Uma carta de amor ao Pantanal

O Pantanal foi minha casa durante dois anos (de 2007 a 2009). Morava em uma pousada, no meio da maior planície inundável do mundo, isolado da civilização. Meu trabalho era guiar grupos interessados em história natural e conduzir passeios para a observação de animais selvagens. Acabei desenvolvendo uma relação especial com a planície pantaneira e me sentia em casa ao andar pelos campos abertos.

Hoje, 12 de novembro, Dia do Pantanal, gostaria de fazer uma homenagem compartilhando um pouco da minha experiência neste lugar extraordinário. Para isso recorri ao diário que atualizava ao final de todas as noites quando la morei, há nove anos, e selecionei o texto que escrevi no meu último dia por lá:

“Foi no ano de 2008 que tudo começou. Estava formado e desesperado para arrumar um emprego. Mandei currículo para todos os lugares possíveis e imagináveis. Passei por entrevistas, dinâmicas de grupo e todo aquele blá blá blá que fazem você passar antes de arranjar um trabalho. Nada dava certo. Eu era um biólogo que não queria dar aula nem fazer pesquisa, e os departamentos de RH me consideravam uma incógnita.

Então, recebi um telefonema do Refúgio Ecológico Caiman dizendo que eu havia sido contratado! Uma semana depois estava no Pantanal, começando o treinamento para ser guia de ecoturismo. Esse trabalho revelou minha paixão pela vida selvagem e mudou minha maneira de encarar o mundo.

O Pantanal é uma terra de extremos, com duas estações bem definidas controladas pelo ciclo das águas. Em abril, com o final das chuvas, começa a estação da seca. A água que inundava a planície passa a ser cada vez mais escassa e se concentra em pequenas poças onde os animais se amontoam para matar a sede. As aves começam a estação de acasalamento e se encontram com a plumagem exuberante para tentar conquistar companheiros. As árvores perdem as folhas para economizar água e o que antes era uma paisagem verde e exuberante se torna marrom e árida.

É quando um dos eventos mais marcantes do ano se inicia: a floração das piúvas (ou ipês). O Pantanal muda de cor e se torna rosa por uma semana. Depois é a vez do para-tudo colorir a planície de amarelo por sete dias. Em seguida, as flores roxas do tarumã fecham o espetáculo. Nessa época (meados de setembro) o capim fica esturricado e um raio pode começar um incêndio em um piscar de olhos.

Nesse momento, quando tudo está prestes a arder em chamas, chegam as chuvas que renovam a vida. O rio Paraguai e seus afluentes transbordam, inundam e transformam o Pantanal na maior planície alagável do planeta. As terras baixas são ocupadas completamente pela água e os campos abertos viram leitos de rios.

As plantas, revigoradas, voltam a produzir folhas e tudo fica verde novamente. As aves, que se acasalaram durante a seca, aproveitam a época de fartura para alimentar seus filhotes. Os mamíferos vão para lugares mais elevados, deixando os campos alagados para cegonhas, patos, jacarés e peixes que procuram por alimento entre as plantas aquáticas multicoloridas que começam a se desenvolver. A paisagem muda completamente e tudo parece tranquilo. Quando o sol está brilhando e a água acalma fica difícil dizer onde a Terra acaba e o Céu começa.

O Pantanal também é a terra dos peões. Pessoas simples e muito contidas, mas com uma sabedoria espantosa construída pelo dia a dia da vida pantaneira. Eles cuidam do gado, o principal aliado do bioma para a conservação. Como os campos abertos são naturais, não é preciso desmatar para fazer pastos. Os bois são criados soltos e convivem em harmonia com os animais selvagens. Muitas fazendas trabalham com ecoturismo, aliando atividade econômica e conservação do ambiente.

A vida pulsa por todos os lados, e é impossível não ficar emocionado com tanta beleza. É difícil sair daqui. Conheci pessoas incríveis (gente disposta a sacrificar a vida pela conservação de uma espécie) que me fazem acreditar que ainda há esperança para a Terra. O Pantanal me mostrou o que eu realmente gosto de fazer e, por isso, amo tanto esse lugar. Mas sinto que está na hora de procurar novos caminhos.

Saio daqui com a esperança revigorada e com o desejo de voltar. O Pantanal vai deixar saudades, mas estará sempre presente na minha memória e no meu coração”.

Fotos: Fábio Paschoal

Apaixonado por animais desde criança, logo decidiu estudar Biologia, formando-se pela USP em 2005. É técnico em turismo e trabalhou como guia a partir de 2008, tendo conduzido, por três anos, passeios de ecoturismo no Pantanal e na Amazônia. De 2011 até 2016, foi repórter e editor do site da revista National Geographic Brasil, onde nasceu o blog Curiosidade Animal (desde dezembro de 2016, aqui, no Conexão Planeta).

Fábio Paschoal

Apaixonado por animais desde criança, logo decidiu estudar Biologia, formando-se pela USP em 2005. É técnico em turismo e trabalhou como guia a partir de 2008, tendo conduzido, por três anos, passeios de ecoturismo no Pantanal e na Amazônia. De 2011 até 2016, foi repórter e editor do site da revista National Geographic Brasil, onde nasceu o blog Curiosidade Animal (desde dezembro de 2016, aqui, no Conexão Planeta).

Um comentário em “Uma carta de amor ao Pantanal

  • 12 de novembro de 2017 em 9:59 AM
    Permalink

    REALMENTE O PANTANAL E UMA REGIÃO MUITO BONITA.
    O NOSSO PAÍS É TODO LINDO, CADA REGIÃO COM SUAS BELEZAS NATURAIS.
    DA PENA DE VER, TUDO ISTO SENDO DESTRUÍDO,

    Resposta

Deixe uma resposta