Vai um suco de jerivá aí?

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Das muitas palmeiras brasileiras, uma pode ser considerada a preferida das crianças e dos bichos em toda a região da Mata Atlântica, tanto onde ainda existe floresta fechada, mata ciliar ou mata secundária como nas terras ocupadas por gente. A maioria dos adultos nem presta muita atenção aos cachos fartos, mas ainda existem por aí muitos pequenos consumidores dos seus coquinhos de polpa pegajosa, cor amarelo-ouro e sabor adocicado.

O nome mais comum é jerivá (Syagrus romanzoffiana), derivado do tupi jaribá ou yaribá, cujo significado é o fruto em cacho, que cai à toa. Tem razão de ser, pois essa palmeira produz durante o ano inteiro, em cachos de 10 quilos, em média, ou algo em torno de 1.400 coquinhos, cada um com 2 a 3 centímetros!

A espécie ocorre com maior frequência na região litorânea, do Espírito Santo ao Rio Grande do Sul. O porte é médio, uns 15 metros de altura, mas pode chegar ao dobro no meio da mata fechada. Na natureza, é semeada pelas muitas aves e vários mamíferos que dela se alimentam: araçaris, periquitos, maracanãs, saíras, sanhaços, tucanos ou caxinguelês, cotias e até cachorros-do-mato, conforme indica outro de seus vários nomes comuns: coquinho-de-cachorro.

Entre os homens, até recentemente, apenas algumas etnias indígenas (guaranis, sobretudo) se preocupavam em semear jerivás. Mas isso está mudando em Mairiporã, nas vizinhanças da capital paulista. Ali, o produtor Arnaldo Teles de Ataíde e a bióloga Roseli Madeira, do Parque Jussara, promovem o adensamento de palmeiras jerivá em sua propriedade e compram os coquinhos dos vizinhos para a produção de polpas, com o objetivo de revender a fabricantes de sorvetes e iogurtes, além de produzir sucos com a adição de limão, abacaxi ou maracujá.

Em geral, o coqueiro jerivá escapa aos desmatamentos porque o caule é cheio de fibras, difícil de serrar. Então ainda há uma boa população dessas palmeiras nas roças. Encontrar um uso para os coquinhos é uma alternativa de renda extra e reforça o time dos defensores dos sistemas agroflorestais, mais adequados para terrenos acidentados como os de Mairiporã e da Serra do Mar, onde não faltam jerivás nativos.

“A produção de coquinhos é muito grande e os produtores que ficavam incomodados com a sujeira ficaram animados com a ideia de vender”, conta Roseli. “Eles não precisam nem colher: vamos até as propriedades com uma equipe, subimos em escadas e cortamos os cachos maduros, que são amparados em uma lona, para não machucar os frutos”. A capacidade para atender o mercado é de 3 a 4 toneladas de polpa por mês e, se houver demanda, pode subir rapidamente para 20 toneladas mensais.

“Estamos providenciando o registro junto ao Ministério da Agricultura e também começamos a construir uma cozinha industrial para atender às exigências da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)”, prossegue Roseli. “Fizemos testes de viabilidade e levamos para indústrias de sorvetes, que se interessaram”.

O jerivá é rico em Omega 3, 6 e 9 e tem muita vitamina A, entre 4 e 7 vezes mais do que o buriti, que é usado na merenda escolar para reduzir a carência de carotenoides. A composição da polpa foi estudada por Flora Goudel, em seu mestrado em Ciências Agrárias junto à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A pesquisadora concluiu que “a bebida de jerivá se destaca pelo alto teor de carboidratos totais e pelo perfil de ácidos graxos rico em óleos mono e poliinsaturados, além do elevado conteúdo de carotenóides e fibras solúveis, podendo ser uma fonte destes nutrientes, se incluída na dieta”.

Outro grupo de pesquisa interessado no jerivá é o do Laboratório de Mecanização Agrícola da Universidade Estadual de Ponta Grossa (Lama/UEPG), no Paraná. De acordo com o engenheiro agrícola Pedro Henrique Weirich Neto, os coquinhos de jerivá podem ser despolpados facilmente em máquinas semelhantes a grandes liquidificadores, após imersão por uma hora em água quente.

Já o uso do óleo retirado das amêndoas depende do desenvolvimento de equipamentos mais resistentes porque a casca é muito dura. A equipe do Lama/UEPG agora trabalha nisso. “O óleo poderia ser usado nas indústrias alimentícia, cosmética e na fabricação de biocombustíveis”, diz Weirich Neto. Segundo ele, o óleo de jerivá tem potencial para substituir o de soja na cozinha, liberando um pouco mais do grão para a produção de biocombustíveis.

Roseli Madeira também acredita na utilização de outros subprodutos do jerivá na indústria cosmética e na impermeabilização de revestimentos, móveis e de artefatos feitos de bambu. Agora só falta tornar conhecidas do público consumidor essas novas matérias primas da nossa biodiversidade.

Foto: Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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