Volkswagen, BMW e Daimler encomendaram testes com ar contaminado em macacos e jovens

Mais um escândalo social e ambiental envolvendo montadoras de automóveis. O fato, que reúne três empresas alemãs – Volkswagen, BMW e Daimler-Chrysler (Mercedes Benz) -, aconteceu em 2015, mas só veio a público agora. Nessa época, as três companhias da indústria automobilística fizeram parte de um lobby (na verdade, do Grupo Europeu de Pesquisa de Meio Ambiente e Saúde no Setor de Transportes, EUGT, que não existe mais) para contrapor sentença da OMS – Organização Mundial de Saúde, que classificava como cancerígena a fumaça emitida pelos escapamentos dos veículos a diesel.

Para refutar a decisão da entidade da ONU, as companhias financiaram pesquisas que testaram o impacto das emissões de poluentes, com ar contaminado em diversas concentrações e em ambiente controlado. Para isso, o Instituto de Pesquisas Respiratórias Lovelace (LRRI), com sede no Novo México, usou macacos e jovens humanos saudáveis como cobaias. Eles foram colocados em caixas herméticas e respiraram a fumaça tóxica por horas e horas (detalhes sórdidos no final deste post, apenas para corações fortes).

Essa monstruosidade só reforça o que é óbvio: a indústria automobilística tem feito de tudo para convencer a sociedade (!!!) de que diesel é uma fonte limpa de energia, mesmo que a Ciência prove o contrário.

E a cara de pau também domina as declarações de Robert Rubin, presidente do instituto que fez os testes. Segundo noticiou o jornal The Guardian, ele declarou que o LRRI se retirou do estudo bancado pelo EUGT depois do escândalo conhecido como DieselGate (fraude sobre emissões), que envolveu a Volkswagen (ela modificou o motor de mais de 11 milhões de carros) e ainda corre nos tribunais pelo mundo. “Depois que aprendemos sobre essa fraude, decidimos que o estudo estava falho”.

Assim que tomou conhecimento da notícia, a chanceler alemã Angela Merkel cobrou da empresa dados detalhados desses experimentos, para que se saiba a dimensão exata da responsabilidade das companhias e dos efeitos desses testes nos indivíduos que participaram deles. Que vergonha! Como demos aqui, em 2016, o governo anunciou plano para acabar com os carros movidos a combustão, mas a indústria trabalha na contramão.

A ministra do Meio Ambiente na Alemanha, Barbara Hendriks, também condenou os experimentos, chamando-os de “vis” e “desprezíveis”, e disse que estava chocada com os cientistas que concordaram em conduzi-los. The Guardian publicou: “Que todo um ramo da indústria aparentemente tentou descartar fatos científicos com métodos tão descarados e duvidosos torna o assunto inteiro ainda mais horrível”.

Também segundo o jornal britânico, assim que tomaram conhecimento do escândalo, o representante do conselho de supervisão e o chefe de controle da Volkswagen se mostraram indignados (!) e disseram não compreender como a companhia teria permitido a execução de tais testes. A BMW e a Daimler, por sua vez, negaram a participação nos experimentos.

A última notícia publicada a respeito do assunto, pelo site DC, indica o afastamento de Thomas Steg, chefe de Relações Públicas da Volkswagen, que prometeu punir todos os envolvidos no escândalo.

Detalhes da crueldade

Esses testes têm que acabar! Em qualquer indústria. Na dos cosméticos, temos vistos alguns avanços. Na automobilística, nenhum. Por isso, apesar de não me agradar, contar os detalhes sórdidos dos estudos realizados pela LRRI é preciso. Mostram a real dimensão da crueldade que cerca esse tipo de trabalho. E reforça ainda mais a ironia e a falta de apreço pela vida por parte de todas as empresas envolvidas.

De acordo com revelações do jornal NYTimes, que foi o primeiro veículo que noticiou o fato, os macacos e os jovens saudáveis, usados nesses experimentos, foram colocados em salas hermeticamente fechadas por quatro horas, a cada sessão, e distraídos com cartoons na TV, enquanto exalavam fumaça de diesel.

Primeiro, os poluentes vieram de um Beatle (aquele Fusca com ares moderninhos), da Volkswagen. Na segunda fase dos testes, para fazer comparações (já que o Beatle não teria filtro tão sofisticado quanto este modelo), os mesmos indivíduos foram submetidos à fumaça de um Ford F-250.

Depois dessas exposições terríveis, as cobaias foram anestesiadas e entubadas para que seu sangue pudesse ser examinado. Depois, seus pulmões passaram por um processo de lavagem para a realização de exames radiológicos.

O grupo que financiou o estudo queria provar que a carga de poluentes das emissões de óxido de nitrogênio dos motores a diesel teria sido reduzida de forma considerável por conta do emprego de tecnologia avançada.

Não há tecnologia avançada de verdade, se a vida de seres – não importa se animais ou humanos – é colocada em risco. Gostaria de saber como estão todos que fizeram parte dessa tortura consentida.

Foto: Picture Aliance/M. Fürhrer

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

Deixe uma resposta