Violência no Espírito Santo é a mesma que adoece o Brasil

O Espírito Santo está muito doente. E não é porque as mulheres impedem os policiais de saírem dos quartéis da PM há nove dias (esta reportagem foi publicada no site M de Mulher em 12/2/2017). A patologia grave, traduzida em mais de 140 assassinatos, saques, pânico e histeria, apresenta várias causas sociais e políticas. Os sintomas, porém, não aparecem só ali – acometem o país inteiro. Em meio à tensão, andando pelas periferias de Vitória, Cariacica e Vila Velha, o fotógrafo Victor Moriyama e eu observamos que a febre alta é a mesma nas quebradas brasileiras que temos percorrido para fazer o nosso trabalho.

Em reportagens especiais publicadas na revista Claudia (Editora Abril), no ano passado, não houve dificuldade de localizar meninos marcados para morrer aos 10 anos e já com histórico de irmãos assassinados nessa faixa etária; meninas casadas antes dos 13 anos e sem oportunidades na vida; crianças no trabalho quase escravo ou na indústria do sexo. Todos criados em bairros populosos e violentos, com o sangue correndo perto de casa. Eles não se sentem conquistados pela escola, que, na verdade, se mostra incapaz de responder às necessidades dos jovens. A única presença do Estado em suas vidas é a da Polícia Militar.

Quem é o policial para uma criança da periferia? O opositor, alguém que prende e mata. Mas a polícia, proibida por lei de manifestar sua dor e sua fome, revelou um outro lado no Espírito Santo: está farta de personificar os fracassos da segurança pública, é gente, quer comer, morar melhor, tem mulher, mãe e filhas.

A miséria

Elas se puseram na linha de frente e fecharam os quartéis capixabas para expor a penúria dos PMs, o salário inicial bruto de 2,6 mil reais (o pior do país), a falta de reajuste há 7 anos, o perigo que correm em viaturas sucateadas, com coletes à prova de bala vencidos e armas obsoletas. E ainda têm que consertar carros e motos de serviço, batidos durante perseguições a bandidos ou em acidentes.

Sem vale-refeição – queixam-se as esposas – os maridos recorrem ao hábito de pedir um prato de comida a donos de padarias, a quem ficam devendo a gentileza, ou fazem o bico ilegal de segurança em porta de boate. Sob a fome, não há bravo que pare de pé. Começa aí a lambança: o pagamento dos favores e as pequenas ilegalidades podem acabar em grupo de extermínio – quando o policial esconde a farda e mata por encomenda usando o revólver do Estado. As mulheres, que têm orgulho do marido militar, querem vê-lo longe disso.

Estávamos na Grande Vitória para uma reportagem da próxima edição da revista Claudia. Queríamos falar com as capixabas que mexeram na rotina dos batalhões, atraíram para Vitória a Força Nacional, as Forças Armadas, o Procurador-geral da República, a imprensa brasileira e a estrangeira, além de influenciar esposas de militares fluminenses, que repetem o protesto no Rio de Janeiro. Elas também têm sido acusadas de intransigência pela população que se trancou em casa em uma cidade deserta. Poucas chegaram à universidade, raras se diplomaram. A maioria é jovem e simples, nascida na periferia, onde, aliás, o Brasil vai buscar seus policiais.

As mulheres podem ter cometido excessos na estratégia para defender o legítimo direito de reivindicar direitos (o que qualquer trabalhador pode fazer, mas os militares não). Talvez devessem ter liberado 20% da tropa para os atendimentos de emergência. O fato é que optaram pelo policiamento zero na tentativa de convencer o governo Paulo Hartung da importância de dar à tropa dignidade e respeito.

Verdades incômodas

Elas puseram a nu uma realidade: no país, que mantém dez capitais na lista das cidades mais violentas do mundo e uma das polícias com maior grau de letalidade, o Espírito Santo gabava-se de ter reduzido a criminalidade investindo em vagas de cadeia – como se tudo em segurança pública se resumisse a jaulas. O Estado esqueceu que é preciso humanizar a polícia – e isso passa por salários dignos, condições de trabalho e preparo para lidar com as demandas sociais. A ebulição capixaba chama ainda a atenção para a importância de articular segurança pública com a prevenção do crime, o oferecimento de saúde e a formação cidadã para meninos e meninas desencantados com a escola e muito perto do crime ou das consequências dele.

Nos dias de maior terror na Grande Vitória, litoral e interior, quem costuma agir contra a lei aproveitou. Donos de bancas de drogas decidiram a disputa do mercado apagando desafetos; maus policiais limparam trilhos; houve queima de arquivo e – dizem alguns – assassinatos por politicagem. Quanto aos saques à loja: não é difícil enxergar neles – excluído o vandalismo – uma explosão da desforra popular à enxurrada de vergonhas nacionais.

Os nomes mais sujos citados em delações premiadas estão mandando no Brasil e decidindo mal a vida de todos nós. Os gastos sociais congelados por 20 anos (que empobrecerão ainda mais a educação e a saúde), o desemprego e o programa de economia – e lastreado na reforma da Previdência (que prevê o trabalho até a morte), vão antecipar a convulsão nacional.

“Não coloquem o sangue nas nossas mãos”

Quiseram colocar todo o caos na conta das mulheres. Elas enfrentaram a gestão Hartung, que as responsabiliza, junto com os maridos, pelos prejuízos no comércio fechado há dias e pelos assassinatos. “Não queiram colocar o sangue nas nossas mãos”, disse Maria (como elas gostam de ser chamadas para não ter que dar nome e sobrenome). Esposa de um soldado do 7º BPM, em Cariacica, e uma das lideranças do movimento, afirmou: “O culpado é o governo, que teria evitado as tristes mortes se negociasse as nossas reivindicações logo no início”.

Maria conta que a família do PM vive com medo e trancafiada há muito tempo. “Só agora a população sabe o que sentimos”. Ela se refere ao confronto diário: pobres matando pobres. PMs e seus vizinhos se esfolando. E o Estado finge que vê.

O grupo não usa a expressão “guerra urbana”, como fazem os especialistas em estudos da violência. Mas outra líder descreveu o cenário bélico: “Nas periferias, assassinatos horríveis acontecem a qualquer hora. Quem tem dinheiro e mora bem, nem quer saber disso. Nos primeiros dias da paralisação, a maior parte dos homicídios ocorreu nos bairros pobres. A sociedade continuou indiferente. Só começou a se preocupar e pediu providências quando as lojas e supermercados dos setores nobres passaram a ser saqueados”.

A inteligência da Polícia Militar e a do governo Hartung não conseguiram detectar a articulação das mulheres – e se o movimento começou inflado pelos homens, o que as moças negam, não demorou a ser dominado por elas.

Mais de 700 PMs já estão indiciados pelo crime de revolta. Por motim e insubordinação, podem ser presos ou expulsos da corporação. As esposas incluíram uma anistia para os companheiros, mas não foram atendidas nesse e em nenhum item da pauta reinvindicatória.

Manifestantes da comissão que negociou com o governo. Saíram da conversa sem conseguir nada da pauta de reivindicações. E cantando o Hino nacional.

A reunião no Palácio da Fonte Grande, em que negociaram as reivindicações na quinta (9/2), foi a maior demonstração de inabilidade do governo, ali representado por quatro secretários estaduais. Embora as manifestantes tivessem saído chorando da massacrante rodada que durou 11 horas, o governo foi o perdedor. Não conseguiu acordo com as donas de casa – uma delas levou o bebê de 9 meses –, que até ali nunca tinham visto uma autoridade a não ser pela TV.

A gestão Hartung achava que, advertidas da ruína que estavam impondo ao marido e à família, elas recuariam. Não adiantou acusá-las de manchar o nome do Estado na mídia internacional nem ameaçá-las com processo. “Vão construir quantos presídios para colocar as esposas dos 2 mil militares que policiam as ruas e as favelas capixabas?”, declarou uma delas.

FOTO MULHER CHORANDO – Gilmara, a mulher de um PM que integra a comissão de manifestantes, saiu da reunião com o Governo aos prantos: “Ele é um tirano. Sofremos tortura psicológica o tempo todo”

Antes do fim, Gilmara (na foto que abre este post), da comissão, saiu aos prantos dizendo que a reunião havia sido para demolir a grupo. “O governo é desrespeitoso, tirano e não quis nos ouvir. Fez pressão psicológica e tortura o tempo todo. Estou com fome, confusa, não aguento mais.” Das 14 hs, quando chegaram para o encontro, até 1 da madrugada, só lhes serviram água. As mulheres saíram abraçadas e cantando o Hino Nacional.

No sábado, para driblar o piquete que impede a saída das viaturas, o governo convocou os policiais para patrulhas a pé. A ordem dada: comparecer a determinadas praças e locais públicos e, de lá, sair em diligência, andando. Segundo o governo, 875 já voltaram ao trabalho. Sessenta homens foram retirados de helicóptero do Quartel do Comando Geral – onde o portão foi literalmente trancado com cadeado nos primeiros dias do movimento.

As manifestantes permanecem acampadas nas portas dos quartéis neste domingo (12/02). Não é possível prever quando o fôlego delas vai acabar.  Para estarem de prontidão, nas barracas, deixam suas crianças com a vizinha ou a sogra. Voltam para casa para um banho rápido. Não comem nem dormem direito. Enfrentam chuva e um calor do cão. Muitas estão extremamente estressadas. Mas firmes e, aparentemente, irredutíveis.

O episódio retrata a falta de um canal aberto entre a polícia e governo, com graves consequências para a população. É também uma amostra do que pode acontecer se os que mandam não entenderem que a sociedade está entrando em agonia, sofrendo com os sintomas da doença que não quer sarar.

Fotos: Victor Moriyama

Patrícia Zaidan/M de Mulher

Patrícia Zaidan é jornalista, também formada em psicologia. Editora de Atualidades na revista Claudia, é repórter apaixonada e gosta, mesmo, é de colocar os pés na estrada pelo Brasil afora para descobrir – e se encantar com - as brasileiras que transformam suas realidades e a de toda gente à sua volta para melhor.

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