Vivendo a natureza em família: férias em Unidades de Conservação

crianças vivendo a natureza com a família

A primeira vez em que fui ao Parque Estadual Intervales (PEI), São Paulo, mais conhecido simplesmente como a (Fazenda) Intervales, foi em 1994, em uma viagem de campo de uma disciplina da faculdade que reunia jovens adultos interessados na relação entre as pessoas e entre estas e a natureza. Uma pérola dentro de uma miríade de aulas sobre como produzir mais alimentos, carne e madeira. Voltei lá inúmeras vezes, sempre a trabalho, enquanto meus dias livres eram dedicados a subir montanhas na Serra da Mantiqueira ou caminhar por áreas abertas como as chapadas. Intervales permanecia como um parque legal para ir a trabalho.

Até que, em setembro de 2009, fui ao PETAR – Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira, conhecido por suas cavernas, para alguns dias de trabalho e levei minha filha mais velha, então com um ano e três meses. Meu marido ficaria com ela durante o dia enquanto eu participaria de oficinas com a comunidade local.

Terminado o trabalho, em uma sexta-feira, resolvemos voltar pelo Planalto de Guapiara, evitando assim a Rodovia Régis Bittencourt. No meio do percurso lembrei que passaríamos muito perto da entrada da Intervales e pensei que seria uma ótima ideia pernoitar no parque, quebrando a viagem em duas etapas. Meu marido, que não conhecia o parque, gostou da ideia e chegamos num final de tarde úmido com aquela neblina pós-chuva.

Tínhamos o parque só para nós – éramos os únicos hóspedes e visitantes – e eu senti um enorme prazer em saber que estava no lugar certo na hora certa. Fazia anos que eu não dormia no parque e a simplicidade da hospedagem na Pousada Pica-Pau e das refeições no restaurante interno pareciam ornar perfeitamente com a paisagem incrível das montanhas cobertas de Mata Atlântica que víamos ao nosso redor. Sim, menos é mais.

Passamos três dias sozinhos no Parque, divididos em caminhadas com a Raquel na mochila e a exploração de poças d’água, com ela andando no chão. Conversamos sobre a relação entre as crianças e a natureza e decidimos, ali, na solidão da Intervales só nossa, que faríamos desse parque, escondido entre os vales dos rios Paranapanema e Ribeira de Iguape, nosso destino permanente de férias. Nossa filha aprenderia a reconhecer aquele como um lugar familiar, conheceria as trilhas pelos nomes e teria memórias desse parque como nosso refúgio particular.

Desde então, voltamos todos os anos, sempre acompanhados de outras famílias amigas, com filhos na idade dos nossos, que compartilham do mesmo prazer ao ver uma tribo de crianças andando em liberdade pelas estradas e trilhas do local. Passamos uma semana explorando trilhas cada vez mais longas, fazendo passeios de bike, nadando em cachoeiras e visitando cavernas. Ao final de cada dia, as crianças voltam suadas e cansadas, mas ainda com energia suficiente para brincar nas piscinas até o sol ir embora. Então é hora do banho e depois do jantar que, em geral, é a única refeição quente do dia. As noites são cheias de brincadeiras, observação de aranhas e besouros gigantes, passeios de lanterna pela noite escura, escuta atenta aos sons da floresta, histórias de aventuras dessa e de outras viagens e observação de estrelas. Com um pouco de sorte, temos também violentas tempestades de verão e assistimos da varanda da pousada a ventos e rajadas, trovões e raios cada vez próximos, inundados de admiração pela força da natureza.

Com o tempo, percebi que a experiência na natureza, assim como qualquer experiência, pode ser um aperitivo ou um banquete, como define Jack Turner em seu livro Abstract Wild. E que um banquete presume abundância e liberdade.

A organização norte-americana Nature Kids Institute desenvolveu a Pirâmide de Conexão da Natureza (traduzida e adaptada na figura ao final deste texto), que ilustra muito bem a progressão entre o contato diário com a natureza possível, perto de cada um de nós, e a importância de, ao menos uma vez ao ano, prover às crianças experiências mais longas em áreas de natureza primitiva, longe de interferências humanas.

É aí que entra um conceito pouco conhecido para a maioria dos brasileiros – as Unidades de Conservação, as áreas públicas protegidas, como os parques nacionais e estaduais. Para a maioria, essas áreas existem apenas no papel, nas disciplinas de geografia ou biologia, ou em viagens escolares de estudo do meio, que muitas vezes apenas repetem os mesmos padrões de ser e estar que temos nas cidades. Mas, na verdade, essas áreas são nossas, de todos nós, como diz a campanha #UnidosCuidamos da Coalizão Pró-UCs.

Para mim, as áreas naturais protegidas, especialmente aquelas grandes em tamanho, ainda guardam em si a importância primordial vista pelos fundadores do movimento conservacionista, incluindo David Thoreau, Jonh Muir e Aldo Leopold: são os locais para uma das mais importantes experiências humanas. O encontro com o selvagem, o indomável, o desconhecido.

Atualmente, a população que vive em grandes centros urbanos não tem mais um conceito de vida selvagem baseado em experiências pessoais. Para muitos, a natureza selvagem é apenas mais um programa de televisão ou o nome de um filme.

Para a minha família, a nossa viagem anual à Intervales é a busca por um lugar onde a natureza ainda é pouco domesticada pelo homem, onde não há estradas pavimentadas, as trilhas são vazias, não há sinal de celular e TV e a mata vai até aonde a vista alcança. Nós vamos em busca do selvagem, da natureza de verdade, do lugar que tem cobra, onça pintada e anta – e meus filhos tremem em um misto de excitação e medo quando falamos sobre isso. É a casa deles e é a nossa também, ao menos por uma semana no ano.

Então eis minha sugestão: procure um parque para “chamar de seu”. Não importa onde você mora, há uma unidade de conservação estadual ou federal a poucas ou muitas horas de viagem que merece uma visita de alguns dias, depois outra, depois mais outra e mais uma. Nem todos têm acomodação interna como a Intervales, uma pena! Mas Itatiaia, Ibitipoca, Aparados, Cipó, Veadeiros, Guimarães, Diamantina, Emas, Juruena e mais centenas de opções são os lugares onde mora a dimensão selvagem e um dos mais belos usos das férias é apresenta-los às crianças.

pirâmide com quatro passos para o encontro da criança com a natureza


Foto: arquivo pessoal

Engenheira Florestal e mestre em Conservação de Ecossistemas pela ESALQ/USP, sempre trabalhou com educação e conservação da natureza. É cofundadora da OutwardBound Brasil e atuou na gestão e manejo de unidades de conservação na Fundação Florestal do Estado de São Paulo. Depois do nascimento da Raquel e do Beni passou a estudar a relação entre a infância e a natureza no mundo contemporâneo. Desde 2015, trabalha como pesquisadora do programa Criança e Natureza do Instituto Alana.

Maria Isabel Amando de Barros

Engenheira Florestal e mestre em Conservação de Ecossistemas pela ESALQ/USP, sempre trabalhou com educação e conservação da natureza. É cofundadora da OutwardBound Brasil e atuou na gestão e manejo de unidades de conservação na Fundação Florestal do Estado de São Paulo. Depois do nascimento da Raquel e do Beni passou a estudar a relação entre a infância e a natureza no mundo contemporâneo. Desde 2015, trabalha como pesquisadora do programa Criança e Natureza do Instituto Alana.

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