobre a vacina COVID-19. Apelamos a eles para estabelecer um comitê internacional responsável pelo monitoramento da pesquisa de vacinas e garantir acesso igual à vacina para todos os países e todas as pessoas dentro de um prazo pré-determinado anunciado publicamente.

Apelamos a todos os líderes mundiais, Secretário-Geral das Nações Unidas, Diretor-Geral da Organização Mundial da Saúde, líderes religiosos, líderes sociais, líderes morais, líderes de laboratórios de pesquisa, empresas farmacêuticas e líderes da mídia devem se unir para garantir que, no caso da vacina COVID-19, tenhamos um consenso global para o acesso universal gratuito, muito à frente de sua produção e distribuição reais.

Foto: montagem feita com fotos de divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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