Viver é aprender, no Xingu


Acabo de voltar de uma experiência muito intensa, durante uma canoada no Rio Xingu, junto ao povo Juruna (Yudjá). Entre os inúmeros aprendizados, gostaria de compartilhar com vocês as conversas que tivemos com o professor da escola, Natanael (foto acima), e o que ele nos contou sobre como funciona o aprendizado lá.

Essa comunidade foi e está sendo duramente afetada pela Usina Hidroelétrica de Belo Monte. Devido a diversos eventos ao longo de sua história, ela perdeu parte de sua tradição e vive agora um momento muito interessante de querer resgatá-la.

Nos livros didáticos produzidos especialmente para eles, seus costumes e mitos são contados e reintroduzidos de uma forma que me pareceu, numa leitura rápida, extremamente respeitosa e cuidadosa.

Mas o professor Tana, como é carinhosamente chamado, nos contou que pescar, caçar tracajá, lidar com a mandioca, fazer farinha etc – que é o que realmente interessa para a vida cotidiana na comundiade- são atividades que não se ensina. Desde pequena, a criança observa os adultos e as crianças mais velhas nos seus afazeres e aprendem diretamente, na experiência. Sem passar pela explicação.

Percebi, com isso, que trata-se de uma aprendizagem direta, sem abstrações. O que me fez ver que a nossa educação nas escolas, é fundamentalmente baseada na abstração. Primeiro se abstrai, se explica, depois – quando muito – se vai para a prática. São duas formas opostas de aprender.

Somos capazes de aprender com as duas, pois são complementares. Mas quando vamos direto para a abstração, desde a criança bem pequena, estamos lhe tirando a oportunidade de aprender pela experiência direta com a terra, com a vida concreta, tal como ela é. E o irônico é que consideramos realidade o modo de vida que criamos baseado em camadas e mais camadas de abstrações.

Os indígenas são tão importantes não só porque cada etnia detém um saber único e conectado com seu território, mas talvez, sobretudo, porque são guardiões de uma forma humana de aprender que a sociedade moderna insiste em abafar, esconder e desvalorizar.

Caminhando pela aldeia e interagindo com as crianças, uma menina de uns 8 anos< Janaína Juruna se aproximou e me disse que gostava muito de fotografar. Então, dei minha máquina fotográfica e ela saiu correndo pela aldeia para fazer seus cliques.

Pensei que até com equipamentos o aprendizado pode ser, também, pela experiência direta. Quando voltou, quis ver as fotos e saiu novamente para fazer novos registros. Ela estava aprendendo a partir de suas próprias observações sobre as fotos tiradas. Por fim, achei um privilégio ficar com as fotos tiradas por um olhar que o meu jamais conseguiria alcançar. Compartilho com vocês algumas delas.

Na primeira, o menino é Juruna (Yudjá) da aldeia Miratu) brincando de subir na árvore e pular no rio. Na segunda, eu e uma criança da comunidade. Na terceira, porquinhos criados pelos moradores da aldeia.

Fotos: Janaína Juruna

Bióloga e socióloga, é autora dos livros “Como Cuidar da Natureza” e “Conservar e Criar”, sócia-diretora do Instituto Romã. Ministra cursos, vivências e palestras para aproximar as pessoas do ambiente natural. Acredita que a criança é a natureza se tornando humana e, por isso, precisa conviver com ela para seu desenvolvimento sadio e integral.

Rita Mendonça

Bióloga e socióloga, é autora dos livros “Como Cuidar da Natureza” e “Conservar e Criar”, sócia-diretora do Instituto Romã. Ministra cursos, vivências e palestras para aproximar as pessoas do ambiente natural. Acredita que a criança é a natureza se tornando humana e, por isso, precisa conviver com ela para seu desenvolvimento sadio e integral.

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