Use umbu contra sede, escorbuto e rugas

Umbu1_Rodrigo ArgentonCCWikimedia

Não tem coisa melhor do que encontrar um umbuzeiro carregado no meio do sertão nordestino! Tive essa grata surpresa mais de uma vez, no escaldante meio-dia de Ouricuri, no interior pernambucano!

Além da sombra farta e fresca da árvore, os frutos azedinhos são fatais para a sede teimosa de quem caminha ao sol. O umbuzeiro é nativo da Caatinga e atende pelo nome científico de Spondias tuberosa. Pertence a um seleto grupo de plantas capazes de armazenar água em suas raízes, por isso atinge boa altura para uma árvore sertaneja – ao redor dos sete metros – e consegue manter uma copa densa com até 22 metros de diâmetro.

Em caso de muita necessidade, os vaqueiros recorrem às raízes da árvore, obtendo água, sais minerais e vitaminas, incluindo uma boa dose de vitamina C para combater o escorbuto.

O nome umbu vem do tupi-guarani ymbu e pode ser entendido como “árvore que dá de beber”, segundo Luís da Câmara Cascudo. A frutificação ocorre entre dezembro e março, quando então se produzem doces em calda e umbuzadas (sumo fervido de umbu com açúcar e leite). Os frutos in natura também são vendidos em mercados e feiras locais, mas não viajam muito porque estragam em 2 ou 3 dias. A produção de polpas ajuda a contornar a alta perecibilidade e melhora bastante a renda dos agroextrativistas.

Felizmente, o umbu já ultrapassa os limites da Caatinga pelas mãos dos pesquisadores, atraídos por suas qualidades nutracêuticas e cosméticas. Como alimento (nutracêutico), o umbu tem vitamina C (a exemplo das raízes) mais vitamina B1, provitamina A, cálcio e fósforo.

Entre as propriedades cosméticas, destacam-se compostos fenólicos considerados antioxidantes e rejuvenecedores da pele, de acordo com os resultados obtidos em uma pesquisa coordenada pela farmacêutica Vanderlan da Silva Bolzani, do Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (IQ-Unesp), com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e parceria com suíços e empresas privadas.

No mercado cosmético, o umbu já serve de base para uma linha revigorante para rosto da sofisticada L’Occitane au Brésil e também está na fórmula de sabonetes, creme para mãos e creme corporal da Bio Florais. A empresa brasileira trabalha há 11 anos com essências florais e criou uma linha chamada Bio Brasilidades com produtos à base de plantas nativas. Os produtos à base de umbu também têm mandacaru, outra essência da Caatinga. Segundo Synthia Kairos, da Bio Florais, o umbu foi escolhido por sua ação contra o envelhecimento da pele e a flacidez.

A grande maioria dos frutos comercializados vem da simples coleta ou do manejo de árvores nativas. São muito poucas as plantações comerciais de umbuzeiros, concentradas nos municípios baianos de Livramento de Nossa Senhora e Dom Basílio.

Entre os pesquisadores preocupados com a conservação da espécie, o principal receio é o aumento da criação de caprinos no sertão, pois as cabras predam os frutos e as mudas de umbu, sem dar chance à renovação natural da espécie. Originalmente, essa renovação natural era garantida por veados-catingueiros, catetos, cotias e tatus-peba, mas o acesso desses animais silvestres aos umbuzeiros é cada vez mais difícil, seja devido à presença de animais domésticos nas proximidades de habitações humanas, seja porque sobram poucos frutos no chão para seu consumo.

Assim, generalizar o manejo sustentável dos umbuzeiros é crucial para o aproveitamento econômico do umbu e para a sobrevivência da espécie. Já existem diversas recomendações técnicas e até uma cartilha para quem quiser cuidar bem de suas “árvores que dão de beber”: Boas Práticas de Manejo para o Extrativismo Sustentável de Umbu, de Lilian Santos Barreto e Marina Siqueira de Castro, publicada em 2010 pela Embrapa Recursos Genéticos e pelo Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN).

Conforme as autoras, um umbuzeiro bem tratado pode produzir cerca de 300 kg de frutos por safra e a maior parte dessa produção tem condições de chegar ao consumidor final, com o devido cuidado. É uma alternativa de renda extra para os sertanejos e pode dar origem a uma série de produtos novos para quem é fã da biodiversidade produtiva.

Foto: Rodrigo Argenton/CCWikimedia

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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