Você já se perguntou do que precisa um bebê?

Você anda ocupado (a) o dia todo. Celular, trânsito, trabalho. Muito trabalho. Casa. Filhos. Trabalho doméstico. Entre tantas tarefas, pergunte-se: quanto tempo você permanece em locais fechados? Casa, carro, escritório, carro, casa, academia. E o seu filho (a)? Também segue esse estilo de vida?

Parece que sim. Nas escolas, uma atividade atrás da outra. Muito tempo dentro de salas de aula. Pouco tempo para o lazer. Para brincar. Muito tempo brincando dentro de casa, no quarto, na sala, na brinquedoteca do prédio, no “play” do shopping. Espaços, na maioria das vezes, organizados por um adulto.

Há quem diga que brincar é perda de tempo. Há quem engula o brincar porque acredita que a criança vai “aprender” alguma coisa. Nesse contexto, há anos o mercado de apoio à parentalidade criou uma opção que não para de crescer – as academias de bebês. Achei que existisse apenas em São Paulo. Ledo engano, você encontra uma em cada canto do sul ao norte do país.

Franquia de uma grande rede americana, as academias de bebês se apresentam como espaços seguros (talvez por serem literalmente fechados, emparedados e afastados da natureza?) e com tudo o que seu bebê supostamente ‘precisa’: atividades dirigidas, circuito tipo cross-fit para bebês, ambiente espumado, colorido, artificial e controlado. Tudo pensado para contribuir para o desenvolvimento do seu bebê. Será?

Dentre os argumentos, uma série de brincadeiras – programadas por adultos bem intencionados –, voltadas para o desenvolvimento motor, social e emocional dos pequenos. Nada de errado nisso. Difícil alguém contestar.

Mas, repare: ali o bebê é conduzido o tempo todo, passa por brincadeiras que ele não escolheu fazer ou criar. Há anos que vivemos uma ideia do tempo muito bem aproveitado; o tempo ocioso desponta como um crime. Em nossa sociedade, tempo livre é tempo perdido.

Falar em liberdade, no sentido pleno, está fora de moda. Isso porque liberdade envolve risco. Ser livre é, necessariamente, correr riscos, e descobrir que a maioria das coisas fogem ao nosso controle. Mas a moda hoje, em relação às crianças, é criar meios de controle cada vez mais eficientes. Espaços fechados, “coleiras” para as crianças não “escaparem” na rua, aplicativos, leis, câmeras. Ou seja: se por um lado os pequenos têm agendas que seguem o ritmo frenético dos adultos, por outro lado são tratados como incapazes de brincar com autonomia e  descobrir que são livres.

Com mais de dezoito livros de poesias publicados, Manoel de Barros provoca ao dizer: “Meu quintal é maior que o mundo”. Há uma grande beleza e verdade nessa frase: cada criança possui um quintal interior – intenso, criativo e essencial –, tornando desnecessários artifícios como os oferecidos pelas  Academias de Bebês.

Antecipar brincadeiras, aprendizagem formal de outra língua, alfabetização, preparação física, desejos etc. configuram-se como perversas formas de impedir um desenvolvimento saudável e necessário durante a infância.

Segundo dados recentes da Organização Mundial de Saúde, 33% da população mundial sofre de ansiedade. O Brasil surpreende com um dos primeiros lugares no ranking e São Paulo a cidade do mundo com maior índice de distúrbio mental. A pesquisa mostra uma população adulta ansiosa devido a inúmeros fatores como estilo de vida, carga genética e condições socioeconômicas e culturais. Se somos assim, como serão nossos filhos?

É uma pena. Pais costumam fazer tudo para o bem de seus filhos. Mas dirigir brincadeiras, ocupar todo o tempo e forçar movimentos que as crianças ainda não descobriram por conta própria retira delas não apenas o prazer de conquistar por si mesmo, mas toda a possibilidade de criação que somente a brincadeira de livre iniciativa é capaz de proporcionar. E como dizem os cientistas, livre criação é imaginação, é inteligência.

Ao deixar seu bebê brincar e descobrir, ao seu tempo, seu corpo, materiais simples do cotidiano, as cores da natureza, os silêncios e as pausas, os sons das risadas e gritos de outras crianças que inventam juntas seus mundos você não apenas previne transtornos mentais graves como a ansiedade, você oferece tudo o que uma criança pequena realmente precisa.

Foto: Feelona/Pixabay

Raquel Franzim é pedagoga e especialista em educação infantil. Atuou por 14 anos na rede pública de educação infantil na cidade de SP, como professora, coordenadora pedagógica e formadora de professores. Atualmente, é assessora pedagógica da área de educação e cultura da infância do Instituto Alana

Raquel Franzim

Raquel Franzim é pedagoga e especialista em educação infantil. Atuou por 14 anos na rede pública de educação infantil na cidade de SP, como professora, coordenadora pedagógica e formadora de professores. Atualmente, é assessora pedagógica da área de educação e cultura da infância do Instituto Alana

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