Você seria um bom imitador de cavalos?

cavalos

Quando o trabalho ou a arte parecem tão simples e tão menores aos olhos de quem não dá valor ou não se interessa, admiro quando o responsável pela produção tem paciência em explicar a importância e beleza do que, de outra maneira, poderia passar de forma anônima.

Vou contar a história de dois Atores (com A maiúsculo mesmo) que interpretavam cavalos. Entravam no palco cobertos por um corpo e uma cara de um boneco que tinha uma dose cavalar de características equinas. A plateia só via, para resumir, as patas desses Atores.

As moças da cidade, interessadas na presença  da companhia teatral famosa, demonstraram certa frustração quando os Atores  disseram quais eram os seus papeis, durante uma conversa toda cheia de charme com as fãs. O mais velho, que há 10 anos imitava o caminhar equino, começou a contar a sua experiência  e como tinha desenvolvido a capacidade de imitar, nos primeiros anos os movimentos das patas de trás. Só anos mais tarde tinha passado a fazer  com as da frente. Esta última habilidade, segundo ele, era mais difícil de desenvolver. Gabava-se de agora ser o ator que ficava na frente. O irmão, na parte de trás, almejava chegar na primeira posição, mas sabia que tinha muito que galopar ainda.

Essa  historinha está no  filme “Travelling Actors” do cineasta japonês Mikio Naruse, filmado em 1940. Antigo, simples e delicado. Será que você vai gostar? Não tem galope romântico à beira mar, nem atriz sendo salva por cavaleiro, já aviso. E a entrelinha diz mais que a linha.

Como são belas as cenas em que os dois Atores abrem mão do descanso e saem pelo vilarejo, debaixo do sol forte, para observar cavalos. Mais uma das tantas  vezes fazendo o que poderia ser a mesma coisa. Mas, para quem entende da arte de olhar e observar, nenhum cavalo é igual ao outro. Tanta paixão por entender o animal… Eles vão muito além do imitar. Digo que querem ser um deles. Mergulham no mundo desse ser.  E mesmo quando caminham fora do palco, sem a fantasia, têm certos movimentos  que lembram seus personagens. Naruse mostra isso de forma sutil.

Sabe quando a gente precisa espantar o mosquito que pousa na perna?  Eu dou um tapa. Não sei você. Os Atores, ainda que não em cena,  fazem um meneio que é um coice fraco, um sai pra lá liricamente quadrúpede, para dar uma definição mais bruto-poética e não fechar sua imaginação e interpretação numa frase pronta e sem graça.

É para levar para sempre o respeito que eles têm pelo animal e o amor com que defendem a profissão quando chefes e patrocinadores querem obrigá-los a subir ao palco, depois que a cara do boneco fica toda amassada porque um bêbado dorme em cima dela. Não vão e são substituídos por um animal de verdade. Reagem como animais de verdade. Vestem o figurino, soltam o animal e o espantam da cidade. A corrida me faz pensar nos limites entre o real e o imaginário. Nos parâmetros da imitação. Os irmãos cavalo tentam chegar ao estado da alma animal. Imaginam-se, sentem-se cavalos. Vão além da aparência, viram uma extensão.

Como os cavalos brancos que o inglês Walter Crane pintou (quadro que abre este post), em 1892, durante o movimento simbolista, são extensão das ondas. Como as essências se misturam e se completam. Interpenetram-se, unem-se.  Tinta, pincel e arte mandam dizer que sólido é líquido e líquido e sólido. Gotas de pelo. Cristas de ondas marinhas e equinas se confundem na cavalgada ao sabor dos humores do Deus Netuno…

Hoje queremos nós fazer esse papel supremo. Como é possível que nos concedamos, assim sem permissão, poderes de Deuses ao derretermos geleiras, aumentarmos o nível das águas, inundarmos ilhas e cidades cegos pelas viseiras que nos deixamos colocar? Há que temer as reações. Os coices surgem quando menos se espera.

 

*O filme do Naruse está no Youtube, de graça, com o nome “Travelling Actors”. Em preto e branco.  As legendas são em inglês, sinto muito.

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

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