Vazamento de mineradora contamina rio no Pará e coloca em risco saúde de moradores da região

Vazamento de mineradora contamina rio no Pará

*Atualizado em 26/02/2018

No sábado dia 17/02, moradores do município de Barcarena, a 100 km de Belém, perceberam o aumento súbito do rio que atravessa a cidade. Apesar do volume excepcional de chuva , o alagamento estava fora do normal. Além disso, os relatos eram de mudança na cor da água, que ficou vermelha e barrenta.

Como próximo à Barcarena, existe uma mineradora, a população ficou receosa de que estaria acontecendo ali a mesma tragédia que ocorreu em Mariana, Minas Gerais, em novembro de 2015, quando dejetos da mineradora Samarco destruíram o município de Bento Rodrigues, deixando 19 pessoas mortas, tirando a vida de animais e contaminando a bacia do Rio Doce.

Pois um laudo divulgado ontem (22/02) pelo Instituto Evandro Chagas (IEC),que foi acionado pelo Ministério Público do Estado do Pará e Ministério Público Federal para fazer inspeções no local, confirmou que houve vazamento das barragens de rejeitos de bauxita (matéria-prima para a fabricação do alumínio) da mineradora norueguesa Hydro Alunorte e que a água está contaminada com os dejetos do minério.

“A empresa fez uma ligação clandestina para eliminar esses efluentes contaminados que estavam acumulados dentro da fábrica para fora da área industrial, contaminando o meio ambiente e chegando às comunidades de Bom Futuro, Vila Nova e Burajuba”, afirmou Marcelo de Olivera Lima, pesquisador em saúde pública do IEC, em coletiva de imprensa.

Ainda segundo Lima, os índices de chumbo, sódio, nitrato e alumínio estavam acima do permitido, além do PH estar no nível 10. “Ou seja, o líquido estava extremamente abrasivo e nocivo aos seres vivos”, alertou.

A mineradora Hydro Alunorte, que inicialmente havia negado a ocorrência do vazamento, em comunicado para a imprensa, afirmou que “acaba de tomar conhecimento sobre o laudo e irá analisar o material para se pronunciar sobre o assunto”.

Em uma segunda inspeção, foi constatado ainda a existência de uma tubulação clandestina, que serviu para escoar os resíduos tóxicos para áreas próximas da refinaria, entre elas, zonas de mangue e matas.

O Instituto Evandro Chagas recomendou o fornecimento de água potável às comunidades impactadas e a criação de um plano emergencial, que possa prever a emissão de alertas no caso de vazamentos, já que não houve nenhum sinal acionado na hora do acidente.

O instituto alerta ainda que se as chuvas fortes voltarem à região, a empresa não tem condições de conter novo vazamento.

Em 2009, a Hydro Alunorte já havia sido multada por crime ambiental pelo Ibama. Na época, a empresa foi responsabilizada pelo vazamento de resíduos industriais em córregos de Barcarena. Funcionários do Ibama relataram que foram barrados na entrada da mineradora no dia do acidente.

Peixes morreram e moradores que vivem às margens do rio ficaram sem água potável.

Reportagem da BBC Brasil, de junho de 2017, afirma que “a mineradora Hydro é alvo de denúncias do Ministério Público Federal do Pará e de quase 2 mil processos judiciais por contaminação de rios e comunidades de Barcarena…  e a empresa até hoje não pagou multas estipuladas pelo Ibama em R$ 17 milhões, referentes ao transbordamento de 2009”.

Ainda segundo a BBC, “testes realizados pelo Laboratório de Química Analítica e Ambiental da Universidade Federal do Pará (UFPA) indicaram que um em cada cinco moradores da região onde estão as empresas norueguesas está contaminado por chumbo, com uma concentração do elemento químico no corpo sete vezes maior do que a média mundial”.

Ou seja, não faltam denúncias contra a Hydro Alunorte. Vale lembrar, que o acionista majoritário e controlador da mineradora é o próprio governo da Noruega – aquele mesmo que criticou o Brasil no ano passado sobre o desmatamento na Amazônia.

Ontem, a embaixada norueguesa divulgou nota, em Brasília em que afirma “Investigações para determinar as origens do vazamento estão em andamento. Antes de chegar a conclusões e definir quaisquer intervenções, é preciso determinar a sequência de eventos ocorridos após as fortes chuvas da semana passada”.

O que os brasileiros se perguntam agora é se o crime tivesse sido cometido na Noruega, a reação daquele país seria mesma.

Mesmo que em proporções menores do que no desastre de Mariana, esta nova tragédia revela a negligência, o despreparo e a falta de transparência do trabalho de mineradoras no Brasil. Enquanto essas empresas continuam lucrando com os recursos naturais explorados em nosso país, centenas de brasileiros e o meio ambiente sofrem com suas operações desastrosas e criminosas.

*Com informações da BBC Brasil e do portal de notícias G1

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Foto: divulgação Instituto Evandro Chagas

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

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