Vocês são muito exigentes

vocês são exigentes

Sempre que se espera… Acontece o quê? Ah? O que acontece nessa espera? Nessa chegada sem lembrança de partida? Nesse não vem nunca do ônibus, do avião, da vida? Nessa mala difícil de fechar; sem cadeado para abrir? Nesse vai vem à procura de um jeito pra vida, de um escape para o dia. Nesse vácuo referencial torturante de não ver terra, de não sentir-se dessa ou daquela esfera?

O espetáculo Pupik-Fuga em 2 fala disso. As atrizes Naomi da companhias The Karavan Ensemble (Inglaterra) e Yael da Lume Teatro, de São Paulo, são descencentes de refugiados e imigrantes e se uniram para falar do que é viver assim de fragmentos.

“No meio de um cenário global crescente de conflitos, violência e injustiças sociais, em que as pessoas são segregadas por questões de religião, nação, raça ou etnia, Pupik – que significa umbigo em hebraico – busca desenterrar o que nos liga, apesar das diferenças”, diz o texto do programa da peça, em cartaz na capital paulista.

Diferenças que fazem o forasteiro chegar com a mala cheia de anulações e generalizões na tentativa de se adequar ou pelo menos sobreviver. Fico aqui pensando em quem saiu sem nada, praticamente pelado e empurrado para ficar empilhado numa nau sem direito nem a suspiro pela terra natal.

Horrível olhar esse projeto de uma embarcação e os desenhos da mercadoria negra. Praticamente impossível imaginar o que sentiram os negros que foram trazidos da África para o trabalho escravo num passado colonizador, em que reis se davam o direito de achar que descobriam alguma coisa, tentando anular existências sistematicamente.

O que significou naquela chegada ser obrigado a rezar para um santo católico e não poder mais fazer oferenda para o seu orixá? Aliás, nada como conhecer as histórias dos orixás para respeitar. Em Contos dos Orixás, o quadrinhista Hugo Canuto se dedica a falar sobre os mitos iorubás com o visual pop dos gibis de heróis.  Melhor do que ficar endeusando super-herói americano…

Os mitos iorubás também estão em uma peça: Macumba – Uma Gira Sobre Poder, da Companhia Transitória, que assisti em Curitiba, na Mostra Novos Repertórios, antes de viajar aqui para São Paulo – com um poder bem amplo para escolher o que por na mala, diga-se de passagem.

Estou aqui na minha maratona de espetáculos, filmes, exposições. Num desses dias, fui parar no Museu Afro Brasil. Há tempos queria ir. Muita, muita coisa em cada exposição. De desesperar. Uma visita é pouco. Fiquei perdida no meio de tanto para ver. Mas aí relaxei, saquei meu celular com aquela câmera mais ou menos e fotografei as obras. Algumas não mostram o trabalho inteiro. Deixam claras partes que para mim podem ser o todo. Quem sabe você visitando e escolhendo a sua parte a gente una tudo e reconstrua, de pedaço em pedaco, um Brasil mais justo para a maioria da população que tem sangue, sabedoria e inteligência negras.

Emanoel Araújo, fundador, diretor e curador da instituição e da exposição Design e Tecnologia no Tempo da Escravidão, destaca que: “Os preconceitos de muitos cientistas europeus transmitiram ao restante do mundo a impressão de que esses povos não ofereceram uma contribuição relevante para a construção do conhecimento universal. Ao pensarmos nas contribuições dos povos africanos para o conhecimento científico e tecnológico no Brasil, nos defrontamos com certa carência de pesquisas sobre o tema nas academias, bem como de sua divulgação” .

Quantos negros não trabalharam nas carpintarias da colônia, construindo, entre tantas coisas, belos moinhos para fazer deslizar água que não iria servir para matar qualquer sede boba, sem mais nem menos.

Quantos negros podem ter dado ideia ou sido responsáveis pelo insight para a criação ou adaptação de objetos usados na colônia? Claro que não levaram os louros. No máximo, podem ter experimentado um louro no feijão, misturado aos restos do almoço da casa grande.

Provável que o café torrado nesse artefato, moído e passado na hora pela negra cozinheira chegasse frio à senzala. Mas cafeína gelada, ora bolas, também dava energia para trabalhar de sol a sol no cafezal.

Tiago Gualberto, 2005

Vou  querer sempre chamar a atenção de quem filtra bobagens e deixar escoar preconceito na conversa no café. Frases que merecem ir para o lixo com o pó usado não podem continuar a ser repetidas por aí. Que, pelo menos, queime a língua com café bem quente quem ainda as reproduz.

Não quero dizer que a visita ao museu deveria ser obrigatória porque não acredito nas coisas impostas. Mas conhecê-lo faz parte da caminhada de quem luta por mudança. Olhar as paredes refletas de tantas obras necessárias de artistas negros foi me dando orgulho, alegria… Depois me deu tristeza. Emoções opostas ao pensar na dificuldade que foi tentar ser um artista negro no Brasil Colônia e que ainda é.

Depois de assistir a um pocket show do Agô Performances Negras no Museu Afro Brasil, saí de lá com um trecho do espetáculo reverberando em mim: os atores falaram da abolição. Questionaram o que foi a liberdade. Liberdade sem teto, sem comida para os filhos… Liberdade desigual e desumana. “Ah! … (diziam os atores no palco, imitando os senhores de engenho) Vocês reclamam demais, são muito exigentes…”

Fotos: divulgação espetáculos e arquivo pessoal 

SERVIÇO:
Espetáculo: PUPIK – FUGA EM 2 


Data: 08, 09 e 10 de agosto. Terça a quinta, às 21h.
Local: 2º andar – Espaço Expositivo
Endereço: Rua Paes Leme, 195.
Bilheteria: Terça a sábado das 10h às 21h. Domingos e feriados das 10h às 18h.
Tel.: 11 3095.9400.

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

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