Viagem no clarone e no canto da sereia

Ó Galão. Deus insensato da gasolina.

Nossa oração insustentável clama pela manutenção das superficialidades acomodadas na direção do umbigo.

Cremos nas suas estradas e rodas.

Bem menos em caminhadas da moda.

Tênis de pequenas rodas, patim, anjo serafim.

É o fim.

É o fingir.

É o apagar do simplório fiz, do natural quis, da instrução com giz.

Nesse quadro os professores são bonecos desvalorizados. Não são protagonistas como os do espetáculo Giz, do Giramundo. Os bonecos têm matiz giz, mas, no palco, podem mudar de cor, dependendo da luz. Vem mágica assim e transforma as colorações que entristecem nosso sistema educacional com a nebulosa falta de prioridade, com os desvios de recursos das obras de escolas no Paraná, como se fossemos todos marionetes na mão dos políticos.

Melhor mesmo estar na companhia dos nossos amigos marionetes, fantoches e bonecos do Giramundo. Eles são de pedir para tocar, abraçar, arrancar resposta, cutucar. Expressões de parar e olhar, olhar, olhar… As faces moldadas em papel machê são uma cola elástica na retina que fica pedindo a próxima cara, o gesto facial nascente no inexistente. E ele vem. Um encontro de articulação macia interligado pelo tênue fio que nos liga à arte. Lá na exposição, daquele jeito parecendo paradinhos, esses bonecos nos enganam.

Estancar na frente de cada um deles foi para mim uma arruaça na alma. Uma falta clara de necessidade de decisão. Calma farta, à altura da palma da mão. Levantei voos, aguardando com vontade as escalas. Na sala sem palco eles atuaram para mim.  Os olhos viram movimento na inércia, silêncio sussurrando poesia, suscitando um palavrório interno.

Ainda que sem saber direito o roteiro previsto para cada boneco, uma historinha ia se formando cá dentro.

Sorte dos curitibanos que os bonecos mineiros não vão permanecer apenas na sala de exposição. Vão ganhar o palco da Caixa Cultural com o espetáculo Pedro e o Lobo, nos próximos dias 9 e 10 de junho.

Já estava por terminar o post, mas aí fui ao show de lançamento do “Clarone no Choro”, do Sérgio Albach, no Conservatório de MPB, também aqui em Curitiba. O show não bastou e tive que chegar em casa e ouvir o CD. Só ouvir não bastou e tive que sentar para continuar escrevendo isso que vai se transformar numa salada textual, sim, mas com muita harmonia, temperada pelos arranjos do diretor musical do CD Daniel Migliavacca.

O sal quem trouxe foi K-Chumbinho, num choro em homenagem a um dos maiores saxofonistas do Brasil, Zé Bodega. Ele ganhou esse apelido porque na infância fingia ter uma bodega. E sabe o que ele vendia lá? Areia, mas como se fosse sal. Podia ter dessalgado um bacalhau para conseguir o sal de verdade. Já que tem que ser bacalhau com espinha que seja feito do jeito certo, não, Sérgio? Você se safou bem de engasgar com o choro Espinha de Bacalhau, do maestro da Orquestra Tabajara, Severino Araújo, embora ele deva ter composto esse monte de notas diferentes justamente para isso…

Para fingir sal também podia ter pedido giz para o Giramundo e, então, sair por aí para girar o mundo… Mas, ultimamente anda difícil até uma viagem rápida nacional. O clarinetista Proveta viria para o show de lançamento, mas não conseguiu se organizar por causa da greve dos caminhoneiros…  Será que ele vem para o próximo show, dia 9, na Casa Heitor Stockler, às 11h?

O Galão nosso de cada dia nos dai hoje…

Não… Para mim não precisa. Me dá uma caminhada numa floresta de cogumelos tipo essa viagem que é a capa (ilustração Pryscila Vieira) e o CD do Sérgio.

Ou me deixa aqui perdida em qualquer canto.

SHOW: CLARONE NO CHORO
Data: 9 de junho
Horário: 11 horas (duração: 60 minutos)
Valor: gratuito, com opção de ingresso solidário (doação de 1 litro de leite ou 1 livro infantil)
Classificação: livre
Local: Centro Cultural Sesi Heitor Stockler De França – Av. Mal. Floriano Peixoto, 458 – Centro
Observação: sujeito a lotação

EXPOSIÇÃO: MOSTRA MUNDO GIRAMUNDO
Data: até 12/08
Horário: terça a sábado, 10h às 20h; e domingo, 10h às 19h.
Horário da Bilheteria: (41) 2118-5111
Local: Galeria Caixa Cultural – Curitiba. Rua Conselheiro Laurindo, 280
Entrada franca

TEATRO: “PEDRO E O LOBO” COM O GRUPO GIRAMUNDO
Data: 09 e 10 de junho de 2018 (sábado e domingo).
Horário: sábado, às 15h e às 17h; e domingo, às 15h.
Ingressos: R$ 10 e R$ 5
Local: Caixa Cultural – Curitiba.  Rua Conselheiro Laurindo, 280
Classificação: Livre

Fotos: divulgação e reprodução internet 

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

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