Zona de conforto

Se você está lendo este post, certamente faz parte de um grupo de pessoas que chega em casa de carro ou algum transporte público, acende a luz, lava as mãos com água da torneira do banheiro, coloca o celular para carregar na tomada, abre o refrigerador para pegar algo geladinho para tomar, esquenta a comida em um fogão a gás ou microondas, compra pão, verduras e outras comidinhas a poucas quadras de casa (ou pede entrega de algum rango pelo telefone ou aplicativo) e toma uma ducha quente antes de cair numa caminha macia onde, muitas vezes, assiste algo na TV antes de dormir.

A princípio, não há absolutamente nada de errado nisso! Mas o fluxo contínuo de todas essas facilidades urbanas, nos faz esquecer os modos de vida que precisam pelejar um bocado para cumprir com essas tarefas simples do dia a dia.

Há algum tempo, passei 10 dias percorrendo a Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Na companhia do ornitólogo Thiago Laranjeiras, do Ponciano, gestor do Parque Nacional do Monte Roraima, e do nosso guia indígena Gelson, realizamos uma jornada de 150 km, que passou por 7 comunidades no território da etnia Ingarikó. Foram cerca de 80 km de caminhadas, intercaladas por trechos de barco pelo lindíssimo Rio Cotingo.

A viagem, que começou nas florestas da base do Monte Roraima, ao redor de Karamambatai, e terminou nas savanas de Kumaipá, foi marcada por paisagens, fauna e flora espetaculares. Certamente, uma das expedições mais incríveis que já fiz. Mas a marca maior, seguramente, foi o convívio com os Ingarikó e seu modo de vida.

O isolamento das comunidades nos obrigou a entrar na área de avião, levando todos nossos suprimentos de comida e combustível. Da pista de pouso para a frente, passamos a contar apenas com as facilidades locais, que eram praticamente inexistentes.

Coisas como energia elétrica, banheiro, cama, água encanada, refrigeração para alimentos, fogão a gás, comunicação ou uma vendinha para comprar comida, simplesmente deixaram de fazer parte da nossa vida. Toda locomoção era feita a pé, carregando tudo o que precisávamos. Nos poucos trechos que pudemos usar uma embarcação a motor, precisamos levar, com o auxílio indispensável dos Ingarikó, todo o combustível necessário.

O convívio com essa realidade áspera, onde tudo o que é necessário para viver deve ser buscado na natureza, nos remete a uma revisão profunda da forma como levamos a vida. O curto período de tempo em que testemunhamos o empenho diário dos indígenas para cultivar sua roça, caçar, pescar, acender o fogo, retirar palha de buriti para construir um telhado, fazer o beiju e o caxiri e buscar água para um banho, foi uma inesquecível lição.

Durante alguns dias, mal pude fotografar, porque não tinha sido possível realizar algo tão simples quanto carregar as baterias da câmera. Nas poucas comunidades onde tivemos gerador, quando ele não estava quebrado, só pôde funcionar por poucas horas, por conta da escassez de combustível.

São muitas as fotos que poderiam ilustrar este post. Escolhi esta, de uma jovem Ingarikó com seu bebê na lida de fazer beiju, pelo impacto que a cena me causou. A imagem foi feita em uma maloca muito isolada, próxima a uma das belas e desconhecidas cachoeiras que visitamos. Enquanto seu pai estava na lida da roça, esta jovem de, certamente, menos de 20 anos de idade, era responsável por prover todos os recursos para si, seu filho e seu irmão.

Na próxima vez que ouvir alguém dizer que “índio é preguiçoso”, lembre-se desta cena. E lembre-se que muitas dessas crenças infundadas são criadas em salas com ar condicionado, onde nossa zona de conforto facilita a elaboração de avaliações rasas sobre realidades que conhecemos tão pouco.

Dados da foto:
– Câmera Sony A6500 + objetiva 18-105 mm f/4 @ 18mm
– ISO 1000+ abertura f/4.5 + tempo de exposição de 1/25s

A natureza sempre foi uma paixão para Marcos Amend que, ainda adolescente, passou a observá-la também pelas lentes de uma máquina fotográfica. Assim, aliando o talento fotográfico à conservação do meio ambiente, há 25 anos viaja do Norte ao Sul do Brasil e pelos cantos mais remotos do mundo. Colabora com livros, revistas e bancos de imagens e realiza expedições, cursos e workshops de fotografia outdoor.

Marcos Amend

A natureza sempre foi uma paixão para Marcos Amend que, ainda adolescente, passou a observá-la também pelas lentes de uma máquina fotográfica. Assim, aliando o talento fotográfico à conservação do meio ambiente, há 25 anos viaja do Norte ao Sul do Brasil e pelos cantos mais remotos do mundo. Colabora com livros, revistas e bancos de imagens e realiza expedições, cursos e workshops de fotografia outdoor.

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