Volta às aulas, volta à natureza!


E, então, as férias acabaram e chegou o tempo da volta à aulas.

Há um grupo privilegiado de crianças que viajou, conheceu lugares distantes da cidade grande e repletos de natureza, onde o tempo parece passar mais devagar. Algumas puderam viver uma imersão na vida ao ar livre, ao lado de outras crianças e na companhia de adultos interessados e que compartilham uma real apreciação pelos mistérios do mundo natural.

Outras vivenciaram uma rotina menos engessada, tiveram os pais mais presentes em casa e puderam brincar na rua com mais frequência, nos dias em que o trânsito não esteve aquele caos dominado pelos veículos.

De um modo ou de outro, dentro do amplo espectro de experiências presentes na infância urbana, muitas crianças viveram mais livres e mais perto da natureza durante as férias. Mas e agora que a aulas recomeçaram, os adultos voltaram ao trabalho e o dia-a-dia está ‘normal’? O que podemos fazer para que as experiências na natureza não desapareçam para serem lembradas apenas em julho?

A seguir apresento algumas sugestões, que incluem ações que podem ser adotadas pelos pais e pelas escolas.

Hora verde em casa
Poucas famílias lembram de reservar um tempo diário para o brincar não estruturado ao ar livre no ambiente doméstico. Dá trabalho, é difícil encaixar na rotina, mas todos os esforços valem a pena, pois os benefícios são enormes! Mais atividade física, mais vínculo, mais concentração, menos irritabilidade. Uma hora por dia pode fazer uma grande diferença.

Uma alternativa para as famílias com pouco tempo é organizar um rodízio entre vizinhos onde cada dia um adulto leva as crianças para passear. O GPS da Natureza é uma ferramenta de localização de praças e parques – criado pelo projeto Criança e Natureza, do Instituto Alana, ao mesmo tempo que sugere várias atividades a partir da idade da criança e do tempo disponível – experimente!

Escolas mais verdes e com mais desafios
Apesar de algumas escolas contarem com espaços amplos e arborizados, a grande maioria está localizada em terrenos pequenos, com prédios apertados e pouquíssimo espaço aberto. Há muito cimento e pouca terra e água. As árvores não podem servir de brinquedo, subir é proibido. Não há espaço para desafios físicos.

Entretanto, mesmo com pouquíssimos recursos, é possível, aos poucos, transformar os espaços escolares visando incrementar as experiências naturais e motoras das crianças que passam boa parte de seu dia ali. Mas é preciso um ingrediente fundamental para isso acontecer: pais e professores devem acreditar na importância do brincar livre na natureza e reconhecer que a escola precisa fazer parte desse processo, definido por Lea Tiriba, professora da UniRio, como ‘desemparedamento’.

Expandindo os territórios educativos
O espaço da escola é muito pequeno? Todas as possibilidades de incrementa-lo já foram esgotadas e ainda assim parece pouco? As crianças e os educadores anseiam por mais? Olhe ao redor, faça uma boa pesquisa das áreas verdes, praças, parques ou qualquer terreno natural no bairro (uma igreja, clube etc). É possível fazer parcerias para usar essas áreas como territórios educativos, dar aulas ao ar livre, fazer pequenas excursões a pé pelo bairro para explorar as áreas naturais que há por lá, as hortas comunitárias que começam a aparecer, os rios soterrados por baixo de onde pisamos.

Pesquisas em vários campos demonstram que territórios educativos para além dos muros da escola ampliam o aprendizado experiencial ao ar livre, engajando alunos e educadores em uma grande aventura do conhecimento! Sim, é preciso vencer a barreira da segurança, engajar pais e educadores na tarefa de conduzir as crianças para fora da escola e cuidar para que elas estejam protegidas lá fora. Mas imagine só um bairro onde as crianças podem andar nas calçadas até a praça mais perto e ter uma aula de ciências ao ar livre, não vale a pena tentarmos repensar a configuração dos espaços e tempos escolares?

Mais recreio
O recreio é o único momento durante o período escolar no qual a criança pode se sentir livre, quando sua mente, seu corpo e mesmo sua voz podem estar fora da tutela dos adultos. É também uma ótima oportunidade para que as crianças passem parte do dia ao ar livre. Informe-se sobre como é o recreio na escola do seu filho. O que ele pode fazer? O que ele não pode fazer? Procure conversar com a escola, mostrando que você apoia um recreio longo, e não os meros quinze minutos disponíveis em várias escolas. Mostre que tudo bem se seu filho voltar sujo de terra para casa ou se ele subir em uma árvore. Muitas escolas, ou educadores, desejam implementar mudanças no sentido de aproximar as crianças de experiências na natureza, mas precisam do apoio dos pais.

Andar a pé
No mundo todo a mobilidade e autonomia das crianças caiu drasticamente nas ultimas décadas. Mesmo as crianças que moram perto da escola usam algum tipo de transporte motor para fazer o trajeto casa-escola-casa. A segurança é o fator que mais pesa nessa mudança de comportamento. Ninguém deseja expor as crianças a perigos, mas nem todo trajeto a pé é perigoso e há maneiras de torna-lo mais seguro, trazendo enormes benefícios às crianças e à toda comunidade. Inúmeras iniciativas como o Carona a Pé, reúnem a comunidade escolar que mora próxima e organiza percursos no trajeto de ida e/ou de volta da escola em pequenos grupos. A criança na calçada é um excelente indicador de qualidade da relação entre a cidade e as pessoas.

Aventuras no final de semana
Aproveite o final de semana para conhecer um parque mais longe e com mais espaço e atrativos diferentes – trilhas mais extensas, cachoeiras ou lagos. Esses passeios mais demorados e desafiantes são particularmente atraentes para as crianças maiores, entre 6 e 12 anos, que anseiam por ampliar seu raio de exploração e seus limites físicos e motores. As crianças menores também se beneficiam muito desses passeios mais longos, gradualmente conquistando autonomia, segurança a apreciação pela vida do lado de fora. Eu já contei minha experiência pessoal aqui, e como esses passeios se tornaram encontros entre famílias, onde crianças e adultos celebram juntos o prazer e a alegria do convívio entre si e com a natureza. Conheça os Grupos Natureza em Família e comece já esse movimento na sua rede!

E por fim, lembre de ser a voz que advoga por mais tempo na natureza na vida de todas as crianças. Onde quer que você exerça influência – nas reuniões da escola, no grupo de pais, no seu bairro, rua, prédio ou condomínio – peça por segurança nas ruas, carros menos velozes, tempo livre, aulas ao ar livre, árvores que possam ser escaladas e trilhas que possam ser caminhadas.

Foto: Joel Reichrt

Mãe da Raquel e do Beni, Engenharia Florestal e Mestre em Conservação de Ecossistemas, sempre trabalhou com educação e conservação da natureza. Desde 2015 é pesquisadora do programa Criança e Natureza do Alana.

Maria Isabel Amando de Barros

Mãe da Raquel e do Beni, Engenharia Florestal e Mestre em Conservação de Ecossistemas, sempre trabalhou com educação e conservação da natureza. Desde 2015 é pesquisadora do programa Criança e Natureza do Alana.

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