Uma olhadinha a mais

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Quando se escolhe ser fotógrafo de natureza, se faz junto uma opção por ser aquela pessoa que acorda o galo antes de ir para o trabalho. De forma geral, a melhor luz para as paisagens acontece nos momentos onde o sol está muito próximo do horizonte – no começo ou fim do dia. Isso significa acordar (e ter ânimo para sair da cama!) pelo menos uma hora antes do amanhecer. Às vezes mais, se for necessário se deslocar muito até o ponto onde se quer fotografar.

Nos meus tempos de atividades mais intensas na área ambiental, fui convidado para participar de uma oficina de trabalho na Isla del Sol, na porção boliviana do Lago Titicaca. Foram alguns dias avaliando e orientando a continuidade de estudos de jovens pesquisadores na área de economia ambiental.

Como, por sorte, economistas têm horário de trabalho mais tradicional, me sobravam as melhores horas do dia para fotografar a paisagem e cultura do lugar. Mas a Isla del Sol testa um bocado a determinação dos fotógrafos: com altitudes que chegam perto dos 4500 metros, o frio e a dificuldade para respirar, por conta do ar rarefeito, tornam a cama incrivelmente mais atraente.

Eu já havia perdido a primeira manhã por simplesmente ignorar o despertador, então era uma questão de honra levantar para fotografar naquele dia. Meu quarto era um tipo de chalé. A cama (com um edredom delicioso, diga-se de passagem) ficava colada na parede, e a janela próxima aos meus pés. Às 5 horas ouvi aquele som tenebroso que, dessa vez, não poderia ignorar.

Enrolei um tanto, na tentativa de encontrar uma justificativa para ficar na cama. Levantei um pouquinho a cabeça para olhar pela janela e, com um sorrisinho mental, vi um tempo absolutamente encoberto. Nuvens carregadíssimas cobriam um céu cinzento, o que, a princípio, seria motivo suficiente para ficar, pelo menos, mais duas felizes horas com o edredom.

Então lembrei que o sol nasceria num lugar que eu não conseguia ver só movendo a cabeça. Por desencargo de consciência, inclinei o corpo todo para frente para dar uma olhadinha a mais. E o que vi foi exatamente a imagem da foto deste post.

É incrível como a adrenalina faz com que a gente esqueça as dificuldades, porque levantei num salto para rapidamente armar meu equipamento e registrar o momento. Foram alguns minutos com essa luz magnífica, até que as nuvens voltaram a cobrir todo a paisagem. Ganhei mais uma hora e meia com o edredom, mas desta vez com a sensação de dever cumprido.

Marcos Amend

A natureza sempre foi uma paixão para Marcos Amend que, ainda adolescente, passou a observá-la também pelas lentes de uma máquina fotográfica. Assim, aliando o talento fotográfico à conservação do meio ambiente, há 25 anos viaja do Norte ao Sul do Brasil e pelos cantos mais remotos do mundo. Colabora com livros, revistas e bancos de imagens e realiza expedições, cursos e workshops de fotografia outdoor.

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