Visitar um parque nas férias: um ato político e transformador

As férias de verão chegaram e muitos estão pensando como passar os dias de recesso na companhia das crianças. É tempo de fazer planos sobre viagens. Praias, sítios, casas de amigos e parentes, lugares onde há natureza, cultura ou lazer. Essas costumam ser as opções mais comuns para parte das famílias brasileiras. Pouquíssimas pessoas fazem a escolha consciente de viajar para conhecer um parque nacional ou estadual ou alguma outra área do nosso Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC)

Em 2020 a Lei 9.985, que oficializou este sistema completa 20 anos. Elaborada com a participação da sociedade, e uma conquista importante, a iniciativa estabeleceu novas diretrizes que contribuíram para organizar as unidades de conservação, melhorar seu processo de gestão e facilitar a criação de novas áreas naturais protegidas no Brasil. Entretanto, apesar de haver muito a comemorar depois de duas décadas, ainda há também um longo caminho no sentido de tornar essas áreas acessíveis, conhecidas, destinos queridos e procurados pelas famílias brasileiras durante as férias.

Entre as razões para comemorar, como profissional, mas também como visitante frequente, eu destaco a contínua abertura que essas áreas tiveram. Criadas sob o paradigma da conservação dos ecossistemas, foi com muito trabalho, debate e pesquisa que gradualmente reconhecemos que as áreas naturais protegidas oferecem enormes benefícios para a sociedade, entre os quais a oportunidade de vivermos experiências únicas de reconexão com a natureza.

Gradualmente estamos investindo na implantação de estruturas e serviços de apoio ao visitante nos parques, mas ainda é preciso ampliar as oportunidades de uso público disponíveis. A maioria das trilhas e travessias, por exemplo, é voltada para jovens adultos capazes de percorrer longas distâncias em território acidentado.

Recentemente, estive com minha família durante as férias escolares no Parque Estadual de Ibitipoca (MG). Entre os 600 visitantes que o parque recebe num sábado, contei por volta de seis a dez crianças. É muito pouco. Em outra oportunidade, minha filha de dez anos precisou percorrer a Travessia da Serra Negra, no Parque Nacional de Itatiaia (RJ), no mesmo tempo que os adultos o fazem, porque o parque exige que a travessia seja feita em no máximo dois dias. Precisamos investir em inclusão, de forma a acolher todos os públicos, inclusive crianças e adolescentes. 

Se por um lado os órgãos gestores precisam aperfeiçoar a gestão das áreas protegidas, a sociedade também precisa fazer sua parte, engajando-se com sua valorização e apoio. Há muitas formas de fazer isso: expressando-se em sua defesa, informando-se sobre sua importância e serviços ambientais, divulgando sua existência. Eu acredito que a mais potente é visitando-as.

Para mim, escolher um parque para visitar nas férias é um ato político e cidadão. É a maneira mais expressiva de demonstrar o meu apoio incondicional à sua existência como estratégia bem sucedida de conservação de grandes áreas de beleza paisagística e abundância de recursos naturais, habitat de milhares de espécies e patrimônio de todos.

Abaixo a amnésia ambiental!

Viajar para um parque nacional ou estadual com crianças é oferecer a elas uma experiência única de deslumbramento com a magnitude da natureza. É ajudar a diminuir o fenômeno que o pesquisador Peter H. Kahn chama de amnésia ambiental: estamos nos distanciando tanto de áreas remotas e primitivas que corremos o risco de nos esquecer de como é uma mata de verdade, um rio limpo e um céu estrelado.

Visitar também é uma forma de engajamento, que começa com o corpo e com as emoções e gradualmente atinge o plano das ideias e das ações.

Recentemente a Children & Nature Network sistematizou em um infográfico as evidências que apontam como experiências significativas ao ar livre, como uma viagem de férias para um parque nacional ou estadual, contribuem para a saúde e bem-estar das crianças e as inspira a amar e importar-se com a conservação da natureza.

Nosso convite é para que os parques trabalhem ativamente para receber mais e melhor as crianças e adolescentes, ampliando as oportunidades de visitação destinadas a eles e suas famílias: por mais trilhas, travessias, áreas de acampamento, centros de visitantes. E que as famílias escolham um parque como seu destino nas próximas férias e descubram, lado a lado com as crianças, as belezas naturais, a riqueza cultural e o patrimônio histórico que o Sistema Brasileiro de Unidades de Conservação abriga.

Fotos: arquivo pessoal

Maria Isabel Amando de Barros

Engenheira Florestal e mestre em Conservação de Ecossistemas pela ESALQ/USP, sempre trabalhou com educação e conservação da natureza. É cofundadora da OutwardBound Brasil e atuou na gestão e manejo de unidades de conservação na Fundação Florestal do Estado de São Paulo. Depois do nascimento da Raquel e do Beni passou a estudar a relação entre a infância e a natureza no mundo contemporâneo. Desde 2015, trabalha como pesquisadora do programa Criança e Natureza do Instituto Alana.

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