Vamos aprencar?

Em meio a tantas acelerações, descaminhos e exageros diários, há uma palavra que vem perdendo significado, não apenas na infância, mas em qualquer etapa da vida de todos os seres humanos: brincar. Sim, as crianças brincam e muito, mas nos referimos aqui, especialmente, ao significado do ato de brincar.

Brincar é uma genuína metodologia de pesquisa do mundo. É por meio das interações, explorações, criações e transformações, que acontecem em meio a brincadeiras, que as crianças percebem, compreendem e se desenvolvem. É assim que aprendemos, todos nós. Um aprender que não é restrito a conteúdos socialmente valorizados como linguagem, matemática, ciências. Nas brincadeiras, entendemos sobre o mundo de fora e o mundo de dentro, também. No brincar se aprende muito além dos conteúdos pré-estabelecidos por governos, escolas e outras instituições educacionais.

Aprendemos sobre o próprio corpo, pois brincamos com todo o nosso ser. Aprendemos a conhecer e a lidar com as próprias emoções e com as dos outros. Nossa imaginação é estimulada, aprendemos a ser livres, a criar mundos.

A socialização se dá espontaneamente e de acordo com a natureza de cada um. Desenvolvemos a habilidade de fazer junto, de liderar, de colaborar, de negociar. Ao brincarmos, aprendemos a pertencer, algo que nos falta para sermos livres e plenos: pertencer a um coletivo, ao grupo de amigos, à família, a uma sociedade e ao planeta. O sentimento de pertencimento traz bem-estar e promove qualidade às vidas das crianças.

Por mais que os estudos e a militância pelo brincar livre já exista há algumas décadas, cada vez mais se faz necessário falar sobre o assunto. A importância do brincar é ainda pouco conhecida pela sociedade e é entendida como algo dissociado da aprendizagem. Há uma lacuna na compreensão sobre a conexão do ‘brincar’ com o ‘aprender’. Esse paradoxo acontece especialmente nas escolas, que aceitam e reconhecem que o brincar é importante, mas com frequência ele não é legitimado com toda sua potência ao longo da rotina das crianças.

Brincar e aprender são duas palavras com definições, em princípio, bem diferentes. Elas não deveriam ficar separadas e a maneira como as utilizamos em nosso vocabulário faz diferença na apropriação do termo. Por isso, precisamos urgentemente de uma palavra única que signifique brincar e aprender ao mesmo tempo, para validá-las na mesma posição. Um neologismo que possa abrir as portas para uma compreensão cada vez maior sobre a inseparabilidade entre o brincar e o aprender.

Brincar e aprender têm origem latina. Um dos significados de brincar é encantar. E de aprender é adquirir conhecimento. Hoje, sabemos que se adquire conhecimento brincando muito mais – até – do que estudando. Brincar livre, brincar com a natureza – a das crianças e a do mundo -, ambas se encontrando num exercício de descoberta e encantamento. Então, qual seria melhor: brinprender? aprencar? aprenbrincar? infanciar?

No título, já fizemos nossa escolha. Agora, queremos convida-l@ para fazer a sua.

Foto: Renata Stort

Edição: Mônica Nunes

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto “Ser Criança é Natural” para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

Ana Carolina Thomé e Rita Mendonça

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto "Ser Criança é Natural" para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

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