Vida em ecovila: comunidade a gente constrói (e destrói) em qualquer lugar

Das muitas lições que minha temporada de quase dez anos numa ecovila me proporcionaram, talvez esta tenha sido a mais tardia e necessária: comunidade é algo que brota do coração, não nasce de tratados de boa convivência nem de mil horas de reuniões para definir metas e caminhos. E digo isso porque é no coração que brotam as verdades. As emoções que nos atravessam sem filtros. Tudo aquilo que simplesmente é. Sem artifícios ou ferramentas fofinhas usadas para mediar encontros de grupo.

Ninguém passa por cima do coração e segue a vida impunemente. Quem concebe uma comunidade com a cabeça e não com o coração, o amor, o afeto, acaba tropeçando ali na frente, no discurso distorcido e chato das ideias preconcebidas e fechadas em si mesmas, mas que o coração – para a sorte de todos! – escancara hora ou outra para além de qualquer enfadonha tese acadêmica.

Na vida real (aquela que vale a pena), querer construir uma comunidade “alternativa” que traga propósito às nossas vidas e nos tire dessa loucura que é a nossa sociedade (desde sempre, em qualquer tempo e lugar) pode ser o máximo, mas não quer dizer absolutamente nada. Comunidade é coisa quase meio mágica, que a gente pensa que constrói, mas que, no fundo, tem o dom da autopoiese, faz-se por conta própria, na presença de pessoas e corações que, sem qualquer esforço ou condicionamentos, vibram naturalmente na mesma frequência. Forçar, portanto, o nascimento de uma comunidade é fadá-la ao fracasso da não existência.

Por muito tempo, eu talvez tenha sonhado em construir com tijolos algo que somente se constrói com amor, respeito, amizade e entrega. Prédios e infraestrutura bacana não fazem uma comunidade. E festas agradáveis, com comidinhas gostosas e boa música não preenchem o vazio deixado pela superficialidade, pela falta dos amores verdadeiros, das amizades espontâneas, do propósito firme, da lealdade.

Foi o sonho de morar e participar da criação de uma comunidade mais sustentável que me levou a uma jornada de quase uma década, em uma cidade pequena, a 100 km de São Paulo e a milhares de quilômetros para dentro de mim. E foi para manter o sonho vivo em mim, em algum cantinho hoje bem mais reservado, que saí de lá, dois anos atrás.

Quem conheceu este blog entre os anos de 2007 e 2015 (ele nasceu no site Planeta Sustentável, da Editora Abril, e quando este acabou, encontrou terra fértil, aqui, no Conexão Planeta), acompanhou histórias de uma jornalista que narrava o que vivia, encantada, sobretudo, com um universo novo (para ela, ao menos), em que cabiam todos os sonhos do mundo e muito, muito mais. No lote de terra dentro de uma ecovila recém-criada no papel, comprado com o trabalho na capital, nasceu uma casa de barro e madeira no meio do mato, construída a muitas mãos e durante cinco anos de experiências que marcaram minha alma.

Mas falar de uma casa, ainda que mais ecológica e tal, é ainda pura arquitetura de propriedade privada, por mais ‘hippie’ que possa ser sua maneira de se apresentar ao mundo. Um zilhão de tijolos não serve para nada diante do abismo criado pelos sonhos dissonantes que caminham entre casas pretensamente mais sustentáveis. Quando, numa comunidade em formação, o meu sonho não é o sonho do outro, fica difícil construir essa parte que é, de maneira tão intrigante, o aspecto mais etéreo e, no fim das contas, também o que mais dá solidez a um grupo.

Saí da ecovila quando meu coração parou de pulsar pela comunidade. Saí quando percebi – e aceitei – que aquela comunidade, com seus méritos e seus defeitos, não era mais para mim. E por motivos muito pessoais. Mesmo. Vivi experiências lindíssimas naquele lugar. E também momentos que prefiro deixar que o tempo leve para bem longe de mim.

Chorei muito quando decidi sair. Uma dor que não cabia em mim. Mas aprendi tanto nesse processo, mas tanto mesmo, que agradeço todos os dias pela oportunidade de acessar lições preciosas que muita gente só descobre quando a força no braço para mudar a direção do leme da vida já é menor do que a vontade de sonhar com algo novo, utópico (talvez), e, por isso mesmo, vibrante, tão necessário à nossa sanidade. Porque aí vem a frustração e o arrependimento, dores terríveis para se viver na alta maturidade…

Quando, enfim, me mudei da ecovila, troquei o mato por uma cidade grande, mas pousei em um bairro tranquilo, com muito verde e silêncio. Precisei de tempo para me curar. Fechei minha casa como quem protege um templo. E, nesse recolhimento, fechei também os olhos para algumas possibilidades. Nada de muita conversa com vizinhos, nada de reuniões da associação dos moradores do bairro… Pudera, eu vinha de uma ‘overdose’ de comunidade…rs… Precisava de tempo para me desintoxicar.

Esse tempo chegou no tempo certo, no tempo da verdade, no tempo do coração. E a minha listinha de descobertas deliciosas ficou mais encantada: comunidade é algo que construímos onde mora nossa presença. Onde mora nosso coração.

(Foto: Andreas Wagner / Unsplash)

Jornalista ambiental e permacultora, escreve sobre bioconstrução, arquitetura e design sustentáveis, economia solidária, consumo consciente, alimentação orgânica, maternidade e simplicidade voluntária. É autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Editora Senac São Paulo).

Giuliana Capello

Jornalista ambiental e permacultora, escreve sobre bioconstrução, arquitetura e design sustentáveis, economia solidária, consumo consciente, alimentação orgânica, maternidade e simplicidade voluntária. É autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Editora Senac São Paulo).

Um comentário em “Vida em ecovila: comunidade a gente constrói (e destrói) em qualquer lugar

  • 5 de julho de 2018 em 1:57 PM
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    Parabéns pela nova fase, você continua sendo uma escritora que inspira, jornalista de uma vida repleta de vivências, inspiração que brota das palavras como água cristalina que segue seu brilhante rumo.

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