Preservação ambiental e respeito aos animais são possíveis em um parque aquático?

Xel-Há

Quando se viaja com filhos, a programação sempre precisa contemplar “gregos e troianos”. Ou melhor, adultos e crianças.

Quando eu ainda era solteira, zoológicos, aquários e parques de diversão passavam bem longe da minha lista de atrações a serem visitadas durante viagens de turismo.

Mas depois que meus filhos nasceram, tudo mudou. Eu e meu marido tentamos aliar visitas a museus, igrejas e sítios arqueológicos a destinos mais atraentes para as crianças também, como por exemplo, estádios de futebol (sim, eu tenho dois meninos!).

Recentemente, como contei aqui no blog, passamos uma semana na Riviera Maia, em Cancun, no México. Naquele primeiro texto, falei sobre a experiência incrível de mergulhar nas cavernas subterrâneas, os chamados “cenotes”.

Hoje, quero relatar um outro passeio, que para mim, uma jornalista que se especializou em sustentabilidade, era praticamente uma obrigação falar sobre minha sensação em visitar Xel-Há, um parque aquático natural, considerado o “maior aquário a céu aberto do mundo”.

O parque foi construído ao redor de uma lagoa natural, localizada exatamente na boca do oceano, e onde há mistura de correntes de água doce subterrânea com a água do mar (na língua maia, Xel-Há significa “onde nasce a água”). O empreendimento recebeu a certificação internacional de sustentabilidade Earth Check Gold.

Xel-Há

Vista aérea de Xel-Há

Para os turistas, é um passeio de dia inteiro. O ingresso custa quase US$ 90 dólares, cerca de R$ 350. Nesse valor estão incluídos passeios de boia pelo rio, mergulho com snorkel, toboáguas, tirolesas, saltos de penhascos, além de refeições e bebidas.

Para quem deseja ter um contato mais próximo com animais – peixes, golfinhos e manatis – é necessário pagar extra (falo mais sobre essas “experiências” logo abaixo).

Xel-Há

Número máximo de visitantes em Xel-Há

O lugar é realmente lindo. Dificilmente não seria, tendo como pano de fundo os tons de azul do mar do Caribe. Tudo é muito bem organizado. Há mapas por todo lugar e funcionários sempre prontos a ajudar.

Mas é preciso responder a pergunta que aparece no título da minha matéria: preservação ambiental e respeito aos animais são possíveis em um parque de diversão?

Pra começar, fiquei pensando no impacto que tantas pessoas podem ter sobre as espécies que vivem na lagoa.

Entrei em contato com a assessora de imprensa do Grupo Xcaret, proprietário de Xel-Há e outros tantos parques em Cancun, e fiz uma série de indagações.

Sobre o limite de pessoas em Xel-Há, por e-mail, Sergio Esquinca Avendaño afirmou que a capacidade máxima do parque seria de 5 mil visitantes por dia. “O lugar foi planejado com vários circuitos para que não haja concentração muito grande em um certo ponto – são 14 hectares de água e outros 70 hectares de área construída”, explica.

O planejamento parece perfeito, mas em nenhum momento antes de comprarmos os ingressos fomos alertados sobre um possível “limite de visitantes”. No site, também não há nenhum aviso sobre isso. Inclusive, fomos orientados a chegar cedo “porque o parque sempre lota”.

Passeio de boia: relaxante, quando o parque está vazio

Na descida da corredeira das boias no rio, me senti praticamente na Marginal Pinheiros, em São Paulo. Um congestionamento gigantesco. Pra você sair do lugar com a sua boia, era necessário dar um empurrãozinho (gentil) com o pé na do vizinho…

Há alguns anos estive em Bonito, no Mato Grosso do Sul. Lembro que tentamos agendar um passeio, mas não havia mais disponibilidade porque a lotação permitida de turistas já havia atingido o limite. Será mesmo que o rigor aplicado em Xel-Há seria o mesmo?

Protetor solar ecológico

Bom, próximo ponto. Quando se chega na entrada do parque, os visitantes são “convidados” a trocar seus protetores solares por outros que não impactam o meio ambiente e a vida marinha. Você deixa os que trouxe guardados em pequenos armários e recebe, gratuitamente, saches com os ecologicamente corretos (ao final do dia, na saída, pega os seus novamente).

A iniciativa é realmente muito bacana. Entretanto, pouquíssimas pessoas deixam de usar os protetores solares tradicionais. E não há nenhuma fiscalização sobre isso. “ Há um grande esforço para sensibilizar os visitantes, para que a maioria das pessoas sejam responsáveis e conscientes. Todavia, liberdade individual faz parte da sensibilização”, diz Avendaño.

Eu, lógico, aceitei os tais sachets e obriguei a família toda a usar. O funcionário que nos forneceu os pacotinhos disse que o protetor era bastante forte e sua ação duraria de 3 a 4 horas… Primeiro, pra começar, é dificílimo abrir o produto. Precisei entrar em um restaurante e pedir uma tesoura.

Segundo, no final do dia, depois passar o creme mais duas vezes, chegamos no hotel e nos demos conta (eu, meu marido e meus filhos) que estávamos queimadíssimos. Infelizmente, há uma enorme boa vontade (minha e do parque), mas o tal do protetor solar verde não funciona*.

Logo na chegada também, todo visitante recebe um snorkel de plástico, aquele tubo que se encaixa na máscara de mergulho. Uma cortesia do parque! Se fizermos as contas rapidamente, 5 mil visitantes por dia, são 5 mil snorkel. Ao final de um mês, serão 150 mil e de um ano, 1,8 milhão.

Lógico, estimando-se que diariamente Xel-Há ocupe sua capacidade máxima de turistas, o que me parece pouco provável. De qualquer maneira, é muito snorkel plástico, justamente quando acontece um movimento global para reduzir o uso de objetos feitos com esse tipo de material, mas a assessoria do parque afirmou que os tubos são enviados para um centro de reciclagem.

Ok, então!

Golfinhos e manatis em cativeiro

Agora, vamos ao que realmente mais me incomodou: as tais experiências (pagas) com os animais. Os visitantes podem nadar com golfinhos, manatis e participar de uma caminhada subaquática ao lado dos peixes (que são alimentados propositalmente para ficar ao lado dos turistas).

Avendaño garante que nenhum dos golfinhos ou manatis de Xel-Há foram retirados da natureza. Todos foram entregues ao parque pelas autoridades locais para serem criados ali. Alguns acabaram se reproduzindo em cativeiro.

No mundo inteiro, pouco a pouco, parques aquáticos e zoológicos se dão conta que este tipo de atração não é mais apropriada. Sabe-se hoje em dia que o contato entre homem e animais pode ser prejudicial a eles.

Muitas vezes, o treinamento para o show desses animais envolve sofrimento e práticas cruéis. De maneira nenhuma estou afirmando que isso aconteça em Xel-Há, mas já é hora do ser humano entender que os animais não foram feitos para satisfazer o seu bel prazer.  

Obviamente, nem todo mundo é ecoxiita – ou seria, ecochata? -, que nem eu. O parque é lindo e meus filhos se divertiram muito. Mas como não escrever sobre o assunto?

Há pouco tempo, li um texto na internet, em que a jornalista Adriana Setti, uma veterana na área de turismo, reflete sobre a necessidade de blogs da área não somente falarem sobre as belezas e as dicas de um destino, mas também, de seus problemas.

Lembrei dela quando escrevi este post.

*Na saída do parque, deixei um comentário sobre o tal protetor solar, com meu nome e e-mail. Nunca obtive nenhum retorno.

Fotos: reprodução Facebook e site Xel-Há

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Um comentário em “Preservação ambiental e respeito aos animais são possíveis em um parque aquático?

  • 12 de junho de 2019 em 11:12 PM
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    Preservação ambiental e proteção aos animais são possíveis no habitat deles e longe dos humanos porque nossa proximidade, no minimo, é causa de estresse para eles. Deveria ser o óbvio ululante mas prioridade têm sido e continuarão
    sendo os interesses humanos de qualquer espécie pois animais continuarão sendo explorados em outras áreas também, quando são exterminados para o desenfreado consumo alimentício e torturados à guisa das “imprescindíveis ” mas absolutamente desnecessárias experiências de laboratorio, porque ainda nao somos os animais nem superiores nem racionais que já deveríamos ser.

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