Uma casa de presente

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Em festividades ou datas comemorativas comerciais como Natal, Páscoa ou Dia das Crianças, quase todos têm em mente a lista de presentes que precisam comprar, especialmente aqueles que convivem com crianças na família. É uma tarefa árdua, realizada diariamente, manter as crianças afastadas da onda de consumismo que prevalece em nossa sociedade. E exige certa dose de criatividade pensar em presentes que não sejam objetos materiais, que depois de semanas ou meses ficarão encostados em um canto qualquer.

Mas será que presente tem que ser um objeto material ou algo que tenha valor monetário? Eu acredito que não. Por isso, acho que podemos pensar criativamente e dar às nossas crianças algo escasso em nossa sociedade: intimidade com a natureza ao nosso redor.

A geografia e a história natural da infância começam em família, em casa, seja esta localizada em um lugar remoto e cheio de natureza, seja no meio da cidade.

Os psicólogos Rachel e Stephen Kaplan, pioneiros nas pesquisas sobre a relação entre a criança e o ambiente, descobriram que, para desenvolver aquilo que o filósofo e conservacionista Aldo Leopold chamou de Ética da Terra, primeiro a criança explora e se envolve com o terreno baldio, o mato perto de casa, os bichinhos do quintal, as flores na calçada, as miudezas das quais nos fala Manoel de Barros. É por meio dessa relação de intimidade que acontece esse bem cada vez mais raro – o relacionamento de uma pessoa com um lugar.

Os povos indígenas sempre se consideraram pertencentes à terra em que viviam. E nós? Qual é o nosso habitat? A que terra nós pertencemos? A maioria de nós diz: “eu moro no Rio de Janeiro” ou “eu moro em Salvador”. Alguns ainda falam: “eu sou de Natal” ou “eu sou de Porto Alegre”. Eu sou de algum lugar. Eu pertenço a esse lugar. Enraizamento, topofilia, pertencimento.

Para que a criança possa desenvolver esse sentimento, é prioritário experimentar diretamente o que está ao seu redor, no seu chão. Pesquisas mostram que o espaço preferido das crianças para esse lindo exercício de apropriação não é aquela paisagem incrível que, por vezes, nós adultos imaginamos. Geralmente é um espaço pequeno, onde há terra, “coisas soltas” (folhas e galhos grandes e pequenos, pedras etc), árvores e água.

É preciso chegar dentro de casa com as mãozinhas cheias de pequenos tesouros da terra – sementes, asas de borboleta, pedras lisas, pauzinhos. Esses objetos encontrados na natureza nos ajudam a cultivar a sensação de casa expandida, ao mesmo tempo em que formam nossa identidade quando os mostramos para nossa família, os guardamos em nosso quarto e os protegemos.

Mas como podemos dar isso a nossas crianças?

Acredito que há dois caminhos, que andam juntos. Tempo e presença. Tudo o que precisamos – e por que será que é tão difícil de obter? – é ter tempo e uma disponibilidade cuidadosa para proporcionar esses pequenos encontros entre as crianças e a natureza e, assim, aproximá-las de uma infância milionária, como Manuel de Barros descreveu seus primeiros anos de vida.

Que em todos os dias do ano, datas comemorativas ou não, possamos dar um lar que vá além das paredes para as crianças! Que elas possam sentir que pertencem a um lugar que tenha plantas, animais, água e pedras. Que esse lugar lhes seja tão familiar e acolhedor que elas possam voltar a ele, em pensamento, quando forem homens e mulheres adultos e simplesmente for preciso.

Agora, fiquem com a música O Rio, de autoria de Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Marisa Monte e Seu Jorge:

Ouve o barulho do rio, meu filho
Deixa esse som te embalar
As folhas que caem no rio, meu filho
Terminam nas águas do mar

Quando amanhã por acaso faltar
Uma alegria no seu coração
Lembra do som dessas águas de lá
Faz desse rio a sua oração

Lembra, meu filho, passou, passará
Essa certeza, a ciência nos dá
Que vai chover quando o sol se cansar
Para que flores não faltem
Para que flores não faltem jamais

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Natureza registrada à mão

Foto: eliasfalla/Pixabay

 

Mãe da Raquel e do Beni, Engenharia Florestal e Mestre em Conservação de Ecossistemas, sempre trabalhou com educação e conservação da natureza. Desde 2015 é pesquisadora do programa Criança e Natureza do Alana.

Maria Isabel Amando de Barros

Mãe da Raquel e do Beni, Engenharia Florestal e Mestre em Conservação de Ecossistemas, sempre trabalhou com educação e conservação da natureza. Desde 2015 é pesquisadora do programa Criança e Natureza do Alana.

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