Uma proliferação qualquer

Semillas, samen, seeds, semente. Procuro uma língua em que esta palavra não soe bem. Parece que quando chega com o vento, atinge o ouvido suave e delicadamente. Vem morna, cochichando… Sssssemente... Franca e pronta. Direto na terra. Ou cheia de couraças, com um jeito que quase bate na impossibilidade da germinação.

Manga, abacate, laranja, gergelim, óvulo e espermatozoides, assim esquizoides, divididos na correria tentando chegar. Como na vida. Como na arte. Como na obra da chilena Andrea Silva-Guzmán. Transparências plásticas volumosas num arremedo orgânico humano. O desejo do despejo reprodutor agigantado e escancarado para os nossos olhos curiosos.

Na nossa rede que prolifera… O verbo, eu sei, pede um complemento. Mas, há tanta coisa que cabe aqui que me faz perder o rumo… Deixo para você escolher. Perguntemo-nos. O que prolifera neste dado instante em mim? O que pode ser esta sequência repetitiva colorida e infinita que se espalha rapidamente pelo nosso ar e pelo nosso espaço? Por dentro e por fora. Vai deslizando pela pele. Ou, quem sabe, desça arranhando pela garganta. Talvez se espalhe como formiga sob nossos pés dormentes. Ou suba correndo como um arrepio pela coluna.

Cresça como um casulo. Como uma colmeia. Um vespeiro que ninguém quer mexer.

Difícil conter no suporte quadrado das melhores intenções que acabam não servindo para nada. Afinal, como já diz o ditado: de boa intenção o inferno tá cheio. Cheinho. Uma rede difícil de não cair…

Tenho que dizer: acho que esse pessoal que produz alimentos para matar a fome do mundo se inclui nessa situação. Alimentos podres, com ácido ascórbico e corante, espessante,  aromatizante… Viramos um depósito de experimentação e contaminação.

Lâmpada cósmica universal. Acenda-se de uma vez. Ilumine com seus raios os caminhos dos fracos. E que cada feixe se prolongue como armas de porco espinho contra os donos da indústria que mata devagar. Para não precisarmos parar na UTI das transfusões desconexas e intermitentes. Que o olhar não se apague. Que a luz continue entrando pelos poros, pelos e pupilas.


 

Fotos: divulgação artista – 1.De Esperas, Pérdidas y Desencuentros, 2. Proliferación, 3. Sem título, 4. Sem título, 5. Colonia, 6. Casa Núcleo, 7. Circuito Cerrado-Herencia 

Jornalista cultural apaixonada por temas ambientais. Colaborou para várias revistas como Bravo!, Isto É, Nova e jornal Gazeta do Povo. Em TV, foi editora-chefe do programa Gente.com. Trabalhou como produtora e editora nos programas QI na TV, Com a Palavra, Aqui entre Nós, É Cultura. Foi repórter de TV por 12 anos e jornalista responsável pelo Guia Cultural Curitiba Apresenta. Mantém o blog de crônicas Nunca precisou de chão firme.

Karen Monteiro

Jornalista cultural apaixonada por temas ambientais. Colaborou para várias revistas como Bravo!, Isto É, Nova e jornal Gazeta do Povo. Em TV, foi editora-chefe do programa Gente.com. Trabalhou como produtora e editora nos programas QI na TV, Com a Palavra, Aqui entre Nós, É Cultura. Foi repórter de TV por 12 anos e jornalista responsável pelo Guia Cultural Curitiba Apresenta. Mantém o blog de crônicas Nunca precisou de chão firme.

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