#ViajoSozinha: pelo fim da violência, discriminação e desrespeito às mulheres

#ViajoSozinha, hashtag viral depois do assassinato das turistas argentinas
#ViajoSola. A hashtag em espanhol tomou conta das redes sociais nos últimos dias, depois do assassinato chocante e brutal de duas turistas argentinas, que visitavam o Equador. Maria José Coni, 22 anos, e Marina Menegazzo, 21, estavam percorrendo a América do Sul, de mochila nas costas. A viagem acabou no balneário de Montañita. Uma delas foi morta com um golpe na cabeça, após uma tentativa de assédio, e a outra, a facadas.

Nos dias seguintes à divulgação da notícia, muitos foram os debates sobre o tema na Argentina e em outros países latinoamericanos, onde houve comoção com o assassinato repugnante das duas jovens. E neles, ficou claro que o preconceito contra as mulheres ainda é latente em nossa sociedade. Em entrevista à uma publicação local, um psiquiatra argentino falou que “as vítimas eram mulheres que assumiam um alto risco e, de alguma maneira, formam parte do que movimenta o crime”.

Como?! É isto mesmo? Em pleno século XXI, ainda há pessoas que pensam como este senhor? E o pior, que tem coragem de dar sua opinião machista e reacionária em público?

No Brasil, não é diferente. Segundo o Mapa da Violência 2015 – Homicídio de Mulheres no Brasil, de 1980 a 2013, o número de mulheres vítimas de homicídio no país cresceu 252%. Antes, eram 2,3 vítimas por 100 mil e há três anos, passou para 4,8 por 100 mil. A violência contra elas aumenta sem freios.

E não é só a violência física que ainda agride mulheres aqui e no resto do mundo. Há o assédio moral, psicológico. E agora, o virtual. É a piada grosseira. É o estereótipo de que a mulher é um ser inferior ao homem.

Por que afinal mulheres não podem viajar sozinhas? Vamos tentar entender. Mulheres trabalham, ganham seu próprio dinheiro. Se sustentam. Hoje, no Brasil, em muitas casas, elas são as principais provedoras de suas famílias. Todavia, se decidem viajar sem acompanhante – um homem, isso parece, claro – estão correndo perigo. Qual perigo? De serem assediadas por eles, quando não – no caso de Mariana e Maria – mortas.

Então, o problema não está nas mulheres. Mas nos homens. São eles que oferecem risco às mulheres. São animais como os dois monstros que assassinaram Maria e Marina. Que talvez tenham crescido ouvindo de seus pais que “mulher não deve usar roupa curta” ou “mulher não deve frequentar este ou aquele lugar”. Estes assassinos foram criados por uma sociedade que incute em suas crianças a mentalidade de que meninos não podem chorar e meninas devem sonhar em ser mães e donas de casa.

A culpa não é só dos homens. A culpa é nossa como sociedade. O preconceito deve ser eliminado pela raiz. Não pode haver mais espaço para discriminação, desrespeito ou violência. Homens e mulheres têm diferenças físicas e psicológicas que os fazem únicos. Mas perante a lei, são iguais. Merecem ter os mesmos reconhecimentos e direitos, seja no âmbito familiar ou profissional. Estado e empresas devem garantir isto de forma clara e contundente.

Sim, eu #ViajoSozinha. E todas as mulheres do mundo devem ter este direito. Lutaremos para que ele seja respeitado.

Termino este post reproduzindo o texto Ayer me mataron (Ontem me mataram, em espanhol), do Facebook da estudante universitária paraguaia Guadalupe Acosta, que escreveu uma carta, em primeira pessoa, como se fosse uma das vítimas. O texto, que mais parece um soco no estômago em cada um de nós, já teve, até o momento, 720 mil compartilhamentos.

Leia, reflita e divulgue a hashtag #ViajoSozinha nas suas redes sociais:

“Ontem me mataram.

Neguei-me a deixar que me tocassem e com um pau arrebentaram meu crânio. Me deram uma facada e me deixaram morrer sangrando.

Como lixo, me colocaram em um saco de plástico preto, enrolada com fita adesiva, e fui jogada em uma praia, onde horas mais tarde me encontraram.

Mas, pior do que a morte, foi a humilhação que veio depois.

A partir do momento que viram meu corpo inerte, ninguém se perguntou onde estava o filho da puta que acabou com meus sonhos, minhas esperanças, minha vida.

Não, preferiram começar a me fazer perguntas inúteis. A mim, podem imaginar? Uma morta, que não pode falar, que não pode se defender.

Que roupa estava usando?

Por que estava sozinha?

Como uma mulher quer viajar sem companhia?

Você se enfiou em um bairro perigoso. Esperava o quê?

Questionaram meus pais, por me darem asas, por deixarem que eu fosse independente, como qualquer ser humano. Disseram a eles que com certeza estávamos drogadas e procuramos, que alguma coisa fizemos, que deviam ter nos vigiado.

E só morta entendi que para o mundo eu não sou igual um homem. Que morrer foi minha culpa, que sempre vai ser. Enquanto que se o título dissesse “foram mortos dois jovens viajantes” as pessoas estariam oferecendo suas condolências e, com seu falso e hipócrita discurso de falsa moral, pediriam pena maior para os assassinos.

Mas, por ser mulher, é minimizado. Torna-se menos grave porque, claro, eu procurei. Fazendo o que queria, encontrei o que merecia por não ser submissa, por não querer ficar em casa, por investir meu próprio dinheiro em meus sonhos. Por isso e por muito mais, me condenaram.

E sofri, porque já não estou aqui. Mas você está. E é mulher. E tem de aguentar que continuem esfregando em você o mesmo discurso de “fazer-se respeitar”, de que é culpa sua que gritem que querem pegar/lamber/chupar algum de seus genitais na rua por usar um short com 40 graus de calor, de que se viaja sozinha é uma “louca” e muito seguramente se aconteceu alguma coisa, se pisotearam seus direitos, você é que procurou.

Peço a você que por mim e por todas as mulheres que foram caladas, silenciadas, que tiveram sua vida e seus sonhos ferrados, levante a voz. Vamos brigar, eu ao seu lado, em espírito, e prometo que um dia seremos tantas que não haverá uma quantidade de sacos plásticos suficiente para nos calar”.

#ViajoSozinha-3-800

 

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Fotos: reprodução Facebook

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

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