Via láctea

via láctea

O céu estrelado sempre me despertou muita curiosidade. Observando as milhões de estrelas cobrindo minha cabeça, me vem o pensamento da engenhosidade humana que conseguiu definir relações que auxiliaram e, ainda auxiliam, as navegações, a imaginação que forma desenhos de constelações e que atribuímos valores e imagens a elas.

Penso como cada cultura interpreta e liga o mesmo conjunto de estrelas de maneira própria. Penso nos mitos e lendas criados por cada cultura, por cada povo e mesmo agora, com alta tecnologia desvendando alguns dos seus mistérios, o céu estrelado provoca sensações particulares em mim e em cada ser humano que olha para a abóboda celeste numa noite escura.

Penso no crescimento urbano, na “poluição” luminosa que dificulta cada vez mais o cidadão comum olhar para o céu e perceber a grandeza do universo do qual somos apenas um pequeno grão.

Sinto o estresse do dia a dia, os smartphones, a televisão e tantas outras coisas que me desviam a atenção para o mundo natural e acabo contemplando menos a maravilha na qual estamos inseridos.

Estando longe das cidades e sem o menor sinal de wi-fi, resta-me então olhar para o céu que sempre olhamos com admiração e espanto ao mesmo tempo.

Esta foi a sensação que tive e tentei reproduzir nesta foto no Amapá numa aldeia Waiãpi, onde participei de uma expedição para avaliar as dificuldades de acesso ao Parque Nacional do Tumucumaque, subindo o rio Jari.

Foram algumas semanas com uma paisagem amazônica diferente da que estamos acostumados a ver. O rio tem muitas corredeiras e é perigoso. Em um dado momento, subimos o rio Inipoku, um afluente do rio Jari, que faz divisa com o parque nacional.

Foi um dia com dificuldades, cansativo, muitos desembarques para puxar e empurrar os barcos até chegar na aldeia Kamaiurá. Um local aprazível, numa curva do rio com uma floresta exuberante ao redor e uma pequena aldeia assentada num local mais alto e ventilado. Os membros da expedição foram bem recebidos e o cacique, bastante jovem, ajudou a organizar a noite para visitantes.

Instalamos nossas redes já no final da tarde. Fui tomar banho no rio, próximo ao pôr-do-sol, ainda com um pouco da luz do dia para não precisar utilizar a lanterna. Ao retornar, olhei para o céu com as estrelas começando a aparecer e imaginei uma foto que desse a sensação de isolamento, grandiosidade do universo e sobrevivência ao mesmo tempo.

Corri para pegar o equipamento. Posicionei a câmera de forma a visualizar a Via Láctea, a oca e dar condições das pessoas circularem com suas lanternas “riscando” o sensor da câmera.

O pôr-do-sol na Amazônia é rápido, são alguns minutos precisos com a luz certa, depois é só escuridão. Armei o tripé e com a lente olho de peixe enquadrei o que precisava. A primeira foto que fiz a cobertura da oca ficou escura, perdendo a sensação que eu queria dar. A solução foi o uso de um flash com filtro âmbar, disparado a uns 15m da câmera direcionado para a cobertura. O filtro serviu para “esquentar” a luz do flash, parecendo que era iluminada por uma fogueira.

Consegui aproveitar os últimos instantes do crepúsculo. Poucos minutos depois, o céu já estava totalmente escuro. No final gostei do resultado da foto. E dos pensamentos sobre o universo.

Equipamento: Nikon D2x, WB luz do dia. ISO 1000. Lente Nikon 10,5mm F2.8, tempo de exposição: 60 segundos. Tripé Manfrotto 055. Flash: Nikon SB-800 com filtro âmbar em modo automático programado para abertura 5.6 ISO 1000.

Zig Koch

Fotógrafo profissional com ênfase em imagens de natureza, turismo e viagens. Autor de 14 livros e 25 exposições individuais, sendo quatro internacionais. Percorreu todos os biomas brasileiros, viajou para vários países de outros continentes, fotografando para revistas, ONGs e empresas.

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